{"id":8431,"date":"2017-12-08T00:00:00","date_gmt":"2017-12-08T02:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cf-2018-caminhos-que-abrem-horizontes-de-construcao-da-paz-e-de-superacao-da-violencia\/"},"modified":"2020-03-11T21:22:14","modified_gmt":"2020-03-12T00:22:14","slug":"cf-2018-caminhos-que-abrem-horizontes-de-construcao-da-paz-e-de-superacao-da-violencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cf-2018-caminhos-que-abrem-horizontes-de-construcao-da-paz-e-de-superacao-da-violencia\/","title":{"rendered":"CF 2018: caminhos que abrem horizontes de constru\u00e7\u00e3o da paz e de supera\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify\">\u201cEu sempre penso que a viol\u00eancia \u00e9 uma coisa aprendida. E se \u00e9 aprendida, tamb\u00e9m pode ser desaprendida\u201d. Desta forma padre Vilson Groh, 62 anos, sintetiza a compreens\u00e3o que orienta sua atua\u00e7\u00e3o nas periferias da grande Florian\u00f3polis (SC), h\u00e1 35 anos, num reconhecido trabalho que chegou a chamar a aten\u00e7\u00e3o do papa Francisco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O padre que busca \u201cagarrar\u201d a esperan\u00e7a que se esconde por traz dos olhos da popula\u00e7\u00e3o empobrecida, especialmente dos jovens negros, p\u00fablico priorit\u00e1rio do seu trabalho, s\u00f3 acredita ser poss\u00edvel construir um caminho de paz por meio da atua\u00e7\u00e3o em redes de projetos, que envolvam governos e sociedade civil na cria\u00e7\u00e3o de novos espa\u00e7os p\u00fablicos n\u00e3o estatais e de controle social, num grande pacto de luta contra a viol\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O religioso tira conclus\u00f5es da pr\u00f3pria experi\u00eancia. Ele chegou a Florian\u00f3polis (SC) aos 22 anos, ap\u00f3s cursar filosofia na Funda\u00e7\u00e3o Educacional de Brusque, sua terra natal. Na capital do estado come\u00e7ou a fazer Teologia. Em 1983, no \u00faltimo ano do curso, iniciou um trabalho no morro Mocot\u00f3, uma das \u00e1reas mais pobres da cidade. Foi a\u00ed que iniciou a luta pela regulariza\u00e7\u00e3o fundi\u00e1ria, urbaniza\u00e7\u00e3o do local e acolhimento de crian\u00e7as, jovens e adultos, trabalho que se expandiu para outros territ\u00f3rios. Neste per\u00edodo, segundo ele, foram regularizadas e urbanizadas mais de 64 \u00e1reas de terra na grande Florian\u00f3polis.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">H\u00e1 cinco anos, o padre criou o Instituto Vilson Groh (IVG), organiza\u00e7\u00e3o que articula uma s\u00e9rie de projetos e entidades e que, s\u00f3 nos primeiros dois meses de 2017, atendeu mais de 5 mil crian\u00e7as, adolescentes e jovens por meio de seus diferentes projetos. Em 2016, foram 16 mil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Tendo a educa\u00e7\u00e3o como prioridade, o IVG apresenta um horizonte palp\u00e1vel de esperan\u00e7a \u00e0s crian\u00e7as, adolescentes e jovens, com os quais desenvolve um projeto pedag\u00f3gico e de vida que vai dos 6 anos ao ingresso na Universidade. Foi este trabalho que despertou a aten\u00e7\u00e3o do papa Francisco que o convidou para uma audi\u00eancia no Vaticano, em fevereiro deste ano.<\/p>\n<figure id=\"attachment_10388\" aria-describedby=\"caption-attachment-10388\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/cnbb.net.br\/cf-2018-caminhos-que-abrem-horizontes-de-construcao-da-paz-e-de-superacao-da-violencia\/mocoto-cor-voluntario-materia-violencia\/\" rel=\"attachment wp-att-10388 noopener\" target=\"_blank\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-10388 size-medium\" src=\"http:\/\/cnbb.net.br\/wp-content\/uploads\/2017\/12\/Mocot\u00f3-cor-volunt\u00e1rio-mat\u00e9ria-viol\u00eancia-300x199.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"199\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-10388\" class=\"wp-caption-text\">Volunt\u00e1rios do projeto Mocot\u00f3 Cor. Foto: Arquivo do IVO<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify\">A capacidade de mobiliza\u00e7\u00e3o do padre Vilson Groh vem mudando n\u00e3o apenas o acesso \u00e0 moradia, mas tamb\u00e9m o colorido das paisagens por onde passa. Por meio do projeto Mocot\u00f3 Cor e do trabalho volunt\u00e1rio, um exemplo de interven\u00e7\u00e3o nos bairros onde atua, ele vem dando um colorido especial \u00e0s fachadas das casas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\u201cS\u00f3 por meio da