{"id":952534,"date":"2023-09-22T13:48:20","date_gmt":"2023-09-22T16:48:20","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/?p=952534"},"modified":"2023-09-22T13:49:04","modified_gmt":"2023-09-22T16:49:04","slug":"desligar-se-de-deus","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/desligar-se-de-deus\/","title":{"rendered":"Desligar-se de Deus"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><strong>Dom Jacinto Bergmann<\/strong><br \/>\n<strong>Arcebispo Metropolitano da Igreja Cat\u00f3lica de Pelotas<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Conhecemos a refinada par\u00e1bola do &#8220;Filho pr\u00f3digo&#8221;, contada pelo mestre de Nazar\u00e9 e que se encontra descrita no Evangelho de Lucas. O filho mais novo sai de casa para viver &#8220;sua vida&#8221;. E nessa vida, &#8220;gastou tudo, vivendo dissolutamente &#8220;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que esse &#8220;desligar-se\u201d do filho mais novo para viver &#8220;sua vida&#8221;, tem a ver, analogicamente, com a religi\u00e3o? Religi\u00e3o, etimologicamente, vem do latim &#8220;re-ligare&#8221;, isto \u00e9, ligar-se continuamente. Desligar-se \u00e9, pois, ruptura. A humanidade de hoje ainda tem a conduta do &#8220;religar-se&#8221; a Deus? Ou realmente \u00e9 hora definitiva do \u201cdesligar-se\u201d de Deus?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O primeiro momento do &#8220;desligar-se&#8221; de Deus d\u00e1 uma sensa\u00e7\u00e3o de independ\u00eancia, de sentir-se livre de um peso insuport\u00e1vel. \u00c9 a experi\u00eancia da &#8220;liberdade de&#8221;. Quanto \u00e0 &#8220;liberdade para&#8221;, ela \u00e9 sentida, de imediato, como abertura promissora \u00e0 vida em todas as suas possibilidades. Liberto da obedi\u00eancia ao pai, o filho agora se cr\u00ea senhor de si. E sonha com todas as aventuras. Sua liberdade n\u00e3o aparece apenas como meio, mas como &#8220;valor valorante&#8221;, ou seja, como &#8220;fim e fonte de valor&#8221;. Da mesma maneira, para o assim chamado &#8220;homem moderno&#8221;, o &#8220;desligar-se\u201d do Deus vivo, n\u00e3o deixou, no seu imediato, um senso de vazio, pois, no altar do &#8220;velho Deus&#8221;, agora foi colocado o pr\u00f3prio &#8220;homem&#8221; e seu poder. Agora o &#8220;eu&#8221; \u00e9 o novo \u201cd-eu-s&#8221;: \u00e9 o antropocentrismo; e o &#8220;mundo&#8221; \u00e9 seu reino: \u00e9 o secularismo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que est\u00e1 na raiz dessa deriva autodivinizadora? \u00c9 a hybris grega, a vontade de pot\u00eancia, que a Sagrada Escritura chama de &#8220;soberba&#8221;. Realmente, seu efeito prim\u00e1rio \u00e9 o &#8220;desligar-se&#8221; de Deus, como diz o livro sagrado do Eclesi\u00e1stico: &#8220;Desligar-se de Deus \u00e9 o princ\u00edpio da soberba&#8221;. Em seguida, a soberba faz com que o &#8220;homem se estime [&#8230;] como deus de si mesmo, isto \u00e9, como se fosse o primeiro princ\u00edpio e o \u00faltimo fim de si mesmo&#8221;, nas palavras de Bossuet. A &#8220;modernidade triunfante&#8221; desfraldou, como o Arcanjo rebelde, a bandeira do non serviam: &#8220;Quebraste o jugo, rompeste os la\u00e7os e disseste: &#8216;N\u00e3o servirei\u2019&#8221; &#8211; escreve o profeta Jeremias. Esse foi tamb\u00e9m o pecado original da humanidade: pretender ser &#8220;como deuses, conhecedores do bem e do mal&#8221;, segundo est\u00e1 escrito no livro sagrado do G\u00eanesis. &#8220;Conhecer o bem e o mal&#8221; aqui n\u00e3o \u00e9 simples &#8220;saber&#8221;, mas &#8220;determinar&#8221; o que \u00e9 bem e o que \u00e9 mal para si. \u00c9 decidir por pr\u00f3pria conta e for\u00e7a, independentemente de Deus, como pr\u00f3prio deus, qual \u00e9 o sentido da vida, ou seja, onde est\u00e1 a felicidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa \u00e9 a ambi\u00e7\u00e3o desmedida do homem de todos os tempos. Tal ambi\u00e7\u00e3o se encarnou na hist\u00f3ria na forma de v\u00e1rias tiranias autodivinizadas. Com a \u201cmodernidade\u201d, por\u00e9m, tal tenta\u00e7\u00e3o ganhou dimens\u00f5es sociais e mesmo civilizacionais. O homem &#8220;moderno&#8221; quer fazer sua vida por si mesmo, sem se submeter a nenhum princ\u00edpio externo, muito menos \u00e0 lei divina. O ideal social do chamado \u201chomem moderno&#8221; \u00e9 o do homem &#8220;emancipado&#8221; &#8211; &#8220;desligado&#8221;, completamente &#8220;aut\u00f4nomo&#8221;, que n\u00e3o precisa mais de Deus, porque ele \u00e9 deus de si mesmo. \u00c9 o novo absoluto, desligado literalmente (solutus) de (ab) qualquer transcend\u00eancia, menos talvez, por ironia, da &#8220;transcend\u00eancia social&#8221;, exaltada por Durkheim.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De fato, a autodiviniza\u00e7\u00e3o do homem teve recentemente seus fil\u00f3sofos modernos defensores: Feuerbach, Hegel, Stirner, Marx, s\u00f3 para citar alguns. Veio finalmente Nietzsche, anunciando o &#8220;super-homem\u201d nascido das cinzas do velho Deus e cujas ambi\u00e7\u00f5es pessoais de autoendeusamento alcan\u00e7aram propor\u00e7\u00f5es paranoicas. Mesmo j\u00e1 vivendo na p\u00f3s-modernidade, esse prato \u00e9 recozido e sempre de novo apresentado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que \u00e9 certo: O \u201cdesligar-se&#8221; do filho novo da par\u00e1bola b\u00edblica, levou-o, mais cedo mais tarde, de volta ao pai. Somente, ele de novo &#8220;ligado&#8221; houve festa!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dom Jacinto Bergmann Arcebispo Metropolitano da Igreja Cat\u00f3lica de Pelotas Conhecemos a refinada par\u00e1bola do &#8220;Filho pr\u00f3digo&#8221;, contada pelo mestre de Nazar\u00e9 e que se encontra descrita no Evangelho de Lucas. O filho mais novo sai de casa para viver &#8220;sua vida&#8221;. E nessa vida, &#8220;gastou tudo, vivendo dissolutamente &#8220;. 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