{"id":936141,"date":"2023-01-05T13:11:54","date_gmt":"2023-01-05T16:11:54","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/?p=936141"},"modified":"2023-01-05T16:46:48","modified_gmt":"2023-01-05T19:46:48","slug":"dom-salm-3o-ano-vocacional","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/dom-salm-3o-ano-vocacional\/","title":{"rendered":"Dom Salm: \u201c3\u00ba Ano Vocacional n\u00e3o \u00e9 uma campanha, mas evangeliza\u00e7\u00e3o com o esp\u00edrito da Inicia\u00e7\u00e3o a Vida Crist\u00e3\u201d\u00a0"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">A Igreja do Brasil est\u00e1 vivendo seu terceiro Ano Vocacional. Em entrevista concedida ao padre Luiz Miguel Modino, assessor de comunica\u00e7\u00e3o do regional Norte 1 da CNBB, o bispo de Novo Hamburgo (RS) e presidente da Comiss\u00e3o para os Minist\u00e9rios Ordenados e a Vida Consagrada da CNBB, dom Jo\u00e3o Francisco Salm, faz uma reflex\u00e3o sobre o tema voca\u00e7\u00e3o e sua particular import\u00e2ncia na vida de todos os batizados.<\/span> <span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335559739&quot;:160,&quot;335559740&quot;:259}\">\u00a0 <img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-919190 alignright\" src=\"https:\/\/www.cnbb.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/Ano-Vocacional-300x159.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"159\" \/><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">O 3\u00ba Ano Vocacional, de acordo com dom Salm, n\u00e3o \u00e9 uma campanha para captar pessoas para os semin\u00e1rios e congrega\u00e7\u00f5es religiosas, mas um tempo intenso de evangeliza\u00e7\u00e3o com o esp\u00edrito da Inicia\u00e7\u00e3o a Vida Crist\u00e3 (IVC), segundo a inspira\u00e7\u00e3o catecumenal que introduz a pessoa na rela\u00e7\u00e3o com Deus, com a pessoa de Jesus e na comunidade que tamb\u00e9m \u00e9 mission\u00e1ria.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\"> Confira, a seguir, a \u00edntegra da entrevista concedida ao padre Luiz Modino:<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Por que um Ano Vocacional no Brasil?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Havia um desejo de se fazer um trabalho mais intenso no campo da Pastoral Vocacional, mas existiram tamb\u00e9m algumas coincid\u00eancias, como, por exemplo, j\u00e1 faz 40 anos desde o 1\u00ba Ano Vocacional e 20 desde o 2\u00ba. H\u00e1 uma necessidade de se fazer um bom trabalho vocacional dentro de uma vis\u00e3o de quem evangeliza realmente. N\u00e3o \u00e9 uma campanha, usando uma express\u00e3o popular, de catar gente para semin\u00e1rio e convento, mas uma evangeliza\u00e7\u00e3o que tivesse o esp\u00edrito da Inicia\u00e7\u00e3o \u00e0 Vida Crist\u00e3 (IVC), segundo a inspira\u00e7\u00e3o catecumenal que introduz a pessoa na rela\u00e7\u00e3o com Deus, com a pessoa de Jesus e na comunidade que tamb\u00e9m \u00e9 mission\u00e1ria.\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Quando se come\u00e7ou a trabalhar o Ano Vocacional, depois da aprova\u00e7\u00e3o pela CNBB, foram pedidas sugest\u00f5es de comiss\u00f5es da CNBB e de outros grupos de Igreja, e veio muito desejo de um trabalho que levasse em conta o tempo que n\u00f3s vivemos, o Conc\u00edlio II, a Confer\u00eancia de Aparecida, o magist\u00e9rio do Papa Francisco, a Igreja Sinodal, a Igreja em sa\u00edda. \u00c9 aquela compreens\u00e3o de Igreja de um momento muito atual que precisaria ser trabalhada de um ponto de vista vocacional.