{"id":931625,"date":"2022-10-06T11:33:17","date_gmt":"2022-10-06T14:33:17","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/?p=931625"},"modified":"2022-10-06T11:33:40","modified_gmt":"2022-10-06T14:33:40","slug":"precisamos-falar-de-suicidio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/precisamos-falar-de-suicidio\/","title":{"rendered":"Precisamos falar de suic\u00eddio"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><strong> Dom Jacinto Bergmann<br \/>\nArcebispo de Pelotas (RS)<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559739&quot;:160,&quot;335559740&quot;:259}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">Na sociedade atual, o suic\u00eddio representa um fen\u00f4meno grave e, por isso, muito e necessariamente estudado. As estat\u00edsticas (dados da OMS) sobre a quest\u00e3o do suic\u00eddio, ainda antes da pandemia da Covid-19, j\u00e1 eram alarmantes: no mundo mais de 1 milh\u00e3o de pessoas que se suicidavam por ano e as tentativas de suic\u00eddios subiam a 20 milh\u00f5es. A cada 40 segundos, uma pessoa se suicidava. <\/span><span data-contrast=\"auto\">\u00c9 inacredit\u00e1vel que o suic\u00eddio mate mais que os homic\u00eddios e as guerras. O suic\u00eddio parece mesmo ser a \u201cmarca registrada\u201d do <\/span><span data-contrast=\"auto\">\u201cniilismo\u201d do nosso tempo. Fala-se em fen\u00f4meno de \u201cmassa\u201d, em \u201cepidemia\u201d, em \u201cmar\u00e9\u201d. <\/span><span data-contrast=\"auto\">\u00c9 <\/span><span data-contrast=\"auto\">um verdadeiro \u201cflagelo social\u201d. Acresce, segundo a OMS, que essa praga aumentou nos \u00faltimos anos e provavelmente continuar\u00e1 aumentando. Tudo isso n\u00e3o surpreende, considerando a sociedade atual marcada pela ang\u00fastia e a depress\u00e3o que facilmente abrem a via para a tenta\u00e7\u00e3o do suic\u00eddio. Seja como for o suic\u00eddio<\/span><span data-contrast=\"auto\"> \u00e9<\/span><span data-contrast=\"auto\"> um grave problema social.\u00a0\u00a0<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559739&quot;:160,&quot;335559740&quot;:259}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">A gravidade do suic\u00eddio na sociedade moderna e p\u00f3s-moderna j\u00e1 foi percebida com grande acuidade por <\/span><span data-contrast=\"auto\">\u00c9mile<\/span><span data-contrast=\"auto\"> Durkheim no final do s\u00e9c. XIX. Ele chegou a qualificar a sociedade de \u201csuicid\u00f3gena\u201d. Nos seus estudos j\u00e1 apontava o \u201cniilismo\u201d como fator determinante do suic\u00eddio. Mais, chega <\/span><span data-contrast=\"auto\">\u00e0<\/span><span data-contrast=\"auto\"> conclus\u00e3o que o suic\u00eddio \u00e9 um \u201csintoma\u201d revelador e ao mesmo tempo o \u201cresultante\u201d do \u201cmal-estar geral\u201d da sociedade atual, da \u201cperturba\u00e7\u00e3o profunda\u201d, ou melhor, da \u201cdoen\u00e7a coletiva\u201d que a atinge.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559739&quot;:160,&quot;335559740&quot;:259}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">De fato, observa-se na civiliza\u00e7\u00e3o atual, como j\u00e1 fizera Durkheim, este dado \u201cniilista\u201d: o suic\u00eddio \u00e9 banalizado e desculpalizado<\/span><span data-contrast=\"auto\">. \u00c9 tido como um drama meramente pessoal, que cada um resolve como entende. O interdito \u201cn\u00e3o matar\u00e1s\u201d, que, como entende Fr<\/span><span data-contrast=\"auto\">eud, tem inclusive por fun\u00e7\u00e3o controlar nossa \u201cpuls\u00e3o de morte\u201d, perdeu sua antiga e b\u00edblica fun\u00e7\u00e3o.