{"id":860210,"date":"2021-12-01T10:57:06","date_gmt":"2021-12-01T13:57:06","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/?p=860210"},"modified":"2021-12-01T11:02:19","modified_gmt":"2021-12-01T14:02:19","slug":"o-natal-os-pobres-e-a-missao-da-igreja","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/o-natal-os-pobres-e-a-missao-da-igreja\/","title":{"rendered":"O Natal, os Pobres e a miss\u00e3o da Igreja"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><strong>Dom Ant\u00f4nio de Assis<\/strong><br \/>\n<strong>Bispo auxiliar de Bel\u00e9m do Par\u00e1 (PA)<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A cada ano, na proximidade da festa do Natal do Senhor, muitas pessoas e institui\u00e7\u00f5es despertam do sono da indiferen\u00e7a e, em poucos dias, querem for\u00e7osamente, sanar suas d\u00edvidas para com os mais pobres e sofredores. Tamb\u00e9m o mesmo pode acontecer com par\u00f3quias, congrega\u00e7\u00f5es e outras institui\u00e7\u00f5es cat\u00f3licas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 nesse contexto, que muitas vezes, aparecem as Campanhas de \u201cNatal Solid\u00e1rio\u201d, a doa\u00e7\u00e3o de cestas b\u00e1sicas, a distribui\u00e7\u00e3o de presentes, experi\u00eancias moment\u00e2neas de voluntariado, etc. S\u00e3o boas obras, mas n\u00e3o satisfazem o nosso dever \u00e9tico, pois os pobres e indigentes, com suas m\u00faltiplas necessidades, est\u00e3o ao nosso lado todos os dias! Eis aqui um s\u00e9rio convite para a nossa reflex\u00e3o, uma vez que o nosso compromisso com os pobres e sofredores deve ser permanente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Igreja, seguindo as pegadas de Jesus Cristo, em todas as \u00e9pocas e contextos socioculturais, sempre, de modo geral, testemunhou essa grande sensibilidade desde os seus prim\u00f3rdios. Uma das primeiras atitudes de sensibilidade social da Igreja, encontramos nos Atos dos Ap\u00f3stolos quando foi institu\u00eddo o diaconato (cf.At 6,1-7).<\/p>\n<p><strong>A Amaz\u00f4nia dos pobres<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O compromisso para com os pobres e sofredores n\u00e3o tem fronteiras. Mas faz bem tomarmos consci\u00eancia de que h\u00e1 territ\u00f3rios em ambientes concretos onde os clamores da realidade s\u00e3o mais gritantes e dram\u00e1ticos. Essa quest\u00e3o se faz presente seja em n\u00edvel nacional, quanto regional, diocesano ou paroquial.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em n\u00edvel nacional, a pobreza na Amaz\u00f4nia, lamentavelmente, se destaca e \u00e9 gritante por todos os lados. Segundo o IBGE, atualmente no Brasil, h\u00e1 quase 52 milh\u00f5es de pessoas em estado de pobreza e cerca de 13 milh\u00f5es que vivem na extrema pobreza; sessenta e seis por cento (66%) dos piores munic\u00edpios do Brasil, em qualidade de vida, est\u00e3o na Amaz\u00f4nia. Apesar das suas m\u00faltiplas fontes de riquezas naturais, a Amaz\u00f4nia brasileira re\u00fane os piores indicadores de desenvolvimento humano do pa\u00eds.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O mosaico da pobreza Amaz\u00f4nica \u00e9 composto por muitas situa\u00e7\u00f5es: a car\u00eancia de investimentos na educa\u00e7\u00e3o que estimule a produ\u00e7\u00e3o de ci\u00eancia e tecnologia; a crise de lideran\u00e7a, a corrup\u00e7\u00e3o, a falta de planejamento, a crise das institui\u00e7\u00f5es de controle social, a car\u00eancia de pol\u00edticas p\u00fablicas municipais estaduais integradas e permanentes, etc.