{"id":932384,"date":"2022-10-21T14:23:20","date_gmt":"2022-10-21T17:23:20","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/?p=932384"},"modified":"2022-10-21T14:24:02","modified_gmt":"2022-10-21T17:24:02","slug":"dom-jacinto-por-que-arrepender-se","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/dom-jacinto-por-que-arrepender-se\/","title":{"rendered":"Por que arrepender-se"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><strong>Dom Jacinto Bergmann<\/strong><br \/>\n<strong>Arcebispo Metropolitano de Pelotas (RS)<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Arrepender-se! \u00c9 uma conduta que parece sempre mais estar em desuso. O demasiado poder com o qual a humanidade est\u00e1 se armando, torna-a praticamente infal\u00edvel e perfeita. \u00c9 a criatura se transformando em criador: &#8220;eu n\u00e3o me arrependo de nada do que sou e do que vivo!&#8221;; \u201cn\u00e3o preciso arrepender-me, pois n\u00e3o errei, n\u00e3o erro, n\u00e3o errarei\u201d; \u201cpor que, ent\u00e3o, arrepender-se?\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A prop\u00f3sito: Rabi (mestre) Aharon de Karlin &#8211; Rep\u00fablica da Tch\u00e9quia foi certa vez o chazan (cantor) para a shacharit (prece da manh\u00e3) no Rosh Hashan\u00e1 (in\u00edcio do Ano Novo judaico). Entretanto, assim que recitou a primeira palavra Hamelech (o Rei), explodiu em l\u00e1grimas amargas e foi incapaz de continuar. Mais tarde, os chassidim (piedosos) lhe perguntaram: &#8220;Rebe (mestre em yiddish), o que o fez cair em pranto daquele modo?\u201d Explicou Aharon: &#8220;Assim que disse a palavra Hamelech (o Rei), lembrei-me de uma hist\u00f3ria presente na Guemar\u00e1 (coment\u00e1rios e an\u00e1lises rab\u00ednicas): \u201cQuando Rabi (mestre) Yochanan Ben Zacai visitou o Imperador Vespaciano, ele saudou-o com as seguintes palavras: \u201cA paz esteja contigo, \u00f3 Rei, a paz esteja contigo, \u00f3 rei&#8217;! Quando Vespaciano, que ainda n\u00e3o tinha sido informado da decis\u00e3o de ser imperador pelo Senado Romano, ouviu as palavras de sauda\u00e7\u00e3o do Rabi (mestre) Yochanan Ben Zacai, replicou: \u201cVoc\u00ea merece a morte por uma de duas raz\u00f5es: Se eu n\u00e3o for imperador, como ousa falar-me dessa maneira? E se eu for o imperador, por que n\u00e3o veio ver-me at\u00e9 agora?&#8221; \u201cPor isso\u201d, disse Rabi (mestre) Aharon aos chassidim (piedosos) que lhe perguntaram, \u201cquando me referi a Deus como Hamelech (o Rei), fiquei cheio de remorso. Como Deus \u00e9 o Rei, por que n\u00e3o o procurei arrependido at\u00e9 agora?<\/p>\n<p>O n\u00e3o-arrepender-se \u00e9 uma doen\u00e7a existencial fundamental do \u201ceu\u201d. Essa doen\u00e7a leva a considerar que tudo o que eu sou e o que eu vivo \u00e9 infal\u00edvel e perfeito. O meu \u201ceu\u201d j\u00e1 n\u00e3o precisa dobrar-se perante ningu\u00e9m e perante nada. Ao contr\u00e1rio: todos devem dobrar-se diante de meu \u201ceu\u201d. E ai!, se n\u00e3o se dobram, porque ent\u00e3o todos est\u00e3o errados e s\u00e3o mentirosos. Arrepender-se de que se o meu ser e o meu viver \u00e9 o \u201ccorreto\u201d e o \u201cperfeito!\u201d<\/p>\n<p>O n\u00e3o-arrepender-se \u00e9 real quando inicia a idolatria do \u201ceu\u201d: E a idolatria do \u201ceu\u201d tem sua origem, justamente, quando o \u201ceu\u201d perde sua raz\u00e3o de ser e seu sentido de viver: o &#8220;eu&#8221; \u00e9 deslocado de &#8220;Deus&#8221;. Sem cair no simpl\u00f3rio, mas procurando ser simples, como se d\u00e1 o deslocamento do &#8220;eu&#8221; de &#8220;Deus&#8221;?