{"id":865550,"date":"2022-03-18T16:10:23","date_gmt":"2022-03-18T19:10:23","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/?p=865550"},"modified":"2022-03-18T16:41:10","modified_gmt":"2022-03-18T19:41:10","slug":"pastorais-sociais-e-organizacoes-rurais-vao-propor-uma-campanha-nacional-contra-a-violencia-no-campo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/pastorais-sociais-e-organizacoes-rurais-vao-propor-uma-campanha-nacional-contra-a-violencia-no-campo\/","title":{"rendered":"Pastorais sociais e organiza\u00e7\u00f5es rurais v\u00e3o propor uma &#8220;Campanha Nacional contra a viol\u00eancia no campo&#8221;"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Entre os dias 17 e 18 de mar\u00e7o, cerca de 50 representantes de Pastorais Sociais, movimentos e organiza\u00e7\u00f5es que atuam no campo, mobilizados pela Comiss\u00e3o Pastoral da Terra (CPT), estiveram reunidos para refletir sobre a viol\u00eancia no campo, os elementos causadores dela e como criar mecanismos de den\u00fancia e organizar a sociedade para acabar com essa pr\u00e1tica. Dessa preocupa\u00e7\u00e3o surgiu a iniciativa de criar uma Campanha Nacional contra a Viol\u00eancia no Campo.<\/p>\n<p>A viol\u00eancia no campo \u00e9 uma dura realidade sist\u00eamica, que persiste em todas as regi\u00f5es do pa\u00eds. A CPT, organiza\u00e7\u00e3o ligada \u00e0 Confer\u00eancia Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), registra, todos os anos, os dados de conflitos no campo, com o intuito de dar visibilidade e denunciar essa pr\u00e1tica recorrente no meio rural brasileiro.<\/p>\n<p>Segundo dados do Centro de Documenta\u00e7\u00e3o da CPT Dom Tom\u00e1s Balduino foram registradas 8.663 ocorr\u00eancias de conflitos no campo, entre 2016 e 2020,\u00a0 envolvendo diversas formas de viol\u00eancia contra as pessoas, atingindo o marco de 217 assassinatos nesse per\u00edodo. A m\u00e9dia de pessoas envolvidas nesses conflitos se aproxima a 1 milh\u00e3o de pessoas todos os anos. No ano de 2020 foi registrado o maior n\u00famero de ocorr\u00eancias de conflitos no campo, desde que a CPT iniciou esse trabalho de registro. Foram 2.080 conflitos envolvendo cerca de 1 milh\u00e3o de pessoas.<\/p>\n<h3>Campanha Nacional contra a Viol\u00eancia no Campo<\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dessa forma, a partir da necessidade de pressionar pela mudan\u00e7a dessa realidade, surgiu a proposta da realiza\u00e7\u00e3o de uma Campanha Nacional contra a Viol\u00eancia no Campo. Tal Campanha deveria envolver os povos e comunidades tradicionais e camponesas, movimentos sociais e organiza\u00e7\u00f5es da sociedade civil em uma ampla mobiliza\u00e7\u00e3o para o enfrentamento a essa realidade. Ainda em est\u00e1gio embrion\u00e1rio, a Campanha foi debatida entre o grupo reunido em Bras\u00edlia nesses dias, de forma a levantar os desafios e estrat\u00e9gias para essa a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">O bispo de Itacoatiara (AM), presidente da CPT e membro da Comiss\u00e3o Episcopal Pastoral Sociotransformadora da CNBB, dom Jos\u00e9 Ionilton, avalia a import\u00e2ncia da participa\u00e7\u00e3o dos v\u00e1rios \u00e2mbitos da Igreja e dos movimentos sociais na constru\u00e7\u00e3o dessa Campanha, que deve ser um processo coletivo. \u201cDesde 1985 a CPT publica o \u2018Conflitos no Campo Brasil\u2019. Pensamos em n\u00e3o ficar s\u00f3 com o aspecto da den\u00fancia que os relat\u00f3rios trazem, e da\u00ed veio \u00e0 ideia de uma Campanha que n\u00e3o fosse s\u00f3 da CPT, mas da Igreja, das pastorais do campo e outras pastorais, e das organiza\u00e7\u00f5es da sociedade civil&#8221;, disse.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">De acordo com ele, ser\u00e1 organizado um semin\u00e1rio com o objetivo de convocar todas as pastorais e movimentos sociais do campo, para definir o caminho que faremos nessa Campanha de enfrentamento \u00e0 viol\u00eancia no campo. &#8220;Vamos precisar dos bispos, padres, leigos, consagrados. Fazemos isso motivados pelo Evangelho de Jo\u00e3o 10, 10: \u2018que todos tenham vida em abund\u00e2ncia\u2019. Os movimentos abra\u00e7am essa Campanha e esperamos que ela nas\u00e7a e cumpra o objetivo pelos quais nos trouxe aqui, que possamos reduzir a viol\u00eancia\u201d, refor\u00e7ou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para o representante da Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Reforma Agr\u00e1ria (ABRA) e da Comiss\u00e3o Brasileira de Justi\u00e7a e Paz (CBJP), Guilherme