\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>No Congresso Vocacional de 2019, em Aparecida, dom Walmor dizia uma frase que se tornou meio lapidar:\u00a0 sem consci\u00eancia vocacional a Igreja n\u00e3o ter\u00e1 o vigor mission\u00e1rio que ela precisa ter. Num tempo em que se fala tanto da necessidade de uma Igreja mission\u00e1ria, de uma Igreja em sa\u00edda, se n\u00e3o houver consci\u00eancia vocacional n\u00e3o se tem vigor para isso. Consci\u00eancia do que \u00e9 a voca\u00e7\u00e3o, dessa rela\u00e7\u00e3o com Deus, que toma a iniciativa, Ele responde, a gente se compromete com Ele numa resposta de amor a Deus, que a gente vai descobrindo que nos ama. E a partir da\u00ed fazer da vida uma a\u00e7\u00e3o generosa e gratuita em favor dos outros, em favor da vida. As motiva\u00e7\u00f5es s\u00e3o muitas, mas est\u00e3o ligadas a esse contexto para ter um Ano Vocacional.\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O senhor insiste muito numa anima\u00e7\u00e3o vocacional que contempla todas as voca\u00e7\u00f5es, falando de n\u00e3o buscar\/catar gente para semin\u00e1rio e convento. Poder\u00edamos dizer que no subconsciente da Igreja a voca\u00e7\u00e3o ainda \u00e9 vista como esse &#8220;catar gente&#8221; para o semin\u00e1rio e o convento?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Sim, est\u00e1 muito, muito presente. Por isso esse \u00e9 um ponto em que n\u00f3s insistimos muito nas nossas reuni\u00f5es de prepara\u00e7\u00e3o do Ano Vocacional, que realmente abord\u00e1ssemos o tema voca\u00e7\u00e3o em seu sentido mais amplo poss\u00edvel, a voca\u00e7\u00e3o enquanto resposta a uma iniciativa de Deus. Eu gosto de lembrar isso para mim e digo que s\u00f3 o fato de a gente existir, mesmo sem ter consci\u00eancia disso, a gente \u00e9 uma resposta a uma iniciativa de Deus, que est\u00e1 antes de tudo.\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00c9 bonita aquela passagem de S\u00e3o Paulo que diz que desde antes do mundo ser criado e fundado, Deus nos escolheu para sermos santos. A iniciativa de Deus em nos criar e o fato de virmos \u00e0 exist\u00eancia, j\u00e1 \u00e9 uma resposta. Quando a gente toma consci\u00eancia aos poucos, pela f\u00e9, de quem \u00e9 Deus e do seu amor, a gente responde com amor. Essa iniciativa de Deus em busca de di\u00e1logo com o ser humano vai se completando e, na medida em que a gente responde a Ele amando, se traduz tamb\u00e9m em a\u00e7\u00f5es concretas, em dar a vida, em ir a campo, \u00e0 luta, ser mission\u00e1rio, engajar-se nas v\u00e1rias atividades que se apresentam. Nisto se completa aquilo que \u00e9 o di\u00e1logo vocacional.\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Na verdade, voca\u00e7\u00e3o \u00e9 uma tens\u00e3o dial\u00e9tica entre Deus que toma a iniciativa e a gente que vai respondendo. Disse o Documento Final do S\u00ednodo sobre a Juventude que \u00e9 o entrela\u00e7amento da iniciativa de Deus e da liberdade humana. Tem um te\u00f3logo oriental que diz que ter f\u00e9 \u00e9 saber ser amado e responder ao amor amando. Ent\u00e3o voca\u00e7\u00e3o \u00e9 descobrir-se chamado, amado, e ir respondendo tamb\u00e9m. No casal, quando um descobre que \u00e9 amado pelo outro come\u00e7a a responder tamb\u00e9m com amor, e a\u00ed se estabelece uma comunh\u00e3o entre eles. \u00c9 muito parecido na nossa rela\u00e7\u00e3o com Deus.\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como isso vai se concretizando no processo vocacional e como pode ser aprofundado durante o Ano Vocacional?