{"id":867580,"date":"2022-04-15T08:00:39","date_gmt":"2022-04-15T11:00:39","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/?p=867580"},"modified":"2022-04-14T14:51:16","modified_gmt":"2022-04-14T17:51:16","slug":"sexta-feira-santa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/sexta-feira-santa\/","title":{"rendered":"Sexta-feira Santa"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\">Cardeal Orani Jo\u00e3o, Cardeal Tempesta<br \/>\nArcebispo do Rio de Janeiro (RJ)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Numa Sexta-feira do ano 33, os romanos crucificaram, a pedido das autoridades religiosas da \u00e9poca a Jesus de Nazar\u00e9. Jesus pregava a chegada do Reino de Deus, anunciado nas Escrituras de Israel; afirmava ter vindo de Deus, ser o Filho de Deus. Escolhera Doze disc\u00edpulos, indicando claramente que, a partir dele, Israel, o povo das Doze tribos, deveria ser renovado e transformado. Afirmava que aqueles que nele acreditassem e o aceitassem como Messias e Salvador, que o amassem mais que \u00e0 pr\u00f3pria vida e se abrissem \u00e0 sua mensagem sem nenhuma reserva, encontrariam a Luz verdadeira, a Vida verdadeira e venceriam, com Ele e como Ele, a pr\u00f3pria morte: as mortes da vida e a Morte \u00faltima.<\/p>\n<p>Jesus est\u00e1 na cruz, humanamente aniquilado, um farrapo, um trapo de gente. Perdoa seus inimigos, entrega-se nas m\u00e3os do Pai com total confian\u00e7a e morre. \u00c9 sepultado. No terceiro dia, seus disc\u00edpulos dizem que Ele veio, vivo, ressuscitado, totalmente transfigurado, glorioso, divinizado na sua natureza humana, ao encontro dos seus. Tudo mudou para aqueles Doze, tudo mudou para os disc\u00edpulos, tudo mudou para Paulo de Tarso, judeu culto, letrado, prudente, que diz ter sido encontrado por Jesus vivo, ressuscitado, vitorioso, no caminho de Damasco&#8230; Deste testemunho dos Ap\u00f3stolos a Igreja vive h\u00e1 dois mil anos; por esse testemunho muitos deram a vida, muitos consagraram toda a exist\u00eancia. Os crist\u00e3os cr\u00eaem com todas as for\u00e7as e com razo\u00e1veis motivos: Jesus venceu a morte, ressuscitou, est\u00e1 no Pai e, na pot\u00eancia do seu Esp\u00edrito Santo, estar\u00e1 presente \u00e0 sua Igreja at\u00e9 o fim dos tempos.<\/p>\n<p>Sexta-Feira de sil\u00eancio, de jejum, de ora\u00e7\u00e3o, de abstin\u00eancia de carne. Sexta-Feira que nos pergunta: como pode um Deus morto? Como pode a vida ser morta pela Morte? Como pode a Luz dissipar-se ante as trevas? Como pode o Pai se calar e permitir que o Justo fosse assassinado e derrotado? Onde est\u00e1 Deus? Se existe, por que n\u00e3o salvou o seu Filho amado?<\/p>\n<p>De fato, a cruz, por si mesma, \u00e9 um esc\u00e2ndalo terr\u00edvel! Por isso os antigos pag\u00e3os, zombando dos crist\u00e3os, representavam um asno crucificado \u2013 um leitor escreveu em um Jornal que a doutrina da Igreja n\u00e3o passa de \u201casneiras\u201d&#8230; H\u00e1 dois mil anos dizem isso. Alguns zombam de n\u00f3s, chamando-nos adoradores da cruz, curti\u00e7\u00e3o do homem embevecido com sua raz\u00e3o, com sua tecnologia, com seu conforto, com suas solu\u00e7\u00f5es \u201cmorais\u201d pr\u00e1ticas e f\u00e1ceis, tanto quanto levianas e vulgares, com sua ilus\u00e3o de ser senhor do bem e do mal, do certo e do errado, da vida e da morte.