{"id":779677,"date":"2021-08-27T10:18:03","date_gmt":"2021-08-27T13:18:03","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/?p=779677"},"modified":"2021-08-27T10:24:47","modified_gmt":"2021-08-27T13:24:47","slug":"santa-monica-mae-de-agostinho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/santa-monica-mae-de-agostinho\/","title":{"rendered":"Santa M\u00f4nica: m\u00e3e de Agostinho"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><strong>Cardeal Orani Jo\u00e3o Tempesta<br \/>\n<\/strong><strong>Arcebispo do Rio de Janeiro (RJ)<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Neste tempo em que somos chamados pela Igreja, m\u00e3e e mestra, a estudar, meditar e rezar a identidade familiar \u00e0 luz da Exorta\u00e7\u00e3o Apost\u00f3lica \u201cAmoris Laetitia\u201d, uma figura que merece nossa aten\u00e7\u00e3o e cuidado s\u00e3o as m\u00e3es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como \u00e9 f\u00e1cil e dif\u00edcil falar de m\u00e3e! Palavra t\u00e3o pequena e cheia de significado. Rica em subjetividade, pois cada uma possui um comportamento, uma cren\u00e7a, uma meta, mas todas, em sua genu\u00edna ess\u00eancia, possuem um objetivo: ver os filhos acertando na vida e sendo felizes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Diziam os antigos e essa afirma\u00e7\u00e3o se confirma com a Sagrada Escritura, especificamente nos mandamentos, para ser exato, no quinto, quando diz: \u201cHonra teu pai e tua m\u00e3e, a fim de que tenhas vida longa na terra que o Senhor, o teu Deus, te d\u00e1.\u201d (Ex 20,12).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O verbo honrar aqui tem um significado importante e profundo. O honrar que a B\u00edblia traz \u00e9 mostrar respeito. Quando crian\u00e7a, isso significa obedecer aos pais. Quando adulto, significa ouvir e respeitar os conselhos dos pais. Quando os pais est\u00e3o idosos, significa cuidar deles e ajud\u00e1-los.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Talvez n\u00e3o estejamos mais vislumbrando essas atitudes dos filhos para com os pais e nem os pais para com os vossos filhos. H\u00e1 uma invers\u00e3o de valores hoje em dia, o que tem gerado grandes conflitos e crises nas fam\u00edlias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para se come\u00e7ar um poss\u00edvel caminho para pequenas mudan\u00e7as, vamos voltar nosso olhar para a figura materna. Me parece que a casa, o lar, as fam\u00edlias s\u00f3 conseguem ser geradas e administradas com a figura da m\u00e3e. Seu papel \u00e9 de extrema import\u00e2ncia em todas as dimens\u00f5es da vida familiar. A m\u00e3e \u00e9 a que gera, que cuida, que educa, que protege e que ama. Sabemos que essa fun\u00e7\u00e3o \u00e9 tamb\u00e9m paterna, mas ainda somos devedores de uma cultura em que essa miss\u00e3o tem muito a ver com as m\u00e3es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma das caracter\u00edsticas mais bonitas que s\u00f3 o cora\u00e7\u00e3o de uma m\u00e3e possui \u00e9 a perseveran\u00e7a. A m\u00e3e nunca desiste de seu filho! Ela sempre est\u00e1 atenta e sabe as necessidades pontuais de cada um. Dedica-se aos que mais precisam e est\u00e1 pronta a se doar totalmente por uma causa que traga ao seu filho a felicidade e a paz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dentro da hist\u00f3ria da Igreja, temos diversos exemplos de m\u00e3es que v\u00e3o assumindo com muita coragem e ardor essa miss\u00e3o t\u00e3o especifica e \u00fanica. Uma delas \u00e9 a figura de Santa M\u00f4nica, m\u00e3e de Santo