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Esse \u00e9 um processo, uma catequese, uma evangeliza\u00e7\u00e3o que tem que ser feita. Quando n\u00f3s diz\u00edamos na prepara\u00e7\u00e3o que n\u00f3s quer\u00edamos abordar a voca\u00e7\u00e3o em um sentido amplo, n\u00e3o \u00e9 para n\u00e3o falar das voca\u00e7\u00f5es espec\u00edficas, muito pelo contr\u00e1rio, \u00e9 para entender melhor a identidade de cada voca\u00e7\u00e3o. \u00c9 muito mais interessante saber o que s\u00e3o as notas da escala musical sabendo da escala musical para poder entender o tom de cada nota do que simplesmente falar de cada uma. Essa voca\u00e7\u00e3o fundamental que \u00e9 a resposta \u00e0 exist\u00eancia, a resposta ao amor de Deus, vai se explicitando, vai se particularizando, se individualizando e se personalizando em cada pessoa.\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Da minha parte come\u00e7o entender que eu n\u00e3o sou \u00fanico, existem outros que tamb\u00e9m respondem, cada um do seu jeito. O Papa dizia que toda a vida \u00e9 voca\u00e7\u00e3o, a exist\u00eancia \u00e9 voca\u00e7\u00e3o, cada um \u00e9 \u00fanico, n\u00e3o se repete, mas existem semelhan\u00e7as. A gente fala das voca\u00e7\u00f5es leigas, tem muitas formas dos leigos responderem ao amor de Deus concretamente, na sua vida pessoal, na fam\u00edlia, junto aos vizinhos, na comunidade, na sociedade, na pol\u00edtica, sendo fermento, sal e luz.\u00a0\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Existe tamb\u00e9m a Vida Consagrada, com uma variedade t\u00e3o grande de formas, mas fundamentalmente s\u00e3o pessoas que descobriram que o amor de Deus basta e passam a doar-se totalmente. Por isso, os votos n\u00e3o s\u00e3o restri\u00e7\u00e3o de algumas liberdades, direito de se autodeterminar, direito de possuir alguma coisa, direito de ter afetos humanos, \u00e9 dizer que eu acredito tanto no amor de Deus por mim que eu abro m\u00e3o de tudo e me fa\u00e7o inteiramente como doa\u00e7\u00e3o para os outros. E os ministros ordenados, que devem ter esse esp\u00edrito tamb\u00e9m.\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Cada voca\u00e7\u00e3o, ela tem que ser valorizada, identificada, por cada pessoa. Eu s\u00f3 me entendo, me descubro na minha identidade diante de outras identidades. Quanto mais eu entendo das outras voca\u00e7\u00f5es, mais eu vou entender a minha. A identidade de cada voca\u00e7\u00e3o, ela fica mais clara quando a gente tem clareza da pr\u00f3pria, quanto visibiliza as outras mais entende a pr\u00f3pria voca\u00e7\u00e3o. \u00c9 um trabalho a ser feito de come\u00e7ar de novo a entender que a voca\u00e7\u00e3o, ela n\u00e3o surge mais dentro de uma cristandade, um ambiente favor\u00e1vel em que se apresentam todas as coisas bonitas de cada voca\u00e7\u00e3o e a\u00ed vai surgindo. Se n\u00e3o houver na base cada voca\u00e7\u00e3o, encontro com Jesus, a coisa n\u00e3o acontece.\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Bento XVI disse em Aparecida que tudo come\u00e7a a partir da experi\u00eancia de um encontro, que \u00e9 um ato de f\u00e9 diante de algu\u00e9m que impacta \u00e0 gente, e a partir da\u00ed as coisas come\u00e7am a se deduzir. Se n\u00e3o houver essa experi\u00eancia pessoal, tudo fica ligado a gostos, a fazer coisas que o padre faz, que a irm\u00e3 faz, que se fazem no casamento. E a voca\u00e7\u00e3o \u00e9 mais fundamental, bem antes disso, e vai dar um colorido a todas essas coisas que a gente come\u00e7a a fazer em fun\u00e7\u00e3o daquela voca\u00e7\u00e3o espec\u00edfica que a gente abra\u00e7a.