{"id":859524,"date":"2021-11-17T10:53:44","date_gmt":"2021-11-17T13:53:44","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/?p=859524"},"modified":"2021-11-17T10:54:14","modified_gmt":"2021-11-17T13:54:14","slug":"venha-a-nos-o-vosso-reino-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/venha-a-nos-o-vosso-reino-2\/","title":{"rendered":"Venha a n\u00f3s o vosso reino"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><strong>Dom Alberto Taveira Corr\u00eaa<br \/>\n<\/strong><strong>Arcebispo de Bel\u00e9m do Par\u00e1 (PA)<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <\/strong>As m\u00faltiplas convuls\u00f5es sociais, a viol\u00eancia e as guerras, atentados, morte implac\u00e1vel de inocentes, todos assuntos que j\u00e1 nos provocaram reflex\u00f5es e busca de caminhos t\u00eam causado grande perplexidade em todo o mundo. H\u00e1 subterr\u00e2neos de embates ideol\u00f3gicos e religiosos, ao mesmo tempo em que verdadeiras hordas de migrantes, exilados e refugiados encarnam um \u00eaxodo inimagin\u00e1vel h\u00e1 pouco tempo. Que solu\u00e7\u00f5es podem ser oferecidas? E, mais ainda, qual a resposta a ser oferecida por quem acredita em Jesus Cristo, aquele que veio trazer a paz e \u00e9, ele mesmo, a nossa paz? Sabemos que ele n\u00e3o oferece a paz como o mundo a procura e pretende oferec\u00ea-la. S\u00e3o t\u00edmidas, incertas e fr\u00e1geis as tratativas diplom\u00e1ticas poss\u00edveis em nosso tempo. As respostas dadas, com mais dureza e viol\u00eancia da parte de quem \u00e9 reconhecido como autoridade, revelam-se incapazes, justamente porque a for\u00e7a utilizada suscita outras muitas rea\u00e7\u00f5es, que n\u00f3s crist\u00e3os sabemos serem inspiradas pelo pai da mentira, cujas tenta\u00e7\u00f5es continuam atraindo grandes e pequenos, ricos e pobres.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O relato da condena\u00e7\u00e3o de Jesus, no Evangelho de S\u00e3o Jo\u00e3o (Cf. Jo 18, 33-37) traz um intrigante di\u00e1logo entre Pilatos, o tribuno, e Jesus, preso e amarrado, coroado de espinhos, ensanguentado. O assunto \u00e9 o reino daquele que foi escorra\u00e7ado pela plebe, soldados e autoridades. Parece rid\u00edculo, mas Jesus Cristo tem a ousadia de dizer-se rei, numa situa\u00e7\u00e3o tr\u00e1gica, que beirava a morte, que efetivamente veio horas depois. No entanto, \u00e9 com verdadeira majestade que ele se diz rei! O inc\u00f4modo ficou por conta da covardia daquele que lavou as m\u00e3os, incapaz de defender o que lhe trazia verdadeira crise interior. H\u00e1, entretanto, uma diferen\u00e7a fundamental entre o reino conhecido e participado por Pilatos e aquele que ali se inaugurava, colorido de sangue. O de Jesus n\u00e3o \u00e9 reino deste mundo. Ele n\u00e3o possui ex\u00e9rcitos armados para defender suas fronteiras e propriedades. Todo o Evangelho no-lo mostra apaixonado pelo Reino, explicado de in\u00fameras formas atrav\u00e9s de gestos e palavras. O seu Reino \u00e9 o reino da verdade, da justi\u00e7a, do amor e da paz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Um racioc\u00ednio bem humano pode levar-nos a comparar os muitos reinos que se edificaram na hist\u00f3ria, estampados nos poderes hoje existentes, com seus p\u00e9s de barro (Cf. Dn 2, 31-35) que os fazem ruir mais cedo ou mais tarde, com o Reino de Deus, cujo anseio Se repete insistentemente em nossa ora\u00e7\u00e3o di\u00e1ria do Pai nosso. Quem \u00e9 mais poderoso? De que vale pedir o Reino de Deus, quando os poderes do mundo \u00e9 que est\u00e3o controlando tudo, ainda que nos conduzam a um verdadeiro beco sem sa\u00edda? Quais s\u00e3o as condi\u00e7\u00f5es dos donos do poder e do dinheiro para resolverem os impasses do tempo hodierno?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u00c9 realista e ao mesmo tempo doloroso constatar que os s\u00e9culos passados e o tempo recente mostram os resultados do afastamento dos valores do Evangelho. N\u00e3o se trata de amaldi\u00e7oar ningu\u00e9m, mas parece ressoar em nossos ouvidos a palavra de nossos pais, que recomendavam n\u00e3o brincar com fogo! Brincamos com o fogo do \u00f3dio, da viol\u00eancia, da afirma\u00e7\u00e3o ego\u00edsta dos pr\u00f3prios direitos e espa\u00e7os, julgamo-nos propriet\u00e1rios da vida, ridicularizamos as verdades sagradas, e o resultado est\u00e1 a\u00ed!