nossa capacidade de fazer uma op\u00e7\u00e3o pelas periferias geogr\u00e1ficas, como diz o papa Francisco, e se deixar tocar por essas realidades; Por meio da compreens\u00e3o de uma Igreja em sa\u00edda, entrando nestas \u2018galileias\u2019 empobrecidas e voltando ao m\u00e9todo de Jesus, o m\u00e9todo do encontro\u201d, o religioso que vem transformado territ\u00f3rios e pessoas, acredita ser poss\u00edvel superar a viol\u00eancia e construir um caminho de paz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">As ideias do padre foram tomando forma na d\u00e9cada de 80 primeiro por meio da Associa\u00e7\u00e3o de Amigos da Casa da Crian\u00e7a do Adolescente do Mocot\u00f3, que hoje faz parte do Instituto Vilson Groh. Hoje a rede IVG abrange o Centro de Educa\u00e7\u00e3o Popular, o Centro Cultural Escrava Anast\u00e1cia, o Centro Social Elisabeth Sarkamp, o Centro Cultural Marista S\u00e3o Jos\u00e9, a Associa\u00e7\u00e3o Jo\u00e3o Paulo II e o Centro Educacional Marista L\u00facia Mayvorne. O IVG oferece ainda cursinho pr\u00e9-vestibular gratuito para os jovens da periferia.<\/p>\n<figure id=\"attachment_10389\" aria-describedby=\"caption-attachment-10389\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/cnbb.net.br\/cf-2018-caminhos-que-abrem-horizontes-de-construcao-da-paz-e-de-superacao-da-violencia\/padre-e-o-papa\/\" rel=\"attachment wp-att-10389 noopener\" target=\"_blank\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-10389\" src=\"http:\/\/cnbb.net.br\/wp-content\/uploads\/2017\/12\/Padre-e-o-papa-300x213.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"213\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-10389\" class=\"wp-caption-text\">Padre Vilson Groh em audi\u00eancia com o papa. Foto: arquivo IVG<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify\">As periferias geogr\u00e1ficas de que fala o papa Francisco coincidem com a reflex\u00e3o proposta pela Campanha da Fraternidade 2018 que, encarando o tema da viol\u00eancia, fala em seu texto-base da exist\u00eancia de territ\u00f3rios marcados pela extrema viol\u00eancia. No pr\u00f3ximo ano, a Igreja no Brasil vai refletir sobre o tema e suas diferentes formas de manifesta\u00e7\u00e3o direta, indireta e institucional na perspectiva da sua supera\u00e7\u00e3o e da constru\u00e7\u00e3o de uma cultura da paz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade (OMS) define a viol\u00eancia pelo uso intencional da for\u00e7a contra si mesmo, contra outra pessoa ou contra um grupo de pessoas, de modo a resultar em dano f\u00edsico, sexual, psicol\u00f3gico ou morte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Segundo o arcebispo de Bras\u00edlia (DF) e presidente da Confer\u00eancia Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), cardeal Sergio da Rocha, h\u00e1 um clamor pela supera\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia, nas suas variadas formas, que tanto sofrimento tem trazido ao povo brasileiro. \u201cCom a CF 2018, esperamos poder envolver as comunidades e a todos, estimulando a reflex\u00e3o e a busca de solu\u00e7\u00f5es para a sua supera\u00e7\u00e3o\u201d, diz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"color: #800000\"><strong>Guerra letal e silenciosa &#8211;\u00a0<\/strong><\/span>O tema que est\u00e1 no centro das preocupa\u00e7\u00f5es dos brasileiros figura nas pesquisas que apontam o Brasil como um dos pa\u00edses mais violentos do mundo. A nota t\u00e9cnica do Atlas da Viol\u00eancia, de mar\u00e7o de 2016, fruto da parceria do Instituto de Pesquisa Econ\u00f4mica Aplicada (Ipea) e do F\u00f3rum Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica, demonstra que apesar de possuir menos de 3% da popula\u00e7\u00e3o mundial, o pa\u00eds responde por quase 13% dos assassinatos no planeta. Em 2014, o Brasil chegou ao topo do ranking, considerado o n\u00famero absoluto de homic\u00eddios. Foram 59.627 mortes segundo o Ipea.