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas esse n\u00e3o \u00e9 um carimbo amaz\u00f4nico! Somos chamados a olhar para o ambiente onde vivemos e como interagimos com ele. Quem estamos enxergando? O que percebemos? Quais lugares frequentamos com mais assiduidade? Uma coisa \u00e9 certa: a Palavra de Deus nos adverte para n\u00e3o esquecermos os pobres (cf. Gl 2,10; Sl 10,12), pois \u00e9 uma realidade permanente entre n\u00f3s! N\u00e3o basta uma mera recorda\u00e7\u00e3o com eventos circunstanciais, \u00e9 necess\u00e1rio compromisso permanente, sistem\u00e1tico e projetual para com o cuidado com a dignidade humana (cf. Is 58,6-10).<\/p>\n<p><strong>Jesus Cristo, a Esperan\u00e7a dos pobres<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jesus declarou a sua miss\u00e3o como servi\u00e7o de liberta\u00e7\u00e3o dos pobres, aprisionados, cegos e oprimidos (cf. Lc 4,14-20). Ele era profundo conhecedor da realidade da sua gente porque estava no meio do povo; andava pelas vilas e cidades, campos, desertos e praias; entrava nas sinagogas e nas fam\u00edlias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com olhar sens\u00edvel, cheio de compaix\u00e3o e cr\u00edtico, Jesus percebeu que havia uma dura realidade que contrariava a vontade de Deus Pai: gente faminta, descuidada e desorienta (cf. Mc 6,34-44), gente explorada por um sistema pol\u00edtico-religioso injusto (cf. Mt 23,1-12); desemprego (cf. Mt 20,1-6); pobres, famintos e sem cuidados (cf. Mc 6,34); doentes\u00a0 exclu\u00eddos (cf. Mc 2-5); ricos que esbanjavam seus bens no luxo, prazeres e n\u00e3o se importavam com o sofrimento dos pobres (cf. Lc 16,19-21), etc. Como Bom Pastor declarou: &#8220;eu vim para que todos tenham vida e a tenham em abund\u00e2ncia&#8221; (Jo 10,10).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Papa Francisco escolheu como tema da V Jornada Mundial dos pobres a frase de Jesus \u00absempre tereis pobres entre v\u00f3s\u00bb (Mc 14,7). Por isso a sensibilidade para com eles n\u00e3o deve ser passageira!<\/p>\n<p><strong>A Igreja e os pobres<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Igreja n\u00e3o pode ser orientada por outra sensibilidade, sen\u00e3o por aquela de Jesus Cristo; e para tornar vis\u00edvel o seu compromisso de promo\u00e7\u00e3o do Reino de Deus \u00e9 necess\u00e1ria a aten\u00e7\u00e3o para com a dignidade humana ofendida, que pode ser pela pobreza ou por outros males.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O zelo pela promo\u00e7\u00e3o da justi\u00e7a, fruto da caridade, \u00e9 um imperativo vocacional para a Igreja. A Igreja foi fundada para continuar a obra de Jesus e a indiferen\u00e7a para com os pobres, doentes, oprimidos, sofredores, famintos, injusti\u00e7ados, seria uma trai\u00e7\u00e3o \u00e0 sua miss\u00e3o e ao seu Mestre e Senhor. O cuidado pastoral para com os pobres tem um claro e profundo fundamento b\u00edblico e teol\u00f3gico. O Deus da Igreja \u00e9 o \u201cPai dos pobres&#8221;, dos \u00f3rf\u00e3os e das vi\u00favas!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O nosso Deus \u00e9 Aquele que faz justi\u00e7a aos oprimidos, que d\u00e1 p\u00e3o aos famintos, que liberta os prisioneiros; o nosso Deus \u00e9 aquele que abre os olhos dos cegos, que endireita os encurvados e protege os estrangeiros; que sustenta o \u00f3rf\u00e3o e a vi\u00fava&#8230; (cf. Sl 146,7-9). Por isso, n\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o para uma f\u00e9 fria e intimista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa mesma responsabilidade mission\u00e1ria da Igreja tem uma dimens\u00e3o can\u00f4nica, ou seja, o pr\u00f3prio Direito Can\u00f4nico define que \u201cos fi\u00e9is t\u00eam obriga\u00e7\u00e3o de socorrer \u00e0s necessidades da Igreja, a fim de que ela possa dispor do que \u00e9 necess\u00e1rio para o culto divino, para as obras de apostolado e de caridade e para o honesto sustento dos ministros. T\u00eam tamb\u00e9m a obriga\u00e7\u00e3o de promover a justi\u00e7a social e, lembrados do preceito do Senhor, socorrer os pobres com as pr\u00f3prias rendas\u201d (C\u00e2n. 222,1.2).