<\/p>\n<p>A exist\u00eancia de &#8220;Deus&#8221; \u00e9 e sempre ser\u00e1 a exist\u00eancia do \u201ceu\u201d do ser humano: o nosso &#8220;eu&#8221; tem sua origem e seu fim em Deus. Isso, at\u00e9 fica claro, quando constatamos que a palavra \u201ceu\u201d est\u00e1 dentro da palavra \u201cDeus\u201d. Assim, a raz\u00e3o e o sentido do \u201ceu\u201d, s\u00f3 s\u00e3o reais quando ele permanece em Deus.<\/p>\n<p>Em forma did\u00e1tica, podemos assim nos expressar: Basta tirarmos da palavra &#8220;Deus&#8221; a primeira letra &#8220;d&#8221; e a \u00faltima letra &#8220;s&#8221;, ent\u00e3o sobra somente &#8220;eu&#8221;. O &#8220;eu&#8221; sem a letra &#8220;d&#8221;, ele perde a dimens\u00e3o da &#8220;doa\u00e7\u00e3o\u201d pr\u00f3pria de Deus; e sem a letra &#8220;s&#8221;, perde a dimens\u00e3o da &#8220;solidariedade\u201d pr\u00f3pria de Deus&#8221;. O eu sem doa\u00e7\u00e3o (letra &#8220;d&#8221;) e sem solidariedade (letra &#8220;s&#8221;) vira um &#8220;eu&#8221; ego\u00edsta. Cessa a obedi\u00eancia e a adora\u00e7\u00e3o a Deus e inicia a idolatria do eu.<\/p>\n<p>Por que, ent\u00e3o, arrepender-se, se meu &#8220;eu&#8221; \u00e9 idolatrado? O meu \u201ceu\u201d \u00e9 infal\u00edvel! Os outros erram, n\u00e3o eu! Por que, ent\u00e3o, arrepender-se, se o meu \u201ceu\u201d \u00e9 idolatrado? O meu \u201ceu\u201d \u00e9 perfeito e verdadeiro! Os outros mentem, n\u00e3o eu!<\/p>\n<p>Voltando ao Rabi (mestre) Aharon, \u00e9 urgente a humanidade p\u00f3s-moderna, que sempre mais idolatra o \u201ceu\u201d, novamente colocar o &#8220;eu&#8221; dentro de &#8220;Deus&#8221;. O \u201ceu\u201d tem raz\u00e3o e sentido de ser em \u201cDeus\u201d. Assim, n\u00e3o h\u00e1 nenhum motivo para a humanidade n\u00e3o ficar cheia de &#8220;remorso&#8221; pela sua condi\u00e7\u00e3o de criatura fal\u00edvel e imperfeita. Ainda \u00e9 maravilhoso ser capaz de arrepender-se!<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dom Jacinto Bergmann Arcebispo Metropolitano de Pelotas (RS) &nbsp; Arrepender-se! \u00c9 uma conduta que parece sempre mais estar em desuso. O demasiado poder com o qual a humanidade est\u00e1 se armando, torna-a praticamente infal\u00edvel e perfeita. \u00c9 a criatura se transformando em criador: &#8220;eu n\u00e3o me arrependo de nada do que sou e do que &hellip;<\/p>\n<p class=\"read-more\"> <a class=\"\" href=\"https:\/\/www.cnbb.org.br\/dom-jacinto-por-que-arrepender-se\/\"> <span class=\"screen-reader-text\">Por que arrepender-se<\/span> Leia mais &raquo;<\/a><\/p>\n","protected":false},"author":87,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":""},"categories":[1837],"tags":[],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts\/932384"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/users\/87"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/comments?post=932384"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts\/932384\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":932385,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts\/932384\/revisions\/932385"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/media?parent=932384"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/categories?post=932384"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/tags?post=932384"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}