{"id":859654,"date":"2021-11-19T11:34:21","date_gmt":"2021-11-19T14:34:21","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/?p=859654"},"modified":"2021-11-19T11:34:21","modified_gmt":"2021-11-19T14:34:21","slug":"observatorio-racial-dom-jose-maria-pires-publica-artigo-sobre-a-realidade-de-negros-e-negras-no-brasil-e-na-igreja","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/observatorio-racial-dom-jose-maria-pires-publica-artigo-sobre-a-realidade-de-negros-e-negras-no-brasil-e-na-igreja\/","title":{"rendered":"Observat\u00f3rio Racial Dom Jos\u00e9 Maria Pires publica artigo sobre a realidade de negros e negras no Brasil e na Igreja"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">\u00c0s v\u00e9speras do Dia Nacional da Consci\u00eancia Negra, celebrado no s\u00e1bado 20 de novembro, a Comiss\u00e3o Brasileira de Justi\u00e7a e Paz, por meio de seu Observat\u00f3rio Racial Dom Jos\u00e9 Maria Pires, publicaram um artigo intitulado &#8220;E agora, Jos\u00e9?&#8221; no qual analisam a realidade vivida por negros e negras no Brasil e como o racismo ainda marca a sociedade brasileira. Confira, abaixo, a \u00edntegra do texto.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3 style=\"text-align: center;\">E agora, Jos\u00e9?<\/h3>\n<p>Firmes no esp\u00edrito de luta que marca a hist\u00f3ria legada por Zumbi e Dandara, venceremos.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>\u201cIr\u00e1 chegar um novo dia. Um novo c\u00e9u, uma nova terra, um novo mar . E nesse dia, os oprimidos a uma s\u00f3 voz, a liberdade, ir\u00e3o cantar. Na nova terra o negro n\u00e3o vai ter corrente&#8230;&#8221;<\/em><\/p>\n<p>Apesar do canto acima nos trazer esperan\u00e7as de dias melhores \u00e9 preciso mais atitude para transformar a dura realidade que ainda cerca a popula\u00e7\u00e3o negra que n\u00e3o vive, mas resiste em terras brasileiras.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Num cen\u00e1rio de desmonte das pol\u00edticas p\u00fablicas conquistadas e retiradas de direitos, o 20 de novembro, \u201cDia da Consci\u00eancia Negra\u201d, ecoar\u00e1 como um grito de socorro da juventude negra, cujos corpos s\u00e3o encontrados nas caladas da noite e das mulheres negras v\u00edtimas da viol\u00eancia dom\u00e9stica e de feminic\u00eddio; grande reflex\u00e3o e articula\u00e7\u00e3o para que a Lei de Cotas permane\u00e7a oportunizando aos negros a entrada na academia e, por consequ\u00eancia, tenham melhores empregos e sal\u00e1rios; a certeza de que a representatividade da negritude nos espa\u00e7os de poder e decis\u00e3o \u00e9 importante para a democracia brasileira.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O transcurso do tempo ainda presente da pandemia no Brasil fez eclodir as v\u00edsceras do entranhado racismo que ataca e agride desde a inj\u00faria racial \u00e0 matan\u00e7a em s\u00e9rie e destrui\u00e7\u00e3o das fam\u00edlias, dos lares negros brasileiros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sim, foi sob os desafios do isolamento nos barracos l\u00fagubres ou nos c\u00e1rceres privados do emprego dom\u00e9stico, que a necropol\u00edtica que faz da gente negra brasileira v\u00edtima de genoc\u00eddio, que as v\u00edsceras do racismo se desnudaram despudoradamente, quer pelo abandono \u00e0 letalidade do ent\u00e3o novo coronav\u00edrus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A primeira v\u00edtima alcan\u00e7ada e morta pelo Covid-19 foi uma negra, empregada dom\u00e9stica, que recebeu do patronato o ainda importado v\u00edrus mortal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tamb\u00e9m a desvelar a perpetua\u00e7\u00e3o da escraviza\u00e7\u00e3o negra nos ricos domic\u00edlios, a morte do menino Miguel em Recife, dia 2 de junho, mostrou a crueza intr\u00ednseca \u00e0 hierarquiza\u00e7\u00e3o das pessoas pela cor. Para cuidar do cachorro da madame, uma mulher negra submetida ao trabalho ininterrupto, viu o corpo de seu filho estendido no ch\u00e3o, praticamente jogado do nono andar do pr\u00e9dio de alto luxo com servi\u00e7os dom\u00e9sticos diretamente custeados pelo poder p\u00fablico.