\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Nessa universalidade das voca\u00e7\u00f5es, nessa voca\u00e7\u00e3o vista a partir de um todo, poder\u00edamos dizer que est\u00e1 nos conduzindo a uma Igreja sinodal. Como entender a voca\u00e7\u00e3o em vista da sinodalidade?\u00a0<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>N\u00e3o d\u00e1 para ser crist\u00e3o sem viver a comunh\u00e3o, a unidade. A sinodalidade \u00e9 comunh\u00e3o, \u00e9 uni\u00e3o, a qualquer pre\u00e7o, e isso por um compromisso com Deus, uma disciplina. \u00c9 uma espiritualidade, um modo de pensar, de ser, de agir, que n\u00e3o elimina o debate, uma dial\u00e9tica. Mas isso sempre num caminho que n\u00e3o promove divis\u00e3o. Hoje temos muitas pessoas que discordam e at\u00e9 se apresentam com bastante eloqu\u00eancia e acabam convencendo, mas acabam dividindo, e a\u00ed tem um tent\u00e1culo de algo que n\u00e3o \u00e9 bom.\u00a0\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>As voca\u00e7\u00f5es precisam ser entendidas antes de tudo como uma rela\u00e7\u00e3o pessoal com Deus, que se revelou em Jesus Cristo e tem a for\u00e7a do Esp\u00edrito Santo, e que nos pede que vivamos juntos como Igreja, como povo, como assembleia daqueles que Deus convocou. Convocados por Deus todos participamos de uma mesma Igreja e aqui n\u00f3s nos ajudamos, n\u00f3s podemos at\u00e9 divergir no modo de pensar, mas enquanto viv\u00eancia do Evangelho, exerc\u00edcio do amor, da fraternidade, isso deve estar acima de qualquer pre\u00e7o.\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>A sinodalidade ela \u00e9 muito grande. Quando o Papa veio com a proposta desse tema do S\u00ednodo surgiram muitas reflex\u00f5es sobre isso. Ele foi iluminando muito bem o que ele entendia por isso. Exerc\u00edcio da escuta n\u00e3o \u00e9 coisa simples, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 ouvir para matar a curiosidade em rela\u00e7\u00e3o ao que o outro pensa, \u00e9, muito mais, um exerc\u00edcio, como ele dizia, de ouvir tanto o outro a ponto, de ouvir o que Deus tem a dizer. Ou procurar ouvir a Deus com tanta sinceridade que realmente come\u00e7a a compreender o que se passa com o outro.\u00a0\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00c9 uma coisa grande, mas exige da gente humildade, f\u00e9, coragem, lucidez, uma espiritualidade saud\u00e1vel, verdadeira, uma abertura para o mundo, para a vida. Voca\u00e7\u00e3o numa Igreja sinodal \u00e9 antes de tudo comunh\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 para eu ter o meu lugar s\u00f3, e eu ter os meus direitos, \u00e9 uma doa\u00e7\u00e3o dentro de uma comunidade de vida. Pode ser uma pequena comunidade a partir da fam\u00edlia, comunidade religiosa, mas tamb\u00e9m comunidade de f\u00e9, de Igreja, junto com os irm\u00e3os e irm\u00e3s na f\u00e9.\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O tema do Ano Vocacional \u00e9 \u201cVoca\u00e7\u00e3o, Gra\u00e7a e Miss\u00e3o\u201d. Existe o perigo de ver a voca\u00e7\u00e3o como uma gra\u00e7a pessoal que recebemos de Deus e deixar de lado tamb\u00e9m um chamado a assumir uma miss\u00e3o na Igreja?