Delgado, que fez a an\u00e1lise de conjuntura do encontro, \u201cuma Campanha seria de extrema import\u00e2ncia, principalmente porque temos um ano eleitoral pela frente, e precisamos incidir na pol\u00edtica de forma a que, a partir de 2023, tentemos mudar esse modelo agr\u00edcola\/agr\u00e1rio brasileiro. Al\u00e9m disso, estamos lidando com um outro aspecto decorrente dessa pol\u00edtica e da mesma forma muito violento, que \u00e9 a fome. Houve nos \u00faltimos tr\u00eas anos e meio do governo uma exacerba\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia. Temos um governo de extrema-direita que aquilo que j\u00e1 estava ruim, como ele mesmo admitiu \u2018pode piorar\u2019, e tem piorado mesmo, mas os problemas da viol\u00eancia estrutural no campo s\u00e3o mais antigos, nem precisamos ir para o per\u00edodo colonial&#8221;, analisou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A viol\u00eancia no campo, segundo ele, vem desde quem se fortalece com todo peso e poder dos recursos do Estado, o chamado grupo do agroneg\u00f3cio e ruralistas que v\u00e3o forjando pol\u00edticas de exclus\u00e3o e de concentra\u00e7\u00e3o de renda e de poder, transformando a terra numa mercadoria qualquer. &#8220;Essa viol\u00eancia estrutural precisa ser desmontada com uma proposta de desenvolvimento que inclua, que respeite a natureza, os camponeses, os povos ind\u00edgenas, quilombolas, suas formas de vida. Combater a viol\u00eancia no campo passa tamb\u00e9m por a\u00ed, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 combater as viol\u00eancias imediatas, mas desmontar essas estruturas que est\u00e3o funcionando, ali\u00e1s, com muito dinheiro p\u00fablico\u201d, afirma.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A representante do Movimento de Mulheres Camponesas (MMC), Laura L\u00edrio, aponta que \u201cessa realidade sobre a viol\u00eancia que nos cerca precisa ser combatida e para isso precisamos intensificar a unidade de nossos povos nos diferentes seguimentos de campo, \u00e1guas, florestas e periferias&#8221;. Para a camponesa &#8220;se coloca cada vez mais urgente dialogar sobre a proposta apresentada pela CPT, da Campanha Nacional contra a Viol\u00eancia no Campo, de modo a envolver nossa diversidade na unidade popular&#8221;.<\/p>\n<h3>A import\u00e2ncia da campanha na atual conjuntura<\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">A representante da coordena\u00e7\u00e3o executiva nacional da CPT, Isolete Wichinieski, \u201ca viol\u00eancia no campo a realidade que o Brasil est\u00e1 vivendo. Enquanto uma pessoa estiver sofrendo, ou seja, estiver sendo atacada em sua dignidade, ou sendo atacada seus processos de vida, \u00e9 necess\u00e1rio que a gente tome uma posi\u00e7\u00e3o, Jesus Cristo nos ensinou isso, isso \u00e9 papel da Igreja. Enfrentar a viol\u00eancia n\u00e3o \u00e9 causa de uma pessoa, de uma pastoral, de um movimento, mas \u00e9 um problema estrutural da sociedade. Ent\u00e3o ele deve ser resolvido pela sociedade. Organizar e chamar outras pessoas, atores diversos, nesse Brasil que a gente tem, \u00e9 envolver as pessoas na resolu\u00e7\u00e3o desse problema e trazer a paz e vida digna a essa popula\u00e7\u00e3o do campo que est\u00e1 sofrendo tanto\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As comunidades tradicionais tamb\u00e9m analisaram a import\u00e2ncia da realiza\u00e7\u00e3o dessa Campanha. Em\u00edlia Costa, articuladora do Movimento Quilombola da Baixada Ocidental do Maranh\u00e3o (MOQUIBOM), v\u00ea a Campanha \u201ccomo um espa\u00e7o de denunciar e de combater as viol\u00eancias que vivenciamos diariamente, que muitas vezes acabam em mortes, n\u00e3o s\u00f3 nas comunidades tradicionais, mas em todas as comunidades originais que lutam pela vida e territ\u00f3rio&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ela conta que Arari, o quilombo Cedro, sofreu viol\u00eancia nos \u00faltimos meses, uma comunidade que vem lutando contra as cercas no campo. De acordo com ela, o governo do estado diz que faz pol\u00edticas p\u00fablicas para ajudar as comunidades, mas \u00e9 apenas para maquiar, pois acaba incentivando a viol\u00eancia diariamente. Ela denuncia queas as pol\u00edticas p\u00fablicas j\u00e1 vem montadas,\u00a0 n\u00e3o s\u00e3o constru\u00eddas com a comunidade. &#8220;N\u00e3o somos consultados, n\u00e3o nos sentimos parte, e muitas vezes n\u00e3o serve para n\u00f3s. No Maranh\u00e3o temos essa experi\u00eancia de luta e resist\u00eancia de estar em unidade com outras comunidades. A Teia dos Povos tem sido esse espa\u00e7o pra gente se fortalecer e lutar contra essa viol\u00eancia que estamos sofrendo de forma coletiva. A Campanha vem pra somar e tamb\u00e9m mostrar o que a gente j\u00e1 tem feito\u201d, disse.