{"id":847963,"date":"2021-09-23T11:17:31","date_gmt":"2021-09-23T14:17:31","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/?p=847963"},"modified":"2021-09-23T11:20:40","modified_gmt":"2021-09-23T14:20:40","slug":"recuperar-a-beleza-do-hino-do-amor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/recuperar-a-beleza-do-hino-do-amor\/","title":{"rendered":"Recuperar a beleza do &#8220;hino do amor&#8221;"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><strong>Dom Jacinto Bergmann<br \/>\nArcebispo de Pelotas (RS)<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 George Orwell, no romance Keep the Aspidistra Flying (1936), tentou uma ousada reviravolta, infelizmente real na hist\u00f3ria do homem, substituindo \u201camor\u201d por \u201cdinheiro\u201d no Hino do Amor, que o ap\u00f3stolo das gentes, Paulo de Tarso, deixou escrito na Primeira Carta aos Cor\u00edntios, cap\u00edtulo 13. At\u00e9 soa estranho, mas, como j\u00e1 dito, muito real: <em>\u201cAinda que eu fale todas as l\u00ednguas, se n\u00e3o tiver dinheiro, sou como bronze que retine&#8230;se n\u00e3o tiver dinheiro n\u00e3o sou nada: o dinheiro tudo cr\u00ea, tudo espera, tudo suporta&#8230;\u201d<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Est\u00e1 em jogo, por\u00e9m, n\u00e3o o dinheiro, mas o amor. O ap\u00f3stolo das gentes, retoma a radicalidade da dedica\u00e7\u00e3o no amor, j\u00e1 subjacente ao Discurso da Montanha do Mestre de Nazar\u00e9, o Filho de Deus (Mt 5-7) e escreve estas p\u00e1ginas mais fascinantes e c\u00e9lebres sobre o amor: um verdadeiro \u201cHino do Amor\u201d (1Cor 13).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O Hino do Amor tem presente o eros e o \u00e1gape do amor. S\u00e3o Paulo, ao comp\u00f4-lo, sup\u00f5e o eros e acentua o \u00e1gape. O amor, como exposto com total propriedade teol\u00f3gica pelo Papa Bento XVI na sua Enc\u00edclica <em>Deus Caritas est,<\/em> tem esta dupla face: o eros e o \u00e1gape, \u00a0Andres Nygren, no seu famoso Livro <em>Eros e \u00c1gape<\/em>, soube bem definir as duas facetas do amor, ambos substancialmente necess\u00e1rios: <em>\u201cEros \u00e9 desejo e tens\u00e3o para o outro, \u00e1gape \u00e9 sacrif\u00edcio e doa\u00e7\u00e3o para o outro; eros \u00e9 o caminho do homem para Deus, \u00e1gape \u00e9 o caminho de Deus para o homem; eros \u00e9 conquista, \u00e1gape \u00e9 gra\u00e7a; eros \u00e9 auto afirma\u00e7\u00e3o nobre, \u00e1gape \u00e9 amor desinteressado e doa\u00e7\u00e3o de si\u201d.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u00c9 conhecido o \u201cHino do Amor\u201d paulino: <em>\u201cAinda se eu falasse as l\u00ednguas dos homens e as dos anjos, mas n\u00e3o tivesse amor; eu seria como um bronze que soa ou um c\u00edmbalo que retine. Se eu tivesse o dom da profecia, se conhecesse todos os mist\u00e9rios e toda a ci\u00eancia; se tivesse toda a f\u00e9, a ponto de remover montanhas, mas n\u00e3o tivesse amor, eu nada seria. Se eu gastasse todos os meus bens no sustento dos pobres e at\u00e9 entregasse meu corpo para me gloriar, mas n\u00e3o tivesse amor, de nada me aproveitaria. O amor \u00e9 magn\u00e2nimo, \u00e9 benfazejo; n\u00e3o \u00e9 invejoso, n\u00e3o \u00e9 presun\u00e7oso nem arrogante, n\u00e3o faz nada de vergonhoso, n\u00e3o leva em conta o mal sofrido; n\u00e3o se alegra com a injusti\u00e7a, mas se regozija com a verdade. Ele tudo sofre, tudo cr\u00ea, tudo espera, tudo suporta. O amor jamais acabar\u00e1\u201d. <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 S\u00e3o Paulo come\u00e7a retratando a pessoa humana dotada de todas as qualidades humanas e espirituais, mas vazia de amor. O dom das l\u00ednguas &#8211; s\u00edmbolo n\u00e3o s\u00f3 de capacidade intelectual, mas de capacidade m\u00edstico-est\u00e1tica &#8211; torna-se, sem amor, o ribombo de um gongo ou o estrondo do s\u00edmbolo dos cultos org\u00edacos da deusa Cibele. Tr\u00eas dons divinos sup\u00e9rrimos, como a profecia, a ci\u00eancia <em>(\u201cgnose\u201d)<\/em> e a f\u00e9 capaz de <em>&#8220;remover montanhas&#8221;<\/em> (Mc 11,23), sem amor n\u00e3o vale nada. A pr\u00f3pria generosidade heroica e o desapego dos bens, se n\u00e3o sustentados pelo amor, n\u00e3o passam de auto glorifica\u00e7\u00e3o ou de gestos heroico-espetaculares. O poeta brasileiro contempor\u00e2neo, Paulo Suess, assim retoma essa primeira parte do hino paulino: <em>\u201cAinda que eu fale a l\u00edngua de todas as tribos existentes e at\u00e9 dos povos desaparecidos da terra e da mem\u00f3ria, se n\u00e3o tiver amor, sou como um trombone de frio metal, um computador tril\u00edngue. Ainda que eu distribua todos os meus sapatos e todos os recursos, para socorrer o povo descal\u00e7o e faminto, se n\u00e3o tiver amor, sou como uma das tantas cobaias revolucion\u00e1rias, um ca\u00e7ador de borboletas ou um poeta sonhador\u201d.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 A segunda parte do Hino \u00e9 semelhante a uma flor cujas p\u00e9talas representam as qualidades do amor: magnanimidade, bondade, humildade, desapego, generosidade, respeito, benignidade, perd\u00e3o, justi\u00e7a, verdade, toler\u00e2ncia, perseveran\u00e7a&#8230; \u00c9 o cortejo das virtudes que acompanham o amor. Se o amor acaba <em>(mas, sendo divino, n\u00e3o pode morrer&#8230; apenas a pessoa humana n\u00e3o o vive como &#8220;imagem e semelhan\u00e7a&#8221; de Deus-Amor),<\/em> as virtudes humanas e religiosas desaparecem. E sem amor tudo fica feio porque desapareceu sua beleza.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0 A experi\u00eancia da pandemia \u00e9 a grande oportunidade para a humanidade recuperar a beleza do \u201cHino do Amor\u201d das Sagradas Escrituras.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dom Jacinto Bergmann Arcebispo de Pelotas (RS) &nbsp; \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 George Orwell, no romance Keep the Aspidistra Flying (1936), tentou uma ousada reviravolta, infelizmente real na hist\u00f3ria do homem, substituindo \u201camor\u201d por \u201cdinheiro\u201d no Hino do Amor, que o ap\u00f3stolo das gentes, Paulo de Tarso, deixou escrito na Primeira Carta aos Cor\u00edntios, cap\u00edtulo 13. 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