<\/p>\n<h3>Mas a morte tamb\u00e9m chega por atacado!<\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">Agora, a intr\u00e9pida a\u00e7\u00e3o das pol\u00edcias bem mandadas, n\u00e3o respeitou sequer decis\u00e3o do Supremo Tribunal Federal e vimos o massacre do Jacarezinho, comunidade perif\u00e9rica do Rio de Janeiro. Numa s\u00f3 revoada de tiros, 29 homens foram mortos dia 6 de maio de 2021. Negros? Em nada inovou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A fim de arrematar seu \u00faltimo ano de governo sem permitir d\u00favidas sobre seu intento de destrui\u00e7\u00e3o de qualquer vest\u00edgio de pol\u00edtica p\u00fablica civilizat\u00f3ria, de redu\u00e7\u00e3o da mis\u00e9ria e combate \u00e0 fome, pelo menos, o Programa Bolsa Fam\u00edlia, que por 18 anos levou inclus\u00e3o e promoveu cidadania nos campos e cidades desse imenso Brasil, foi simplesmente extinto. Simples assim. Acabou! E agora, Jos\u00e9? Agora, nossa tarefa gigantesca \u00e9 romper a estupefa\u00e7\u00e3o que naturaliza a barb\u00e1rie como pol\u00edtica de Estado. Recuperar a autoestima coletiva e o respeito mundo afora!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para o povo negro quilombola, a terra e o territ\u00f3rio s\u00e3o a base da sua exist\u00eancia, das suas rela\u00e7\u00f5es sociais, da produ\u00e7\u00e3o cultural, da vida presente e da constru\u00e7\u00e3o do seu futuro.<\/p>\n<p>Existem cerca de 6 mil territ\u00f3rios quilombolas em todo o Brasil, que carregam toda uma hist\u00f3ria de resist\u00eancia \u00e0 escravid\u00e3o; de enfrentamento da persegui\u00e7\u00e3o pelo poder estatal e pelo latif\u00fandio e de afirma\u00e7\u00e3o da dignidade do povo negro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os direitos das comunidades quilombolas foram reconhecidos pela Constitui\u00e7\u00e3o de 1988, regulamentados pelo Decreto n\u00b0 4887, de 20 de novembro de 2003, editado pelo presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva, decreto que sofreu tentativas de anula\u00e7\u00e3o pelos ruralistas atrav\u00e9s de uma A\u00e7\u00e3o Direta de Inconstitucionalidade (ADI), mas que foi considerado constitucional pelo Supremo Tribunal Federal (STF).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Apesar de termos mais de 3.200 comunidades quilombolas reconhecidas e certificadas pelo Estado brasileiro, temos apenas 206 comunidades devidamente tituladas at\u00e9 hoje. Os quilombos, durante a sua forma\u00e7\u00e3o ao longo dos anos da coloniza\u00e7\u00e3o, abrigaram muitas vezes comunidades ind\u00edgenas e outras comunidades pobres e exclu\u00eddas da sociedade brasileira, todas compartilhando um mesmo territ\u00f3rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 fundamental que hoje as comunidades quilombolas constituam redes para lutas comuns e alian\u00e7as com todos os povos tradicionais do campo e com amplos setores da sociedade brasileira, para que seus direitos territoriais sejam definitivamente reconhecidos pelo Estado e para que o projeto coletivo de um pa\u00eds livre, justo e igualit\u00e1rio, seja constru\u00eddo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na sociedade brasileira, o racismo se manifesta tamb\u00e9m na repress\u00e3o e na persegui\u00e7\u00e3o \u00e0s religi\u00f5es n\u00e3o-crist\u00e3s, especialmente \u00e0quelas que remetem \u00e0 heran\u00e7a africana, como o candombl\u00e9 e a umbanda. Comumente associadas \u00e0 magia, \u00e0 feiti\u00e7aria e ao curandeirismo, os praticantes dessas religi\u00f5es est\u00e3o sempre em luta para garantir o seu direito \u00e0 liberdade de cren\u00e7a, como preconiza a Constitui\u00e7\u00e3o Federal. Apesar do respaldo