{"id":953801,"date":"2023-10-19T13:41:21","date_gmt":"2023-10-19T16:41:21","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/?p=953801"},"modified":"2023-10-19T13:41:49","modified_gmt":"2023-10-19T16:41:49","slug":"a-heranca-moderna-um-mundo-sem-deus","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/a-heranca-moderna-um-mundo-sem-deus\/","title":{"rendered":"A heran\u00e7a moderna: \u201cum mundo sem Deus\u201d"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><strong>Dom Jacinto Bergmann<\/strong><br \/>\n<strong>Arcebispo de Pelotas (RS)<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">Entramos de cheio na p\u00f3s-modernidade (momento emblem\u00e1tico dessa entrada \u00e9 a p\u00f3s-pandemia) sendo desafiados a avaliar o gigantesco projeto da modernidade extremizada: o de construir um &#8220;mundo sem Deus&#8221;. Certo, essa foi e \u00e9 a tenta\u00e7\u00e3o permanente do g\u00eanero humano, desde o <\/span><i><span data-contrast=\"auto\">hadam<\/span><\/i><span data-contrast=\"auto\"> e a <\/span><i><span data-contrast=\"auto\">hayyah<\/span><\/i><span data-contrast=\"auto\"> b\u00edblicos, que pretenderam ser &#8220;como deuses&#8221;, isto \u00e9, se realizarem fora de Deus e contra Deus (cf. Gn 3,5). S\u00f3 que, nesse ponto, a modernidade mostrou duas diferen\u00e7as: primeira, o ser &#8220;como Deus&#8221; j\u00e1 n\u00e3o era para ela &#8220;tenta\u00e7\u00e3o do proibido comer da \u00e1rvore&#8221;, mas, ao contr\u00e1rio: era um projeto entusi\u00e1stico e mesmo imperativo deliberado; segunda, esse projeto ideal n\u00e3o tinha apenas uma dimens\u00e3o individual, mas societ\u00e1ria: \u00e9 toda a civiliza\u00e7\u00e3o que buscava se organizar sem Deus.\u00a0<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559739&quot;:160,&quot;335559740&quot;:259}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">Esse projeto se materializou, em parte, na constru\u00e7\u00e3o, durante o s\u00e9culo XX e in\u00edcio do XXI, das sociedades mais de cunho &#8220;comum laicista&#8221; de um lado, como de cunho &#8220;liberal laicista&#8221; do outro lado. Mas o que significou esse projeto, urdido pela modernidade laicista, de criar um &#8220;mundo sem Deus&#8221;? Foi um ideal totalit\u00e1rio, absolutamente in\u00e9dito na hist\u00f3ria. Pois at\u00e9 ent\u00e3o, todas as civiliza\u00e7\u00f5es haviam sido centralmente ou, pelo menos, fundamentalmente religiosas. A que a modernidade criaria seria finalmente uma sociedade secularista, ou seja, ateia.<\/span><span data-contrast=\"auto\"> Esse sonho, antes nunca sonhado, encontrou em Nietzsche seu maior profeta, enquanto conferiu um <\/span><i><span data-contrast=\"auto\">pathos<\/span><\/i><span data-contrast=\"auto\"> \u00e9pico extremamente poderoso e ao mesmo tempo jubiloso. Efetivamente, para aquele poeta-fil\u00f3sofo, \u201co que o mundo possu\u00edra que at\u00e9 ent\u00e3o de mais sagrado e de mais potente\u201d fora morto. Esse assassinato \u00fanico constitu\u00eda \u201ca maior a\u00e7\u00e3o\u201d cometida pelos homens, o \u201cevento mais fundamental\u201d e ao mesmo tempo a \u201cboa-nova mais alvissareira\u201d de toda a hist\u00f3ria, pois teria eliminado do horizonte do mundo o maior entrave \u00e0 vida e ao indiv\u00edduo, proporcionando, assim, o advento do Super-homem, o homem enfim autossuperado.