Agostinho. M\u00f4nica \u201centra\u201d na hist\u00f3ria atrav\u00e9s da obra Confiss\u00f5es, de seu segundo filho, Santo Agostinho (Aurelius Augustinus, 13.11.354 d.C.), escrita, aproximadamente, no ano de 397. Agostinho relata um pouco como fora a vida de sua genitora. Alguns aspectos valem ser enaltecidos como a sua pr\u00f3pria cria\u00e7\u00e3o, pois M\u00f4nica foi criada por uma \u201cdada\u201d, termo que designava uma escrava incumbida de vigiar as crian\u00e7as filhas de seus senhores. A velha escrava cuidou tamb\u00e9m de sua educa\u00e7\u00e3o; Agostinho conta-nos um caso em que sua m\u00e3e, ainda crian\u00e7a, foi severamente repreendida pela \u201cdada\u201d, pois come\u00e7ou a demonstrar gosto pelo vinho (\u201cde fato, a escrava que costumava acompanh\u00e1-la at\u00e9 junto do tonel, litigando um dia com sua jovem senhora, estando s\u00f3s, lan\u00e7ou lhe em rosto a intemperan\u00e7a, chamando-lhe com atroz insulto: B\u00eabada!&#8221;) (Confiss\u00f5es, p. 224).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vejamos como a vida de um santo, antes de ser contemplada e reconhecida, passa pelo dia a dia de um ser humano comum, voltado as suas ang\u00fastias, necessidades, vontades e car\u00eancias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">M\u00f4nica n\u00e3o teve uma vida f\u00e1cil ou isenta de sofrimentos. Casou ainda jovem e teve o cora\u00e7\u00e3o ferido pela infidelidade matrimonial. Para qualquer uma, isso seria motivo para uma desist\u00eancia dos ideais ou at\u00e9 mesmo do projeto de vida, mas suas particulares atitudes j\u00e1 revelavam um modelo crist\u00e3o de boa esposa. O pr\u00f3prio filho conta-nos em suas confiss\u00f5es: \u201cSofria-lhe tamb\u00e9m as infidelidades matrimoniais com tanta paci\u00eancia, que nunca teve disc\u00f3rdia alguma com o marido, por este motivo&#8221; (Confiss\u00f5es, p. 225).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Agostinho, na vida de M\u00f4nica, sempre foi uma marca para a supera\u00e7\u00e3o e a perseveran\u00e7a. Serviu para ela como ponte para a santidade, onde desde cedo trouxera-lhe grandes desafios e preocupa\u00e7\u00f5es. De qualquer modo, neste per\u00edodo, o cristianismo j\u00e1 tinha a aquiesc\u00eancia do Imp\u00e9rio e \u00e9 prov\u00e1vel que Patr\u00edcio tenha cedido aos apelos de sua mulher, se convertendo e dando os primeiros ensinamentos crist\u00e3os a Agostinho, com a ajuda econ\u00f4mica de um amigo de nome Romaniano \u2014 que, durante toda a educa\u00e7\u00e3o de Agostinho, socorreria a fam\u00edlia quanto aos gastos para sua forma\u00e7\u00e3o, mesmo ap\u00f3s a morte de Patr\u00edcio (o pai de Agostinho morreu no mesmo ano de sua convers\u00e3o, em 370).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que a hist\u00f3ria humana deles tenta nos passar nesses primeiros momentos s\u00e3o uma fidelidade e uma esperan\u00e7a sem igual em Deus. N\u00e3o perderam a f\u00e9 e a vontade de se aproximar de Deus. Agostinho j\u00e1 v\u00ea na m\u00e3e um instrumento a servi\u00e7o de Deus; \u201cDe quem eram sen\u00e3o de V\u00f3s, aquelas palavras que, por meio de minha M\u00e3e, Vossa fiel serva, pronunciastes aos meus ouvidos?\u201d (Confiss\u00f5es, p. 57). Para ele, M\u00f4nica j\u00e1 \u00e9 nesse momento o alicerce espiritual que o conduzir\u00e1 em dire\u00e7\u00e3o da verdadeira f\u00e9; ele na verdade, ap\u00f3s seu batismo e convers\u00e3o ao cristianismo, nunca reconsiderou o car\u00e1ter feminino de sua m\u00e3e.