legal, as religi\u00f5es de matrizes africanas s\u00e3o, diuturnamente, alvo de atos violentos, muitas vezes protagonizados por grupos evang\u00e9licos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O respeito \u00e0 f\u00e9 e \u00e0 espiritualidade daqueles que comungam de outros referenciais sagrados deve ser um compromisso de todos, j\u00e1 que assim estabelece a legisla\u00e7\u00e3o como tamb\u00e9m rege as rela\u00e7\u00f5es que prezam pelo bem maior, que zelam fraternalmente pela nossa Casa Comum. Faz-se necess\u00e1rio, assim, o fortalecimento do di\u00e1logo inter-religioso com vistas ao combate do racismo, de maneira geral, do racismo religioso, tratando-se especificamente das religi\u00f5es de matrizes africanas. A abertura e a acolhida das diferentes tradi\u00e7\u00f5es afro-religiosas \u00e9 um caminho, dessa forma, para a constru\u00e7\u00e3o de uma sociedade mais igualit\u00e1ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesta oportunidade relembramos a CF de 1988 que sugeriu o reconhecimento da CNBB, bem como do Episcopado brasileiro, das contribui\u00e7\u00f5es africanas \u00e0 nacionalidade. Negros e negras cat\u00f3licas sempre dialogaram com a Igreja acerca dos valores da negritude e se agrupavam em organiza\u00e7\u00f5es tais como o Grupo de Uni\u00e3o e Consci\u00eancia Negra, os Agentes Pastorais Negros (APNs), o Atabaque, a Pastoral Afro. Presb\u00edteros e leigos atentos \u00e0 intercultura buscaram incluir valores ancestrais negros na liturgia com a Missa Afro.<br \/>\nA Pastoral Afro funcionou durante muito tempo na sede da Confer\u00eancia Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).<br \/>\nHoje o Observat\u00f3rio Racial Dom Jos\u00e9 Maria Pires, institu\u00eddo na Comiss\u00e3o Brasileira Justi\u00e7a e Paz (CBJP), \u00e9 uma importante contribui\u00e7\u00e3o da Igreja para a supera\u00e7\u00e3o do racismo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Firmes no esp\u00edrito de luta que marca a hist\u00f3ria legada por Zumbi e Dandara, venceremos. Aceitemos o convite do poeta para ouvir a m\u00fasica, cant\u00e1-la e termos atitudes concretas de construirmos esse novo c\u00e9u e nova terra.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Comiss\u00e3o Brasileira Justi\u00e7a e Paz\/Observat\u00f3rio Racial Dom Jos\u00e9 Maria Pires<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c0s v\u00e9speras do Dia Nacional da Consci\u00eancia Negra, celebrado no s\u00e1bado 20 de novembro, a Comiss\u00e3o Brasileira de Justi\u00e7a e Paz, por meio de seu Observat\u00f3rio Racial Dom Jos\u00e9 Maria Pires, publicaram um artigo intitulado &#8220;E agora, Jos\u00e9?&#8221; no qual analisam a realidade vivida por negros e negras no Brasil e como o racismo ainda &hellip;<\/p>\n<p class=\"read-more\"> <a class=\"\" href=\"https:\/\/www.cnbb.org.br\/observatorio-racial-dom-jose-maria-pires-publica-artigo-sobre-a-realidade-de-negros-e-negras-no-brasil-e-na-igreja\/\"> <span class=\"screen-reader-text\">Observat\u00f3rio Racial Dom Jos\u00e9 Maria Pires publica artigo sobre a realidade de negros e negras no Brasil e na Igreja<\/span> Leia mais &raquo;<\/a><\/p>\n","protected":false},"author":83,"featured_media":859657,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":""},"categories":[866],"tags":[3158],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts\/859654"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/users\/83"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/comments?post=859654"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts\/859654\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/media\/859657"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/media?parent=859654"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/categories?post=859654"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/tags?post=859654"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}