<\/p>\n<p>Para n\u00f3s crist\u00e3os, no entanto, a cruz nos descortina, fundamentalmente, dois mist\u00e9rios tremendos. Primeiro, o Mist\u00e9rio da Iniquidade, Mist\u00e9rio do Pecado do mundo, fruto da liberdade humana, que pode de tal modo fechar-se para Deus, levando o homem \u2013 cada indiv\u00edduo e a humanidade toda \u2013 , a tal soberba, a tal auto-sufici\u00eancia, a ponto de matar Deus: \u201cN\u00e3o queremos que esse a\u00ed reine sobre n\u00f3s! N\u00e3o temos outro rei a n\u00e3o ser C\u00e9sar!\u201d (Jo 19,15). Isso mesmo: a cruz revela at\u00e9 onde o homem pode ir: ele quer matar Deus! E o est\u00e1 matando, continua a mat\u00e1-lo, erradicando-o da cultura, da sociedade, dos meios de comunica\u00e7\u00e3o, das escolas, das fam\u00edlias, dos cora\u00e7\u00f5es. Basta que escutemos o brado prepotente e realista do ateu Nietzsche \u201cDeus morreu! Deus est\u00e1 morto! E n\u00f3s \u00e9 que o matamos! Tudo o que havia de mais sagrado e mais poderoso no mundo esvai-se em sangue sob o peso do nosso punhal. N\u00e3o vos parece grande demais essa a\u00e7\u00e3o? No dever\u00edamos n\u00f3s mesmos nos tornar deuses? Nunca houve uma a\u00e7\u00e3o t\u00e3o grande como essa!\u201d<\/p>\n<p>A cruz revela tamb\u00e9m um outro mist\u00e9rio: o Mist\u00e9rio da Piedade! Mist\u00e9rio de um Deus t\u00e3o grande no seu amor, t\u00e3o humilde no profundo respeito pela liberdade humana, que \u00e9 capaz de se entregar \u00e0 morte para salvar essa humanidade tola e prepotente: \u201cDeus amou tanto o mundo que entregou o seu Filho \u00fanico, para que todo aquele que nele cr\u00ea n\u00e3o pere\u00e7a, mas tenha a vida eterna. Pois Deus n\u00e3o enviou o seu Filho ao mundo para julgar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por ele\u201d (Jo 3,16-17). Na Cruz revela-se at\u00e9 onde Deus est\u00e1 disposto a ir por n\u00f3s: um Deus solid\u00e1rio, que entra na nossa vida, que assume as nossas contradi\u00e7\u00f5es, que sofre conosco e morre conosco para nos fazer ressuscitar com ele, mantendo-nos sempre aberto o caminho da salva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Contudo, \u201cCristo por n\u00f3s se fez obediente at\u00e9 a morte e morte de cruz\u201d (Fl 2,8). Mas, na consuma\u00e7\u00e3o de sua vida, tornou-se causa de salva\u00e7\u00e3o eterna para todos os que lhe obedecem\u201d. Isto \u00e9, tornado perfeito na obedi\u00eancia, consumando toda a sua exist\u00eancia humana de modo amoroso e total, entregando-se ao Pai por n\u00f3s, ele se tornou causa da nossa salva\u00e7\u00e3o! Vede, irm\u00e3os: n\u00e3o se oferece mais ao Pai sacrif\u00edcios de v\u00edtimas irracionais e impessoais.<br \/>\nEnquanto o mundo gira, a Cruz permanece de p\u00e9! Contemplemos!<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cardeal Orani Jo\u00e3o, Cardeal Tempesta Arcebispo do Rio de Janeiro (RJ) Numa Sexta-feira do ano 33, os romanos crucificaram, a pedido das autoridades religiosas da \u00e9poca a Jesus de Nazar\u00e9. Jesus pregava a chegada do Reino de Deus, anunciado nas Escrituras de Israel; afirmava ter vindo de Deus, ser o Filho de Deus. 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