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Os n\u00fameros apontados pelo Mapa da Viol\u00eancia 2016, organizado pela Flacso, mostram que, no Brasil, cinco pessoas s\u00e3o mortas por arma de fogo a cada hora. A cada \u00fanico dia s\u00e3o 123 pessoas assassinadas dessa forma. Essas cifras revelam que, no Brasil, ocorrem mais mortes por arma de fogo do que nas chacinas e atentados que acontecem em todo o mundo. Contam-se mais homic\u00eddios aqui do que em diversas das guerras recentes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O especialista em seguran\u00e7a p\u00fablica Robson S\u00e1vio Reis Souz, professor da PUC Minas, chama a aten\u00e7\u00e3o para o fato do Brasil ser o d\u00e9cimo pa\u00eds mais desigual, apesar de ser a oitava maior economia do mundo, de acordo com o Relat\u00f3rio de Desenvolvimento Humano da Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU) de 2016. A desigualdade social, segundo ele, \u00e9 um dos principais fatores do crescimento da viol\u00eancia no pa\u00eds.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Com o aumento da criminalidade a partir da d\u00e9cada de 80, consolidou-se um contexto de impunidade que, somado \u00e0 maior procura por drogas il\u00edcitas e a maior disponibilidade de armas de fogo, formou o ambiente no qual se deu o crescimento dos homic\u00eddios e de outros crimes contra a pessoa e contra o patrim\u00f4nio, explica o professor que integra o F\u00f3rum Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Autor do livro Quem comanda a seguran\u00e7a p\u00fablica no Brasil: atores, cren\u00e7as e coaliz\u00f5es que dominam a pol\u00edtica nacional de seguran\u00e7a p\u00fablica, da editora Letramento, diz que a viol\u00eancia no Brasil tem um car\u00e1ter seletivo. \u201cA maioria das v\u00edtimas da viol\u00eancia s\u00e3o pobres, negros, jovens e moradores da periferia. \u00c9 uma viol\u00eancia seletiva. N\u00e3o atinge a todos. No Brasil, h\u00e1 locais mais seguros que a Europa e mais violentos que a S\u00edria\u201d, disse.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Um dado que exemplifica o car\u00e1ter seletivo da viol\u00eancia citado pelo professor \u00e9 o que aponta que entre jovens de 15 a 24 anos, os homic\u00eddios s\u00e3o a principal causa de morte. Dados referentes ao ano de 2011 mostram a gravidade da trag\u00e9dia. Naquele ano houve, em todo o pa\u00eds, mais de 52 mil mortos por homic\u00eddio. Desse total, mais da metade das v\u00edtimas eram jovens (52,63%). Dentre tais jovens vitimados, a imensa maioria era composta por negros (71,44%), majoritariamente do sexo masculino (93,03%).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Entre 2001 e 2011, os homic\u00eddios de mulheres cresceram 17,2%.\u00a0Somente no ano de 2013, houve 4,8 homic\u00eddios por 100 mil mulheres, segundo o Mapa da Viol\u00eancia publicado em 2015. Tendo registrado naquele ano 4.762 homic\u00eddios de mulheres \u2013 13 homic\u00eddios di\u00e1rios, em m\u00e9dia \u2013, o Brasil ocupa a quinta coloca\u00e7\u00e3o, numa lista de 83 pa\u00edses. Ocorrem aqui 2,4 vezes mais homic\u00eddios de mulheres do que a m\u00e9dia internacional.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O presidente da CNBB, cardeal dom Sergio Rocha, refor\u00e7a que a supera\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia necessita da a\u00e7\u00e3o efetiva dos tr\u00eas poderes, especialmente da implanta\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas. \u201cOs caminhos de supera\u00e7\u00e3o passam sempre pelo di\u00e1logo, pela miseric\u00f3rdia, pela justi\u00e7a social e pela educa\u00e7\u00e3o para a paz\u201d, afirma. O arcebispo lembra que nas campanhas da fraternidade, a palavra de Deus sempre ilumina e orienta o caminhar da Igreja. Na CF 2018, refor\u00e7a o cardeal, o lema \u201cEm Cristo, somos todos irm\u00e3os\u201d, motiva a construir a fraternidade como caminho para alcan\u00e7ar a paz.<\/p>\n<p>Mat\u00e9ria publicada na edi\u00e7\u00e3o n\u00ba 21 da Revista Bote F\u00e9 da Edi\u00e7\u00f5es da CNBB<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A experi\u00eancia do padre Vilson Groh, e do instituto que leva seu nome, na constru\u00e7\u00e3o da paz em territ\u00f3rios marcados pela viol\u00eancia em SC<\/p>\n","protected":false},"author":83,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":""},"categories":[750,856],"tags":[],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts\/8431"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/users\/83"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/comments?post=8431"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts\/8431\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/media?parent=8431"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/categories?post=8431"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/tags?post=8431"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}