{"id":918997,"date":"2022-07-22T11:02:48","date_gmt":"2022-07-22T14:02:48","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/?p=918997"},"modified":"2022-07-22T11:04:18","modified_gmt":"2022-07-22T14:04:18","slug":"o-sentido-da-vida-ainda-e-possivel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/o-sentido-da-vida-ainda-e-possivel\/","title":{"rendered":"O Sentido da Vida ainda \u00e9 poss\u00edvel?\u00a0"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><strong>Dom Jacinto Bergmann<br \/>\nArcebispo de Pelotas (RS)<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559739&quot;:0,&quot;335559740&quot;:240}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">Nas minhas leituras nestes \u00faltimos dias chuvosos, mais uma vez deparei-me com a seguinte par\u00e1bola do fil\u00f3sofo niilista Friedrich Nietzsche: \u201cN\u00e3o ouviram falar daquele homem louco que em plena manh\u00e3 acendeu uma lanterna e correu ao mercado, e p\u00f4s-se a gritar incessantemente: &#8211; \u2018Procuro Deus! Procuro Deus!\u2019? E como l\u00e1 se encontrassem muitos daqueles que n\u00e3o criam em Deus, ele despertou com isso uma grande gargalhada. \u2013 \u2018Ent\u00e3o ele est\u00e1 perdido?\u2019 perguntou um deles. \u2013 \u2018Ele se perdeu como uma crian\u00e7a?\u2019 disse um outro. \u2013 \u2018Est\u00e1 se escondendo?\u00a0 Ele tem medo de n\u00f3s?\u00a0 Embarcou num navio? Emigrou?\u2019 \u2013 gritavam e riam uns para os outros. O homem louco se lan\u00e7ou para o meio deles e trespassou-os com seu olhar. \u2013 \u2018Para onde foi Deus?\u2019 gritou ele; \u2018j\u00e1 lhes direi: n\u00f3s o matamos, voc\u00eas e eu; somos todos seus assassinos!\u2019\u201d\u00a0<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559731&quot;:708,&quot;335559739&quot;:0,&quot;335559740&quot;:240}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">Niilismo e a quest\u00e3o do Sentido da Vida v\u00e3o juntos. Claro, a quest\u00e3o do Sentido da Vida \u00e9 uma quest\u00e3o que pertence a todos. Ela aparece, contudo, de maneira mais premente, nas sempre mais pessoas tidas como \u201ccultas\u201d &#8211; considerando-se \u201cp\u00f3s-modernas aut\u00eanticas\u201d. S\u00e3o elas que sentem essa quest\u00e3o com agudeza e pathos, com dramaticidade, se n\u00e3o tragicidade. Por que? Porque, em virtude de sua vis\u00e3o imanentista e secularista da vida, os \u201ccultos p\u00f3s-modernos pretensamente aut\u00eanticos\u201d, j\u00e1 n\u00e3o disp\u00f5em, hoje, um c\u00f3digo pr\u00f3prio, quer natural, quer humano, quer religioso, que lhes permita responder adequadamente a esta quest\u00e3o.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559731&quot;:708,&quot;335559739&quot;:0,&quot;335559740&quot;:240}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">Para a grande maioria atual dos \u201ccultos p\u00f3s-modernos pretensamente aut\u00eanticos\u201d, a vida, como um todo, n\u00e3o vale a pena. Ensinam, ent\u00e3o, que temos que conviver com o vazio da exist\u00eancia, que n\u00e3o resta alternativa sen\u00e3o aguentar o absurdo da vida. Procurar um sentido global na amizade com a cria\u00e7\u00e3o (conectividade), no amor ao pr\u00f3ximo (alteridade) e no amor a Deus (religi\u00e3o), \u00e9, para eles ilus\u00e3o e fuga. N\u00e3o h\u00e1 o que fazer: a vida \u00e9 assim mesmo! Ent\u00e3o resignam-se ao absurdo e se instalam no vazio.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559731&quot;:708,&quot;335559739&quot;:0,&quot;335559740&quot;:240}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">Efetivamente, para muitos \u201ccultos p\u00f3s-modernos pretensamente aut\u00eanticos\u201d, n\u00e3o haveria mais nem a cria\u00e7\u00e3o (sem conectividade) nem o pr\u00f3ximo (sem alteridade) nem Deus (sem religi\u00e3o). Eles dispensam a rela\u00e7\u00e3o com a cria\u00e7\u00e3o, com o outro-irm\u00e3o e com o Outro-Deus, para ater-se a simples realidades materiais desse mundo. N\u00e3o haveria mais qualquer \u201cGrande Coisa\u201d necess\u00e1ria para tocar a vida adiante. A quest\u00e3o do Sentido da Vida