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559739&quot;:160,&quot;335559740&quot;:259}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">Ademais: reivindica-se a eutan\u00e1sia como \u201cdireito de morrer com dignidade\u201d, sobretudo no caso das v\u00edtimas de doen\u00e7as degenerativas e dos idosos atingidos por dores tidas por intoler\u00e1veis. Mas, a eutan\u00e1sia, cuja defesa se difunde como sombra nefasta em nossa cultura, n\u00e3o \u00e9 na maior parte das vezes, uma forma de suic\u00eddio? Na Su\u00ed\u00e7a h\u00e1 uma cl\u00ednica de suic\u00eddio, a <\/span><i><span data-contrast=\"auto\">Dignitas, <\/span><\/i><span data-contrast=\"auto\">para onde aportam candidatos de v\u00e1rios pa\u00edses e n\u00e3o falta sequer champagne para \u201ccelebrar o desenlace\u201d. Na Fran\u00e7a existe a \u201cAssocia\u00e7\u00e3o pelo direito de morrer com dignidade\u201d. Possui milhares de s\u00f3cios provenientes de dezenas de pa\u00edses. Nos Estados Unidos da Am\u00e9rica, Derek Humphrey, fundador da \u201cSociedade pelo direito de morte\u201d, publicou o livro \u201cSa\u00edda Final\u201d, receitu\u00e1rio de suic\u00eddio com f\u00e1rmacos. Na Alemanha existe a \u201cSociedade da Eutan\u00e1sia para uma Morte humana\u201d, com milhares de s\u00f3cios que pagam taxa de admiss\u00e3o e anuidade, e com direito \u00e0 publica\u00e7\u00e3o quadrimestral da revista \u201cVida humana &#8211; Morte humana\u201d, que ensina a t\u00e9cnica de morrer sem causar problemas. A cl\u00ednica <\/span><i><span data-contrast=\"auto\">\u201cEubios\u201d<\/span><\/i><span data-contrast=\"auto\">, que encarna essa filosofia de morte, oferece aos s\u00f3cios que o desejam, at\u00e9 por via postal, cianureto de pot\u00e1ssio, j\u00e1 usado pelos chef\u00f5es nazistas para a sua auto elimina\u00e7\u00e3o. Morte por correio: a tal n\u00edvel chega a trivializa\u00e7\u00e3o da morte autoinfligida.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559739&quot;:160,&quot;335559740&quot;:259}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">Este r\u00e1pido ac\u00famulo de dados acima<\/span><span data-contrast=\"auto\"> \u00e9 inequ\u00edvoco: existe, sim, uma \u201ccultura de morte\u201d, como <\/span><span data-contrast=\"auto\">j\u00e1 n\u00e3o cansava de denunciar S\u00e3o Jo\u00e3o Paulo II. E a literatura que divulga essa mentalidade nada mais faz que legitimar e, assim, incitar \u00e0 autodestrui\u00e7\u00e3o, inclusive por motivos f\u00fateis. Como se v\u00ea, a morte \u00e9 a\u00ed banalizada e at\u00e9 mesmo elogiada como \u201csa\u00edda honrosa\u201d dessa vida. A morte autoinfligida passa a ser chamada de \u201cmorte digna\u201d. O suic\u00eddio \u00e9 apresentado como sinal de coragem, quando, em verdade, mais coragem se necessita para viver a vida cotidiana e mais ainda uma vida \u201cdesafortunada\u201d. Ora, uma cultura que d\u00e1 vivas \u00e0 pr\u00f3pria morte, d<\/span><span data-contrast=\"auto\">\u00e1<\/span><span data-contrast=\"auto\">, ao mesmo tempo, prova de inequ\u00edvoca de \u201cniilismo\u201d, de falta de sentido da vida.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559739&quot;:160,&quot;335559740&quot;:259}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">Precisamos falar de suic\u00eddio. Precisamos falar do niilismo \u2013 a falta de sentido de vida. Precisamos falar de Deus e o sentido da vida que tem Nele o in\u00edcio e o fim.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559739&quot;:160,&quot;335559740&quot;:259}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559739&quot;:160,&quot;335559740&quot;:259}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dom Jacinto Bergmann Arcebispo de Pelotas (RS) \u00a0 Na sociedade atual, o suic\u00eddio representa um fen\u00f4meno grave e, por isso, muito e necessariamente estudado. 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