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Vamos come\u00e7ar de novo? Vamos buscar caminhos diferentes? A Solenidade de Cristo Rei provoca-nos em profundidade. Come\u00e7ar de novo significa ir atr\u00e1s dos valores esquecidos. Eles podem chamar-se, por exemplo, perd\u00e3o e reconcilia\u00e7\u00e3o, exerc\u00edcio da miseric\u00f3rdia. Quando o Papa Francisco se inclina para lavar os p\u00e9s dos presos, a imagem corre o mundo, deixando boquiabertos muitos marmanjos do poder e do dinheiro! Ele nos convida, como fez no domingo passado, a percorrer o caminho da ternura, especialmente em rela\u00e7\u00e3o aos pobres, sem julg\u00e1-los, indicando-nos o roteiro mais simples que possa existir, os sacramentos, a ora\u00e7\u00e3o e a pr\u00e1tica da caridade, nas obras de miseric\u00f3rdia. Trata-se apenas daquilo que est\u00e1 no Evangelho. As solu\u00e7\u00f5es podem ser mais f\u00e1ceis do que pensamos!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Come\u00e7ar de novo significa tomar iniciativas, criatividade, visitar, dialogar antes de estabelecer julgamentos, buscar as raz\u00f5es do outro, permitir que ao meu lado exista gente que pensa diferente, construir pontes de relacionamento. H\u00e1 impasses internacionais, como os grupos e ideologias pretendentes \u00e0 hegemonia, cuja condi\u00e7\u00e3o \u00e9 a total destrui\u00e7\u00e3o dos outros, h\u00e1 o poder do dinheiro, com as negociatas secretas em que armas s\u00e3o igualmente vendidas para antagonistas de todas as cores. Mais perto de n\u00f3s, na propalada crise pol\u00edtica e econ\u00f4mica em que nos encontramos, o impasse se agrava e as solu\u00e7\u00f5es ficam distantes, justamente porque o reino, que n\u00e3o \u00e9 o de Deus, est\u00e1 dividido, pelos interesses individuais ou de grupos que sobrep\u00f5em ao bem comum. As fatias valem mais do que o pr\u00f3prio bolo! \u00c9 que as receitas s\u00e3o interesseiras e maldosas. Mesmo que pensem ser ing\u00eanua nossa proposta, n\u00e3o h\u00e1 rem\u00e9dio sem passar pela convers\u00e3o ao Reino&#8230; de Deus! \u00c9 preciso reaprender o Pai nosso e dizer &#8220;Venha a n\u00f3s o <em>vosso <\/em>Reino!&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 H\u00e1 alguns anos, fui p\u00e1roco numa cidade em que os dois chefes pol\u00edticos eram inimigos figadais, ainda que filho e filha, respectivamente, fossem casados. Passadas as elei\u00e7\u00f5es, os dois eram amigos, passavam horas jogando cartas e trocando ideias, mas as rela\u00e7\u00f5es provincianas do ambiente em que viviam &#8220;pediam&#8221; briga no per\u00edodo eleitoral. Parece brincadeira, mas tais situa\u00e7\u00f5es se repetem perto de n\u00f3s. S\u00f3 que as inimizades se multiplicam, infelizmente, e alcan\u00e7am dimens\u00f5es inimagin\u00e1veis. De rold\u00e3o, joga-se pelo ralo o bem comum e a dignidade dos mais pobres. E o mundo parece feitos de meninos de rua jogando pedras nos vizinhos. \u00c9 o reino dos dois lados! Cresce, ent\u00e3o, o reino da mentira. Se sabemos que Deus \u00e9 o Senhor da hist\u00f3ria, e a vit\u00f3ria final ser\u00e1 daquele a quem pertence a honra, o poder e a gl\u00f3ria Sabemos tamb\u00e9m o quanto o tentador age e suscita intrigas em nosso mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u00c9 de S\u00e3o Jo\u00e3o Paulo II uma palavra forte, pronunciada profeticamente no in\u00edcio de seu pontificado: &#8220;N\u00e3o tenhais medo de acolher Cristo e de aceitar o seu poder! N\u00e3o, n\u00e3o tenhais medo! Antes, procurai abrir, melhor, escancarar as portas a Cristo! Ao seu poder salvador abri os confins dos Estados, os sistemas econ\u00f4micos assim como os pol\u00edticos, os vastos campos de cultura, de civiliza\u00e7\u00e3o e de progresso! N\u00e3o tenhais medo! Cristo sabe bem &#8216;o que \u00e9 que est\u00e1 dentro do homem&#8217;. Somente Ele o sabe!&#8221; E n\u00e3o tenhamos receio de rezar o Pai nosso, para dizer com mais for\u00e7a ainda: &#8220;Santificado seja o <em>vosso <\/em>nome, venha a n\u00f3s o <em>vosso<\/em> Reino, seja feita a <em>vossa<\/em> 3vontade, assim na terra como no C\u00e9u&#8221;.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dom Alberto Taveira Corr\u00eaa Arcebispo de Bel\u00e9m do Par\u00e1 (PA) \u00a0 \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 As m\u00faltiplas convuls\u00f5es sociais, a viol\u00eancia e as guerras, atentados, morte implac\u00e1vel de inocentes, todos assuntos que j\u00e1 nos provocaram reflex\u00f5es e busca de caminhos t\u00eam causado grande perplexidade em todo o mundo. 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