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o resta d\u00favida que para ele, ela sempre foi a intermedi\u00e1ria entre ele mesmo e Deus: \u201cN\u00e3o era a minha m\u00e3e nem as minhas amas que se enchiam a si mesmas os peitos, de leite. \u00c9reis V\u00f3s, Senhor, que, por elas, me d\u00e1veis o alimento da inf\u00e2ncia, segundo os vossos des\u00edgnios e segundo as riquezas que depositastes at\u00e9 no mais \u00edntimo das coisas\u201d (Confiss\u00f5es, p. 32).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esse jeito particular de M\u00f4nica \u00e9 o modelo desta tarefa pedag\u00f3gica vital: a forma\u00e7\u00e3o da conduta moral e religiosa do filho. Incutir pudor, mansid\u00e3o, e todas essas condutas crist\u00e3s \u00e9 a virtude deste exemplo de comportamento, que, al\u00e9m de tudo, d\u00e1 o empenho da convers\u00e3o, em que pese a debilidade estrutural da interven\u00e7\u00e3o feminina no interior da fam\u00edlia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Toda a vida deste servo Agostinho foi marcada pelas inconst\u00e2ncias da vida e suas aventuras. A passagem dele por uma vida desregrada e sem disciplina, pode trazer-lhe mais adiante um encontro consigo mesmo, buscando uma reconcilia\u00e7\u00e3o com Deus e com o seu pr\u00f3prio interior.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por fim, Santa M\u00f4nica \u00e9 santa, n\u00e3o por ter realizado qualquer milagre, ou por ter sido martirizada, como tantos santos crist\u00e3os da Alta Idade M\u00e9dia. Ela \u00e9 santa por ser m\u00e3e e intercessora de um santo, logo, um instrumento divino. Ela \u00e9 o meio para o fim. Sua maternidade \u00e9 a dos novos tempos, da virada do mundo antigo para o medievo. Sua miraculosidade \u00e9 a da l\u00e1grima, que suplica atrav\u00e9s da ora\u00e7\u00e3o a d\u00e1diva do Cristo para seu filho. Suas l\u00e1grimas s\u00e3o as l\u00e1grimas de Deus: \u201c&#8230;enquanto minha M\u00e3e, Vossa fiel serva, junto de V\u00f3s chorava por mim, mais do que as outras m\u00e3es choram sobre os cad\u00e1veres dos filhos\u201d (Confiss\u00f5es, p. 83). Seu atributo n\u00e3o possui reden\u00e7\u00e3o nem conflito. Ele \u00e9 a prece atendida, o fervor transmitido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Rezou, rezou e rezou. Assim foram 30 longos anos, n\u00e3o somente de dor, ang\u00fastia e sofrimento, mas de esperan\u00e7a, f\u00e9 e confian\u00e7a. Vejo a imagem, o \u00edcone de Santa M\u00f4nica e tento aproxim\u00e1-lo com o rosto de muitas m\u00e3es de hoje. Ela \u00e9 representada como uma senhora com grandes sulcos no rosto, olhar triste e m\u00e3os unidas em forma de ora\u00e7\u00e3o. Talvez seja essa a palavra que a define: ora\u00e7\u00e3o. A m\u00e3e serva de Deus, que ora pelo filho. A m\u00e3e crist\u00e3.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Que o exemplo de M\u00f4nica inspire as nossas m\u00e3es a estarem em sintonia com Deus e com os seus filhos. Mediante a tanta tristeza, incerteza e dor, para que os filhos continuem de p\u00e9, trilhando seus caminhos, as m\u00e3es precisam dobrar os vossos joelhos e clamar diante de um Deus que tudo atende, conhece e se compadece.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cardeal Orani Jo\u00e3o Tempesta Arcebispo do Rio de Janeiro (RJ) \u00a0 Neste tempo em que somos chamados pela Igreja, m\u00e3e e mestra, a estudar, meditar e rezar a identidade familiar \u00e0 luz da Exorta\u00e7\u00e3o Apost\u00f3lica \u201cAmoris Laetitia\u201d, uma figura que merece nossa aten\u00e7\u00e3o e cuidado s\u00e3o as m\u00e3es. 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