{"id":952916,"date":"2023-10-02T07:01:57","date_gmt":"2023-10-02T10:01:57","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/?p=952916"},"modified":"2023-09-29T17:07:01","modified_gmt":"2023-09-29T20:07:01","slug":"paciencia-aprender-a-respirar-melhor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/paciencia-aprender-a-respirar-melhor\/","title":{"rendered":"Paci\u00eancia: aprender a respirar melhor"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><strong>Dom Jacinto Bergmann<\/strong><br \/>\n<strong>Arcebispo de Pelotas (RS)<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Conta-se: Buda e seus disc\u00edpulos decidiram empreender uma jornada durante a qual atravessariam v\u00e1rios territ\u00f3rios e cidades. Um dia, no qual o sol brilhava com todo o seu esplendor, viram ao longe um lago e pararam para matar a sede. Na chegada, Buda se dirigiu ao seu disc\u00edpulo mais jovem e impaciente: \u2013 \u201cTenho sede. Voc\u00ea pode me trazer um pouco de \u00e1gua daquele lago?\u201d O disc\u00edpulo foi at\u00e9 o lago, mas quando chegou percebeu que um carro de bois come\u00e7ou a atravess\u00e1-lo e a \u00e1gua, pouco a pouco, ficou turva. Ap\u00f3s esta situa\u00e7\u00e3o, o disc\u00edpulo pensou: \u201cN\u00e3o posso dar ao mestre esta \u00e1gua barrenta para beber\u201d. Ent\u00e3o ele voltou e disse a Buda: \u2013 \u201cA \u00e1gua est\u00e1 muito lamacenta. N\u00e3o acho que podemos beb\u00ea-la\u201d. Buda n\u00e3o respondeu, mas tamb\u00e9m n\u00e3o fez nenhum movimento. Depois de um tempo, ele pediu ao disc\u00edpulo para retornar ao lago e trazer \u00e1gua para ele. Este, como n\u00e3o queria desafiar seu mestre, foi at\u00e9 o lago; \u00e9 claro que ficou furioso, pois n\u00e3o entendia por que tinha que voltar se a \u00e1gua estava lamacenta e n\u00e3o podia ser tomada. Ao chegar, ele observou que a \u00e1gua mudou de apar\u00eancia, parecia boa e estava cristalina. Ent\u00e3o, ele pegou um pouco e a levou para Buda. Ele olhou para a \u00e1gua e disse ao seu disc\u00edpulo: \u2013 \u201cO que voc\u00ea fez para limpar a \u00e1gua?\u201d O disc\u00edpulo n\u00e3o entendeu a pergunta, ele n\u00e3o tinha feito nada. Ent\u00e3o, Buda olhou para ele e explicou: \u2013 \u201cVoc\u00ea esperou e a deixou parada. Desta forma, a lama se assentou sozinha e voc\u00ea teve \u00e1gua limpa. N\u00e3o seja impaciente. Pelo contr\u00e1rio, seja paciente\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Parece que apenas sabemos medir o tempo pelo rel\u00f3gio e pensando que n\u00e3o temos tempo a perder. O tempo do rel\u00f3gio \u00e9 regulado por uma m\u00e1quina. \u00c9 neutro e inodoro, isento e uniforme, corre inalter\u00e1vel, dirige-se sempre para frente, indiferente \u00e0s inger\u00eancias do presente e do passado. O tempo do rel\u00f3gio \u00e9 descomplicado e cont\u00ednuo, capaz de estabelecer, a qualquer pre\u00e7o, a sua progressividade. \u00c9 um tempo sem v\u00ednculos que estabilizam, sem sentimentos que atrasam, sem ra\u00edzes que maturam. O pensador e poeta portugu\u00eas, Jos\u00e9 Tolentino Mendon\u00e7a, afirma: \u201cO tempo do rel\u00f3gio n\u00e3o \u00e9 exatamente um tempo humano\u201d. Mesmo assim, fazemos do triunfo do tempo do rel\u00f3gio uma esp\u00e9cie de interdito civilizacional.