{"id":860675,"date":"2021-12-10T12:12:38","date_gmt":"2021-12-10T15:12:38","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/?p=860675"},"modified":"2021-12-10T12:13:52","modified_gmt":"2021-12-10T15:13:52","slug":"860675-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/860675-2\/","title":{"rendered":"O Grito dos Exclu\u00eddos"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><strong>Dom Walmor Oliveira de Azevedo<\/strong><br \/>\n<strong>Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte<\/strong><br \/>\n<strong>Presidente da Confer\u00eancia Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB)<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Causa perplexidade saber que o Grito dos Exclu\u00eddos traz inc\u00f4modos e desconfortos para muitas pessoas, insens\u00edveis ante a multid\u00e3o de pobres e vulner\u00e1veis. Ao inv\u00e9s de cultivarem compaix\u00e3o, reprovam o evento anual realizado no Dia da P\u00e1tria e dedicado aos exclu\u00eddos. Agora, com os vergonhosos cen\u00e1rios de pobreza da sociedade brasileira se multiplicando, n\u00e3o h\u00e1 outro caminho: os gritos dos exclu\u00eddos precisam ser ouvidos. N\u00e3o se trata de quest\u00e3o pol\u00edtica, muito menos se relaciona com jogos de interesse de contextos ideol\u00f3gico-partid\u00e1rios, mas uma considera\u00e7\u00e3o humanit\u00e1ria diante dos que sofrem. O Brasil est\u00e1 emoldurado por cen\u00e1rios de fome e, por isso, torna-se urgente qualificar a escuta do cora\u00e7\u00e3o e engajar-se nas a\u00e7\u00f5es que impulsionam mudan\u00e7as, com velocidade ainda mais veloz, para vencer o sofrimento que vitima tantos pobres, mergulhados na inseguran\u00e7a alimentar, passando fome.<\/p>\n<p>Muito j\u00e1 se falou sobre uma das cru\u00e9is consequ\u00eancias da pandemia da COVID-19: as desigualdades foram acentuadas, comprovando os retrocessos que, para serem superados, dependem da configura\u00e7\u00e3o de nova ordem social, inspirada por valores e princ\u00edpios \u00e9ticos alinhados com um humanismo integral. Mas, tristemente, o que se verifica \u00e9 uma perda grave desse sentido \u00e9tico-moral, revelada nas irracionalidades para se alcan\u00e7ar enriquecimentos f\u00e1ceis, nas manipula\u00e7\u00f5es interesseiras no campo legislativo, nas coniv\u00eancias que ferem direitos cidad\u00e3os.<\/p>\n<p>Dentre os direitos essenciais desrespeitados, desponta aquele que garante alimenta\u00e7\u00e3o a cada pessoa. S\u00e3o necess\u00e1rias a\u00e7\u00f5es governamentais e cidad\u00e3s para conter a avalanche destruidora da fome. Iniciativas emergenciais devem se intensificar, humanitariamente, para que sejam evitadas cat\u00e1strofes irrevers\u00edveis, pois a fome mata. Nesse sentido, quem se alimenta com regularidade, sem nada faltar, precisa se recordar, a cada garfada, daqueles que s\u00e3o igualmente seres humanos, com os mesmos direitos, mas passam fome, perambulam pelas ruas, vivem debaixo de pontes e viadutos, dormem diante de casas onde nada falta.<\/p>\n<p>A lembran\u00e7a dos pobres n\u00e3o deve ser motivo de inc\u00f4modo pela ocupa\u00e7\u00e3o da via p\u00fablica. Quando aqueles que sofrem s\u00e3o considerados uma presen\u00e7a indesejada, comprova-se a deteriora\u00e7\u00e3o humanit\u00e1ria de uma sociedade. Espera-se uma postura bem diferente. Uma rea\u00e7\u00e3o de todos para vencer a car\u00eancia alimentar. Fam\u00edlias inteiras est\u00e3o em situa\u00e7\u00e3o de extrema vulnerabilidade &#8211; as v\u00edtimas s\u00e3o especialmente crian\u00e7as e idosos. Esse sofrimento \u00e9 grito que precisa ser escutado, para que se configure nova sensibilidade social e sejam multiplicadas a\u00e7\u00f5es emergenciais, sustentadas pela solidariedade. Essa rea\u00e7\u00e3o solid\u00e1ria, para resgatar as v\u00edtimas da fome, exige recomposi\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas nas esferas federal, estadual e municipal. Os gritos dos exclu\u00eddos n\u00e3o podem mais esperar as considera\u00e7\u00f5es mesquinhas e pequenas hospedadas em disputas pelo poder.