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O C\u00e2non 529, explicita a sensibilidade do p\u00e1roco, como pastor, que deve cuidar de todos. \u00a0Al\u00e9m do devido cuidado para com as fam\u00edlias, doentes, moribundos, afirma o Direito: \u201cespecial cuidado dedique aos pobres e doentes, aos aflitos e solit\u00e1rios, aos exilados e aos que passam por especiais dificuldades. Empenhe-se tamb\u00e9m para que os esposos e pais sejam ajudados no cumprimento de seus deveres; incentive na fam\u00edlia o crescimento da vida crist\u00e3\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma vez que a promo\u00e7\u00e3o da Caridade e da Justi\u00e7a \u00e9 para todos os fieis e, com responsabilidades espec\u00edficas para os ministros ordenados, tamb\u00e9m os di\u00e1conos e bispos devem ser portadores da mesma sensibilidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Al\u00e9m do Mestre Jesus Cristo, a Igreja tamb\u00e9m \u00e9 chamada a imitar Maria, como a mestra da Caridade e da sensibilidade para com os necessitados. Ela, profundamente solid\u00e1ria para com os carentes, foi ao encontro da sua prima Isabel para servi-la; em Can\u00e1 da Galileia, discretamente, percebeu a falta de vinho e tomou as devidas provid\u00eancias.<\/p>\n<p><strong>Respostas permanentes <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A resposta permanente da Igreja \u00e0s car\u00eancias humanas deve se dar atrav\u00e9s das pastorais e de muitas outras formas de servi\u00e7os. A pastoral da crian\u00e7a, a pastoral juvenil, a pastoral da pessoa idosa, a pastoral dos enfermos, a pastoral carcer\u00e1ria, a pastoral da sa\u00fade, a pastoral familiar, a pastoral dos migrantes, dentre tantas outras, s\u00e3o instrumentos que manifestam a sensibilidade humana da Igreja, sua ternura e compaix\u00e3o para com os prediletos de Jesus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma par\u00f3quia que n\u00e3o tem pastorais est\u00e1 em profunda car\u00eancia de paix\u00e3o pelo Reino de Deus, porque n\u00e3o est\u00e1 sendo sens\u00edvel para com os mais pobres e sofredores. Uma par\u00f3quia sem sensibilidade pastoral vive na frieza \u00e9 um corpo frio, que carece de paix\u00e3o pela vida e est\u00e1 doente! Por outro lado, revela a fragilidade da f\u00e9 e da liturgia, porque carece de rela\u00e7\u00e3o com o dinamismo do Reino de Deus. A liturgia deve celebrar o Cristo na sua totalidade existencial.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A f\u00e9 tem uma dimens\u00e3o social, por isso n\u00e3o deve ser reduzida a um ato de bondade privada. Sobre isso, S\u00e3o Paulo nos estimula dizendo: \u201cN\u00e3o se amoldem \u00e0s estruturas deste mundo, mas transformem-se pela renova\u00e7\u00e3o da mente, a fim de distinguir qual \u00e9 a vontade de Deus: o que \u00e9 bom, o que \u00e9 agrad\u00e1vel a ele, o que \u00e9 perfeito\u201d (Rm 12,1-2). A caridade \u00e9 experi\u00eancia de Deus! (cf. Mt 25,3-46).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>PARA A REFLEX\u00c3O PESSOAL:<\/strong><\/p>\n<p>O que voc\u00ea acha das Campanhas de Natal sem compromissos?<\/p>\n<p>Por que a Igreja n\u00e3o deve se afastar dos pobres?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como est\u00e1 a sensibilidade da sua par\u00f3quia para com os mais pobres, h\u00e1 pastorais?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dom Ant\u00f4nio de Assis Bispo auxiliar de Bel\u00e9m do Par\u00e1 (PA) &nbsp; A cada ano, na proximidade da festa do Natal do Senhor, muitas pessoas e institui\u00e7\u00f5es despertam do sono da indiferen\u00e7a e, em poucos dias, querem for\u00e7osamente, sanar suas d\u00edvidas para com os mais pobres e sofredores. 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