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A realidade da viol\u00eancia nos territ\u00f3rios, contra as comunidades e contra o direito de existir e de ter garantido seu modo de vida e produ\u00e7\u00e3o, tem aumentado ano a ano, principalmente ap\u00f3s o golpe de 2016. Para Sabrina Diniz, diretora da ABRA, a Campanha \u00e9 importante porque \u00e9 necess\u00e1ria para manter a vida das pessoas que est\u00e3o lutando por uma sociedade mais humana e saud\u00e1vel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;A viol\u00eancia no campo sempre existiu, mortes de lideran\u00e7as que lutam por reforma agr\u00e1ria, na defesa do meio ambiente, pelos direitos da popula\u00e7\u00e3o quilombola, ind\u00edgena, ribeirinha, camponeses, trabalhadores no campo, assalariados. Essa viol\u00eancia \u00e9 estrutural e foi constru\u00edda propositalmente numa l\u00f3gica capitalista de priorizar o lucro acima da vida. A viol\u00eancia existe para manter a desigualdade social, a explora\u00e7\u00e3o do trabalho, a destrui\u00e7\u00e3o do meio ambiente. J\u00e1 realizamos outras campanhas contra a viol\u00eancia no campo, mas nos \u00faltimos anos essa viol\u00eancia acirrou muito, ap\u00f3s o golpe de 2016, quando a direita mais violenta e fascista autoriza uma carta branca para jagun\u00e7os e a pol\u00edcia para matar\u201d, refor\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 2020, a CPT registrou 1.592 ocorr\u00eancias de conflitos por terra, o que equivale a uma m\u00e9dia di\u00e1ria de 4,36 conflitos, envolvendo 171.625 fam\u00edlias brasileiras, j\u00e1 muito impactadas, como o resto do mundo, pelo contexto da pandemia. A necessidade de constru\u00e7\u00e3o de uma Campanha como essa, mostra-se, portanto, urgente, para que parar o derramamento de no campo brasileiro e para que a vida seja tratada com dignidade nos territ\u00f3rios garantidos para os povos do campo, das \u00e1guas e das florestas.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-865568\" src=\"https:\/\/www.cnbb.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/Encontro-Pastorais-Sociais-e-movimentos-do-campo.jpg\" alt=\"\" width=\"1280\" height=\"960\" srcset=\"https:\/\/www.cnbb.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/Encontro-Pastorais-Sociais-e-movimentos-do-campo.jpg 1280w, https:\/\/www.cnbb.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/Encontro-Pastorais-Sociais-e-movimentos-do-campo-300x225.jpg 300w, https:\/\/www.cnbb.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/Encontro-Pastorais-Sociais-e-movimentos-do-campo-1024x768.jpg 1024w, https:\/\/www.cnbb.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/Encontro-Pastorais-Sociais-e-movimentos-do-campo-768x576.jpg 768w, https:\/\/www.cnbb.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/Encontro-Pastorais-Sociais-e-movimentos-do-campo-500x375.jpg 500w, https:\/\/www.cnbb.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/Encontro-Pastorais-Sociais-e-movimentos-do-campo-800x600.jpg 800w\" sizes=\"(max-width: 1280px) 100vw, 1280px\" \/><\/p>\n<pre>Com informa\u00e7\u00f5es e fotos deClaudia Pereira, Cristiane Passos, Ilanyr Felipe e Osnilda Lima<\/pre>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Segundo dados do Centro de Documenta\u00e7\u00e3o da CPT Dom Tom\u00e1s Balduino foram registradas 8.663 ocorr\u00eancias de conflitos no campo entre 2016 e 2020,\u00a0 envolvendo diversas formas de viol\u00eancia contra as pessoas, atingindo o marco de 217 assassinatos no per\u00edodo<\/p>\n","protected":false},"author":83,"featured_media":865564,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":""},"categories":[814],"tags":[4352],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts\/865550"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/users\/83"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/comments?post=865550"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts\/865550\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/media\/865564"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/media?parent=865550"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/categories?post=865550"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/tags?post=865550"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}