<\/p>\n<p>Os governos t\u00eam problemas graves e urgentes para resolver, mas, acima de todos os desafios, est\u00e1 a responsabilidade de n\u00e3o permitir que a popula\u00e7\u00e3o passe fome. Essa responsabilidade exige o reconhecimento de que o dom da vida, bem maior de cada pessoa, n\u00e3o pode estar submetido \u00e0 l\u00f3gica do mercado. A l\u00f3gica do dinheiro, na sua irracionalidade, \u00e9 &#8220;surda&#8221; aos gritos dos exclu\u00eddos. \u00c9 preciso reagir ao processo de deteriora\u00e7\u00e3o social que alcan\u00e7a v\u00e1rios \u00e2mbitos, com terr\u00edveis consequ\u00eancias, sendo a fome uma das mais graves. Essa rea\u00e7\u00e3o inclui debelar o acelerado processo de desmonte dos direitos sociais e efetivar pol\u00edticas p\u00fablicas capazes de vencer o flagelo da fome, do desemprego, da falta de moradia digna, car\u00eancias nos campos da sa\u00fade e da educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Os gritos dos exclu\u00eddos conclamam os cidad\u00e3os ao exerc\u00edcio da solidariedade. Os governantes e l\u00edderes da sociedade, por obriga\u00e7\u00e3o, honestidade e, em nome de uma uni\u00e3o nacional, devem lutar pela promo\u00e7\u00e3o da igualdade social, valendo-se, evidentemente, de legisla\u00e7\u00f5es que primam pela transpar\u00eancia \u2013 sem aprovar qualquer tipo de \u201cor\u00e7amento secreto\u201d. A gravidade da situa\u00e7\u00e3o de tantas pessoas que vivem na mis\u00e9ria desenha uma crise humanit\u00e1ria que se n\u00e3o for revertida desencadear\u00e1 verdadeiro caos. O primeiro passo para superar a dor dos que padecem com a fome \u00e9 a solidariedade &#8211; rem\u00e9dio para a cura de insensibilidades. A sociedade brasileira, que j\u00e1 avan\u00e7ou em muitos aspectos, agora sofre com retrocessos e precisa de um novo rumo, com cidad\u00e3os reavaliando seus h\u00e1bitos, no horizonte inquestion\u00e1vel da ecologia integral, que tamb\u00e9m precisa balizar esferas legislativas, para que sejam corrigidos descompassos e injusti\u00e7as.<\/p>\n<p>Nenhuma pessoa, diante do que est\u00e1 acontecendo, tem o direito de cultivar \u201couvidos de mercador\u201d. Agora \u00e9 a hora de um novo entendimento cidad\u00e3o e pol\u00edtico, nos trilhos da solidariedade, que promove a justi\u00e7a. Para isso, todos, indistintamente, assumam este compromisso: ouvir os gritos dos exclu\u00eddos, sensibilizando-se, para qualificar a cidadania, fortalecer a solidariedade e cultivar coragem prof\u00e9tica. A caminho do Natal, os ouvidos do cora\u00e7\u00e3o e da raz\u00e3o se exercitem e consigam escutar os gritos dos exclu\u00eddos para que seja celebrado, com autenticidade \u2013 e n\u00e3o com hipocrisias -, o nascimento do Menino Jesus. Quem tem ouvidos para ouvir, ou\u00e7a os gritos dos exclu\u00eddos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dom Walmor Oliveira de Azevedo Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte Presidente da Confer\u00eancia Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) Causa perplexidade saber que o Grito dos Exclu\u00eddos traz inc\u00f4modos e desconfortos para muitas pessoas, insens\u00edveis ante a multid\u00e3o de pobres e vulner\u00e1veis. 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