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Em rela\u00e7\u00e3o a tudo, tamb\u00e9m em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s coisas da f\u00e9, existe sempre o risco de uma compreens\u00e3o limitada, reducionista ou individualista das coisas, esse \u00e9 um risco que todos corremos. Quando se diz que a voca\u00e7\u00e3o \u00e9 gra\u00e7a, n\u00e3o d\u00e1 para v\u00ea-la fora de algo que tem a ver com uma iniciativa de Deus para todos n\u00f3s, tudo \u00e9 gra\u00e7a, tudo \u00e9 iniciativa de Deus em rela\u00e7\u00e3o a n\u00f3s, dele recebemos tudo. Chegar ao ponto de poder entender que \u00e9 um dom, mas n\u00e3o \u00e9 um dom porque eu sou um privilegiado, porque eu sou algu\u00e9m colocado para ser algu\u00e9m com m\u00e9ritos pessoais.\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Quando se entende que \u00e9 dom, que \u00e9 gra\u00e7a, \u00e9 para si, mas \u00e9 para a Igreja tamb\u00e9m, para todos, como os carismas. Os carismas s\u00e3o um dom para a pr\u00f3pria pessoa, mas s\u00e3o na pessoa um dom para os demais, tudo na pessoa \u00e9 um dom para os demais. A gente n\u00e3o pode viver fechado sobre si mesmo. Essa auto referencialidade que o Papa fala n\u00e3o \u00e9 a nossa identidade, n\u00e3o \u00e9 da nossa natureza humana e crist\u00e3, dentro daquilo que \u00e9 o projeto de Deus respeito \u00e0 pessoa humana, somos a imagem e semelhan\u00e7a de Deus, que \u00e9 comunidade, que um \u00e9 para o outro, se fechar sobre si n\u00e3o d\u00e1.\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>H\u00e1 um risco de achar que voca\u00e7\u00e3o \u00e9 uma coisa que eu senti dentro de mim e pronto. Porque existe esse risco tamb\u00e9m, existe a necessidade do discernimento da voca\u00e7\u00e3o, tem que ter um acompanhamento vocacional, uma boa dire\u00e7\u00e3o espiritual, a pessoa se instruir, a comunidade vai ajudando a pessoa a sentir-se confirmada naquilo, a Igreja, as pessoas que acompanham em nome da Igreja, d\u00e3o seu parecer tamb\u00e9m. Mas o risco de se sentir algu\u00e9m especial, um profeta, sempre existe. Quando mais vaidade humana, maior o risco. Tem que ser com muita ora\u00e7\u00e3o, com retiros, com trabalho concreto de abrir-se aos outros, \u00e0 necessidade dos outros, ir discernindo, \u00e9 um caminho, um processo, descobrir realmente o que Deus quer da gente.\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><strong>Em rela\u00e7\u00e3o ao lema \u201cCora\u00e7\u00f5es ardentes, p\u00e9s a caminho\u201d. O que quer ser transmitido com esse chamado?\u00a0<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>O lema tem algo de especial quando se fala da voca\u00e7\u00e3o como encontro com Jesus. Esse \u201ccora\u00e7\u00f5es ardentes\u201d aparece muito na experi\u00eancia dos disc\u00edpulos de Ema\u00fas. Os disc\u00edpulos de Ema\u00fas diziam: \u201cn\u00e3o ardia o nosso cora\u00e7\u00e3o quando ele nos falava?\u201d Essa experi\u00eancia na ora\u00e7\u00e3o, na f\u00e9, tamb\u00e9m com uma espiritualidade aut\u00eantica, leva ao encontro com Ele. E nesse encontro \u00e9 que as pessoas come\u00e7am a sentir dentro de si algo que estimula a se p\u00f4r a caminho. Ela parte em miss\u00e3o, para o trabalho junto aos outros e d\u00e1 a vida pelos outros.\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>A partir disso que a pessoa vai tendo um outro olhar para superar aquilo que o Papa chama de indiferen\u00e7a. Quando a pessoa se torna mais sens\u00edvel, a partir desse encontro com Jesus, a gente come\u00e7a a ver com outros olhos, a gente se compadece mais facilmente. Como dizia S\u00e3o Paulo: \u201cai de mim se n\u00e3o evangelizar\u201d. Eu estou vendo agora, eu preciso fazer alguma coisa.