seria um logro. O que importa seria \u201cdesesperar da felicidade\u201d, sempre inating\u00edvel, para poder gozar, ent\u00e3o, a \u201cbeatitude\u201d do presente, a \u00fanica acess\u00edvel. O que sobra, pois, como proposta existencial, \u00e9 a mediocridade. \u00c9 claro, se a vis\u00e3o da vida \u00e9 pequena, o ideal de vida ser\u00e1 tamb\u00e9m pequeno. Ora, esse horizonte de vida estreito, que at\u00e9 ontem se julgava t\u00edpico dos \u201cpequeno-burgueses\u201d, tornou-se na modernidade tardia, a conduta das \u201cclasses imanentistas e secularistas\u201d, dos \u201ccultos p\u00f3s-modernos pretensamente aut\u00eanticos\u201d.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559731&quot;:708,&quot;335559739&quot;:0,&quot;335559740&quot;:240}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">Mas um ideal de vida desse g\u00eanero, privado que est\u00e1 de uma Fonte Superior de inspira\u00e7\u00e3o, se esvazia necessariamente no niilismo. De fato, ele n\u00e3o tem como evitar o destino anulador de tudo, que \u00e9 a morte. Niilismo \u00e9, pois, no fundo, a filosofia de vida da elite \u201cculta p\u00f3s-moderna pretensamente aut\u00eantica\u201d, e por influ\u00eancia desta, at\u00e9 certo ponto da sociedade como um todo.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559731&quot;:708,&quot;335559739&quot;:0,&quot;335559740&quot;:240}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">Seja como for, h\u00e1 que reconhecer que um ideal de vida limitado a este mundo puramente imanente e secularista \u00e9, no fim, insustent\u00e1vel, pois \u00e9 imposs\u00edvel ao cora\u00e7\u00e3o humano renunciar a busca da plenitude humana. Esta, pertence \u00e0 natureza da criatura humana criada \u201c\u00e0 imagem e semelhan\u00e7a do Deus-Criador\u201d, e, se enra\u00edza, portanto, no estatuto metaf\u00edsico do homem, enquanto ser contingente, portanto, um ser ontologicamente vinculado ao Ser necess\u00e1rio. Por isso, concluiu o fil\u00f3sofo, Clodovis Boff: \u201c\u00c9 somente a pre\u00e7o de um processo perverso de absolutiza\u00e7\u00e3o, tal como sucede no caso das ideologias totalit\u00e1rias, que causas terrenas podem preencher o cora\u00e7\u00e3o humano, mas sempre por pouco tempo e de modo enganoso\u201d. \u00c9, pois, em v\u00e3o que os \u201ccultos p\u00f3s-modernos pretensamente aut\u00eanticos\u201d querem se desfazer de quaisquer absolutos e viver <\/span><i><span data-contrast=\"auto\">ut si nullus deus daretur \u2013 como se nenhum deus fosse dado.<\/span><\/i><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559731&quot;:708,&quot;335559739&quot;:0,&quot;335559740&quot;:240}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">Fica a pergunta pontual: Por que a raz\u00e3o tardo-moderna recusa a Fonte da qual tudo jorra? Tamb\u00e9m fica uma resposta pontual: Por duas falhas, ambas de car\u00e1ter moral: primeiro, por desconfian\u00e7a na raz\u00e3o; segundo, por recusa \u00e0 luz da verdade (mas isso, j\u00e1 \u00e9 assunto de uma pr\u00f3xima reflex\u00e3o).<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559731&quot;:708,&quot;335559739&quot;:0,&quot;335559740&quot;:240}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">A reflex\u00e3o por ora \u00e9: O Sentido da Vida ainda \u00e9 poss\u00edvel? Ou j\u00e1 nos entregamos ao niilismo que leva ao absurdo de vida?<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559731&quot;:708,&quot;335559739&quot;:0,&quot;335559740&quot;:240}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559739&quot;:0,&quot;335559740&quot;:240}\">\u00a0<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dom Jacinto Bergmann Arcebispo de Pelotas (RS) \u00a0 Nas minhas leituras nestes \u00faltimos dias chuvosos, mais uma vez deparei-me com a seguinte par\u00e1bola do fil\u00f3sofo niilista Friedrich Nietzsche: \u201cN\u00e3o ouviram falar daquele homem louco que em plena manh\u00e3 acendeu uma lanterna e correu ao mercado, e p\u00f4s-se a gritar incessantemente: &#8211; \u2018Procuro Deus! 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