{"id":932357,"date":"2022-10-21T12:08:39","date_gmt":"2022-10-21T15:08:39","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/?p=932357"},"modified":"2022-10-21T12:12:28","modified_gmt":"2022-10-21T15:12:28","slug":"justificado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/justificado\/","title":{"rendered":"Justificado"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><strong>Dom Rodolfo Lu\u00eds Weber<\/strong><br \/>\n<strong>Arcebispo de Passo Fundo<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A liturgia dominical continua com tema da ora\u00e7\u00e3o a partir da par\u00e1bola do fariseu e do publicano (Lucas 18, 9-14). Nela se revela o \u00edntimo dos homens que rezam e tamb\u00e9m a Deus a quem \u00e9 dirigida a ora\u00e7\u00e3o. Os destinat\u00e1rios da par\u00e1bola s\u00e3o \u201calguns que confiavam na sua pr\u00f3pria justi\u00e7a e desprezavam os outros\u201d. Quem s\u00e3o estes alguns? Jesus deixa em aberto. Confiar na pr\u00f3pria justi\u00e7a significa confiar firmemente em si mesmo. O \u201cjusto\u201d no Antigo Testamento \u00e9 o homem que cumpre a vontade de Deus e que deposita nele a confian\u00e7a. Deus \u00e9 a rocha de apoio e o verdadeiro sustento da exist\u00eancia. Quem \u201cconfia na pr\u00f3pria justi\u00e7a\u201d n\u00e3o confia em Deus e nem nos outros, pois s\u00f3 confia em si e todos lhe s\u00e3o devedores.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A par\u00e1bola do fariseu e do publicano \u00e9 breve, mas muito rica. Convida o leitor a fazer parte dela. Antes de qualificar os personagens, Jesus diz que s\u00e3o \u201cdois homens\u201d que v\u00e3o rezar no Templo. Antes de identificar as diferen\u00e7as \u00e9 acentuada a unidade, a sua humanidade comum, indistinta na ess\u00eancia e na dignidade. Ambos foram rezar, no mesmo lugar e dirigiram-se ao mesmo Deus. Na pluralidade das situa\u00e7\u00f5es humanas faz-se necess\u00e1rio ressaltar, em primeiro lugar, o une e depois as diferen\u00e7as.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A unidade dos \u201cdois homens\u201d se rompe a partir do lugar que ocupam na sociedade e na religi\u00e3o. Os fariseus, que se pode traduzir por \u201cos separados\u201d, buscavam uma pr\u00e1tica perfeita da Lei, a tal ponto que faziam obras que excediam o determinado pelo dever. Como consequ\u00eancia, sentiam orgulho da sua situa\u00e7\u00e3o e desprezavam os outros. A ora\u00e7\u00e3o que o fariseu faz revela o seu interior. \u201c\u00d3 Deus, eu te agrade\u00e7o porque n\u00e3o sou como os outros homens, ladr\u00f5es, desonestos, ad\u00falteros, nem como este cobrador de impostos\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os cobradores de impostos tinham adquirido o direito do Estado para cobrar taxas e impostos dos devedores. Sobre eles recaiam desconfian\u00e7as sobre a sua honestidade e por serem aliados dos romanos. Por\u00e9m, diante de Deus, o cobrador teve a seguinte postura: \u201cficou \u00e0 dist\u00e2ncia, e nem atrevia a levantar os olhos para o c\u00e9u; mas batia no peito, dizendo: \u201cMeu Deus, tem piedade de mim que sou pecador\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao final Jesus d\u00e1 o sentido da par\u00e1bola: \u201ceste \u00faltimo voltou para a casa justificado, o outro n\u00e3o\u201d. O Cardeal Jos\u00e9 Tolentino de Mendon\u00e7a comentando a par\u00e1bola afirma: \u201cjustificado tem aqui o sentido de \u201cagraciado com a aceita\u00e7\u00e3o de Deus\u201d, \u201cde encontro de gra\u00e7a a seus olhos\u201d. (&#8230;) Mas \u201cjusto\u201d aos olhos de Deus n\u00e3o \u00e9, antes de tudo, o que se dedica ao cumprimento de um extenso programa moral, mas sim aquele que, confiando na miseric\u00f3rdia divina, reconhece a pr\u00f3pria limita\u00e7\u00e3o, a car\u00eancia. Por isso se diz que o crist\u00e3o n\u00e3o um homem \u201cjusto\u201d, mas \u201cjustificado\u201d, n\u00e3o \u00e9 um ser \u201cgracioso\u201d, mas \u201cagraciado\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Agora, a par\u00e1bola para ficar completa, precisa ser contada assim: \u201cTr\u00eas homens subiram ao templo para rezar: um era fariseu, outro publicano e o outro o leitor da par\u00e1bola\u201d. Todos os personagens precisam do perd\u00e3o e da miseric\u00f3rdia de Deus. E o leitor tamb\u00e9m.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Continua o Cardeal Jos\u00e9 Tolentino: \u201cO \u201cmodelo de a\u00e7\u00e3o\u201d \u00e9 dado ao leitor na abundante miseric\u00f3rdia de Deus, que sabe acolher-nos e cancelar as muitas dist\u00e2ncias por onde a vida se dispersa. O cora\u00e7\u00e3o de Deus ensina o que n\u00e3o desprezar, n\u00e3o excluir. O fato de a ora\u00e7\u00e3o do fariseu n\u00e3o ter sido aceita diz-nos isso. Que no cora\u00e7\u00e3o de Deus n\u00e3o h\u00e1 lugar para divis\u00e3o, para muros. Que Deus n\u00e3o podia por isso legitimar tal ora\u00e7\u00e3o. Em Jesus presentifica-se plenamente este des\u00edgnio de miseric\u00f3rdia de Deus. Ele soube abolir as fronteiras de toda ordem que<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">segmentavam as rela\u00e7\u00f5es (&#8230;) No fim das contas, ele disse-nos que \u00e9 o outro quem nos torna justos\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dom Rodolfo Lu\u00eds Weber Arcebispo de Passo Fundo A liturgia dominical continua com tema da ora\u00e7\u00e3o a partir da par\u00e1bola do fariseu e do publicano (Lucas 18, 9-14). Nela se revela o \u00edntimo dos homens que rezam e tamb\u00e9m a Deus a quem \u00e9 dirigida a ora\u00e7\u00e3o. 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