\u00a0\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>O tema \u201cCora\u00e7\u00f5es ardentes, p\u00e9s a caminho\u201d, mostra muito o dinamismo que h\u00e1 dentro da voca\u00e7\u00e3o. Voca\u00e7\u00e3o s\u00f3 \u00e9 uma palavra, um conceito, mas voca\u00e7\u00e3o enquanto pessoa que est\u00e1 em di\u00e1logo com Deus tem um dinamismo muito grande, h\u00e1 uma dial\u00e9tica de algo que desperta um sonho, que faz perceber uma realidade, que se d\u00e1 conta da iniciativa de Deus, da f\u00e9, mas ao mesmo tempo sente que h\u00e1 uma necessidade de responder a tudo isso, com suas limita\u00e7\u00f5es e qualidades. Esse lema \u00e9 muito feliz, ele ajuda a tudo isso, e serve para todas as voca\u00e7\u00f5es, cada pessoa em sua realidade concreta, isso \u00e9 importante.\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O grande objetivo geral deste Ano Vocacional \u00e9 promover uma cultura vocacional nas comunidades eclesiais. Como concretizar isso?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Cultura \u00e9 uma palavra que nem sempre \u00e9 t\u00e3o popular, apesar de significar tudo o que \u00e9 do povo, o que \u00e9 da nossa vida, o modo de pensar, de ser, de agir, de se relacionar, como se vive na comunidade a f\u00e9, nas nossas catequeses, os movimentos, as pastorais, que haja ali um clima favor\u00e1vel a esse encontro com Deus, a essa compreens\u00e3o de olhar o mundo ao redor, de responder aos desafios que existem, olhar o pobre, o necessitado, olhar esses ambientes de pessoas de onde sobe um clamor que Deus ouve e aqui Ele responde enviando pessoas que se sensibilizam e se p\u00f5e a caminho.\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Isso \u00e9 muito bonito quando se come\u00e7a a compreender que n\u00e3o \u00e9 que Deus pega algu\u00e9m pelo cangote, pelo colarinho, e puxa para c\u00e1 e para l\u00e1. Deus nos predisp\u00f5e com sua gra\u00e7a, uma predisposi\u00e7\u00e3o que Ele cria dentro da gente. Se a gente come\u00e7a a perceber que Deus nos fez capazes de amar, capazes de dar a vida, e Ele nos deu intelig\u00eancia de verdade, age atrav\u00e9s desses dons que nos concedeu, para a gente poder usar a pr\u00f3pria liberdade e a gente ir tomando iniciativas, dando respostas a partir da vontade da gente.\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>A voca\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 um fatalismo, n\u00e3o \u00e9 uma coisa predeterminada, que est\u00e1 escrito nas estrelas, que \u00e9 um escrito de teatro, porque o di\u00e1logo vocacional respeita sempre a liberdade humana. Essa compreens\u00e3o de voca\u00e7\u00e3o assim vai ajudando a gente a sentir-se mais digno, mais correspons\u00e1vel com Deus e colaboradores com Ele.\u00a0\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Ele opera nossa vida, mas n\u00f3s tamb\u00e9m operamos a nossa parte. Ele sabe que tudo depende dele, mas Ele nos deu intelig\u00eancia de verdade para se colocar \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o. Jesus diz: \u201cse tu queres, e a gente tamb\u00e9m tem que querer\u201d. Essa tem\u00e1tica vocacional \u00e9 muito bonita, biblicamente, antropologicamente e de f\u00e9 profunda. A mim me ajuda muito em minha vida pessoal compreender assim essas coisas, cada vez mais, pois a gente sabe t\u00e3o pouco. Mas isso me ajuda demais quando come\u00e7o a pensar esse lado da f\u00e9 vivida assim, nessa rela\u00e7\u00e3o com Deus, que me ajuda a ver o mundo ao meu redor e me d\u00e1 for\u00e7as de inspira\u00e7\u00e3o para me colocar a caminho.