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O exerc\u00edcio da paci\u00eancia come\u00e7a pela aceita\u00e7\u00e3o esperan\u00e7osa da vida. Ela nos coloca face a face com a vulnerabilidade, tanto a pr\u00f3pria quanto a dos outros. Sentimo-nos, ainda, distantes das nossas metas, n\u00e3o gostamos de tudo o que encontramos em n\u00f3s e \u00e0 nossa volta, percebemos que h\u00e1 um trabalho de transforma\u00e7\u00e3o que deve prosseguir ou mesmo ser intensificado. N\u00e3o se deve confundir paci\u00eancia com indecis\u00e3o, passividade, escassa coragem e \u00e2nimo empreendedor. Pelo contr\u00e1rio: paci\u00eancia \u00e9, sim, aud\u00e1cia de n\u00e3o se deixar instrumentalizar pela precipita\u00e7\u00e3o ou se bloquear pelo temor. Paci\u00eancia, sim, \u00e9 investir ativamente o nosso tempo na gest\u00e3o das express\u00f5es complexas e inesperadas da vida, mas fazendo-o com sabedoria, serenidade e atitude construtiva. J\u00e1, um dos maiores pensadores de todos os tempos, o santo Tom\u00e1s de Aquino, explicando a paci\u00eancia, dizia que &#8220;ela \u00e9 a capacidade de n\u00e3o desesperar&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O agricultor n\u00e3o escava desesperado a terra atr\u00e1s da semente que ali deixou, mas aparta-se dela sabendo que h\u00e1 um tempo necess\u00e1rio de separa\u00e7\u00e3o para que a semente, no seu ritmo, possa crescer e frutificar. A paci\u00eancia \u00e9 aten\u00e7\u00e3o \u00e0 singularidade e \u00e0 oportunidade de cada tempo, plenamente conscientes de que a exist\u00eancia se constr\u00f3i com realidades muito diversas: situa\u00e7\u00f5es de proveni\u00eancia diversa, mem\u00f3rias heterog\u00eaneas, fragmentos disto e daquilo, caligrafias inesquec\u00edveis, pegadas que prosseguem lado a lado mesmo visivelmente desiguais. A nossa unidade pessoal, a nossa comunh\u00e3o com os outros e a nossa rela\u00e7\u00e3o com Deus s\u00f3 se realizam no encontro inesperado do diverso: por uma via demorada de escuta, de disponibilidade, de efetivo reconhecimento, de partilha e, por fim, de encontro. A maior parte do tempo habitamos o inacabado. A paci\u00eancia, ent\u00e3o, \u00e9 a arte de acolher o inacabado e, a partir dele, partir para uma a\u00e7\u00e3o incessante de ressignifica\u00e7\u00e3o &#8211; um trabalho de reconcilia\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Giacomo Leopardi, escritor italiano, lembrou, de forma um pouco ir\u00f4nica, que &#8220;a paci\u00eancia \u00e9 a mais heroica das virtudes, precisamente por n\u00e3o possuir aparentemente nada de heroico&#8221;. Nessa linha, o pr\u00f3prio termo grego para paci\u00eancia, makrothymia, descreve fundamentalmente &#8220;um modo de respirar&#8221;. Assim, a paci\u00eancia \u00e9 respira\u00e7\u00e3o longa, distendida e aberta, bem ao contr\u00e1rio do nosso respirar ofegante e f\u00e9rreo. Talvez tudo o que tenhamos que aprender a fazer, seja isto: respirar melhor.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dom Jacinto Bergmann Arcebispo de Pelotas (RS) Conta-se: Buda e seus disc\u00edpulos decidiram empreender uma jornada durante a qual atravessariam v\u00e1rios territ\u00f3rios e cidades. Um dia, no qual o sol brilhava com todo o seu esplendor, viram ao longe um lago e pararam para matar a sede. 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