\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O que o senhor espera que o Ano Vocacional aporte \u00e0 Igreja do Brasil?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Eu espero que de fato essa compreens\u00e3o bonita, grande, ampla de voca\u00e7\u00e3o e das voca\u00e7\u00f5es espec\u00edficas, isso se torne cada vez mais claro para todos, na fam\u00edlia, na comunidade, nas pastorais, nos movimentos, na catequese, em todos os espa\u00e7os onde se formam e se forjam crist\u00e3os. Que isso se torne uma coisa cada vez mais clara, consciente de que a minha vida \u00e9 uma resposta \u00e0 uma iniciativa de Deus. Quanto mais se fizer essa explica\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o s\u00f3 a explica\u00e7\u00e3o, pois o fato de entender n\u00e3o resolve ainda, seja feito dentro de um olhar mistag\u00f3gico, que realmente leve ao encontro com Deus.\u00a0\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Que a pessoa fa\u00e7a seu ato de f\u00e9, e que nesse ato de f\u00e9 ela consiga dar sua resposta generosa e uma forma concreta de amar, j\u00e1 que a voca\u00e7\u00e3o de todos n\u00f3s \u00e9 amar, um amor que se concretiza em cada vida particular, em cada pessoa. Quanto mais a pessoa vai amadurecendo e vai fazendo da sua vida uma oferta aos outros, mais ela consegue ser uma presen\u00e7a luminosa no meio dos outros, o fermento que Jesus nos pede. N\u00f3s vamos dar grandes passos em rela\u00e7\u00e3o a isso, os tempos de hoje exigem isso para ter uma identidade crist\u00e3 e cat\u00f3lica, e acho que vamos dar muitos passos.\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\"><em>Tenho notado que h\u00e1 muitos grupos animados nas dioceses, nas par\u00f3quias, nas congrega\u00e7\u00f5es. Houve uma acolhida muito grande dessa proposta do Ano Vocacional e o pessoal est\u00e1 correspondendo bastante. \u00c9 um momento de gra\u00e7a realmente, os frutos s\u00f3 Deus sabe, mas eles v\u00e3o aparec<\/em>er.\u00a0<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335559739&quot;:160,&quot;335559740&quot;:259}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<pre>Foto de capa: Santu\u00e1rio Nacional<\/pre>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em entrevista concedida ao padre Luiz Miguel Modino, assessor de comunica\u00e7\u00e3o do regional Norte 1 da CNBB, o bispo de Novo Hamburgo (RS) e presidente da Comiss\u00e3o para os Minist\u00e9rios Ordenados e a Vida Consagrada da CNBB, dom Jo\u00e3o Francisco Salm, faz uma reflex\u00e3o sobre o tema voca\u00e7\u00e3o e sua particular import\u00e2ncia na vida de todos os batizados<\/p>\n","protected":false},"author":141,"featured_media":936144,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":""},"categories":[50,807],"tags":[4624,4771],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts\/936141"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/users\/141"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/comments?post=936141"}],"version-history":[{"count":22,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts\/936141\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":936169,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts\/936141\/revisions\/936169"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/media\/936144"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/media?parent=936141"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/categories?post=936141"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/tags?post=936141"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}