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559739&quot;:160,&quot;335559740&quot;:259}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">Nesse ideal radical concebido pela modernidade, o homem moderno autoconsagrado tornou-se criador de um &#8220;mundo novo&#8221;. A pretens\u00e3o era redimir a pr\u00f3pria &#8220;condi\u00e7\u00e3o humana&#8221; e construir um novo modo de exist\u00eancia, agora totalmente horizontal. Ora, isso s\u00f3 podia ser fruto do antropocentrismo onipotente da modernidade, que alguns chamaram de &#8220;metaf\u00edsica da subjetividade&#8221;, outros de &#8221; eu constituinte &#8220;, outros, ainda, de &#8220;vontade de pot\u00eancia&#8221;, e os demais, de <\/span><i><span data-contrast=\"auto\">hybris<\/span><\/i><span data-contrast=\"auto\">, velha tenta\u00e7\u00e3o, conhecida e condenada tanto pelos gregos como pela Sagrada Escritura Revelada. Segundo o pensador Clodovis Boff, para \u201cesses utopistas messi\u00e2nicos, a realidade n\u00e3o passava de mat\u00e9ria pl\u00e1stica, mold\u00e1vel segundo a raz\u00e3o demi\u00fargica e a liberdade palingen\u00e9tica dos auto designados \u2018engenheiros da hist\u00f3ria\u2019&#8221;.\u00a0<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559739&quot;:160,&quot;335559740&quot;:259}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">Eis o projeto supramente ambicioso, maquinado pela raz\u00e3o moderna e potencialmente efetuado. Foi um projeto realmente monstro, mas tamb\u00e9m monstruoso. A raz\u00e3o moderna, que pretendia libertar o homem de todas as ilus\u00f5es e preconceitos, caiu paradoxalmente na m\u00e1xima impostura em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 m\u00e1xima realidade: Deus. Passou a defini-lo como totalmente o contr\u00e1rio do que sempre foi: ilus\u00e3o, e n\u00e3o verdade; aliena\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o liberta\u00e7\u00e3o. Declarou o Existente por defini\u00e7\u00e3o, como inexistente; o Ser necess\u00e1rio, como imposs\u00edvel de existir; a Verdade suprema, como suprema mentira; o Criador, como o inimigo da vida; o Amor primeiro, como \u00f3dio ao homem e \u00e0 natureza. E imaginou: quanto mais Deus, menos sentido, e quanto menos Deus, mais sentido. Quando, por acaso, na hist\u00f3ria a raz\u00e3o foi mais irracional, insensata e demencial? Quando a <\/span><i><span data-contrast=\"auto\">violentia rationis<\/span><\/i><span data-contrast=\"auto\"> foi mais insolente?<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559739&quot;:160,&quot;335559740&quot;:259}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">A fonte real de um sonho t\u00e3o ardente e poderoso s\u00f3 podia ter sido uma for\u00e7a igualmente ardente poderosa: a &#8220;paix\u00e3o pelo mundo&#8221;. O mundo, para o <\/span><i><span data-contrast=\"auto\">mainstream<\/span><\/i><span data-contrast=\"auto\"> moderno, com todos os seus &#8220;valores&#8221;, foi considerado a dignidade m\u00e1xima, tornando-se, assim, o grande \u00eddolo em nome do qual tudo podia ser sacrificado. Em verdade, s\u00f3 uma paix\u00e3o absoluta podia intentar a destrui\u00e7\u00e3o de f\u00e9 no Absoluto e produzir a viol\u00eancia maci\u00e7a que o s\u00e9culo XX e in\u00edcio do s\u00e9culo XXI testemunharam. O resultado final desse projeto gigantesco e monstruoso, caso fosse levado a termo, teria sido o niilismo de massa e <\/span><i><span data-contrast=\"auto\">fine finaliter,<\/span><\/i><span data-contrast=\"auto\"> sua autoaniquila\u00e7\u00e3o, resultado esse fat\u00eddico e paradoxal, felizmente hipot\u00e9tico. No fundo, tratou-se de uma investida sem precedentes do \u201cAnticristo\u201d e de seus \u201csat\u00e9lites\u201d, freada em tempo por &#8220;Aquele que det\u00e9m todas as for\u00e7as\u201d (cf. 2Ts 2,6-7).\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dom Jacinto Bergmann Arcebispo de Pelotas (RS) &nbsp; Entramos de cheio na p\u00f3s-modernidade (momento emblem\u00e1tico dessa entrada \u00e9 a p\u00f3s-pandemia) sendo desafiados a avaliar o gigantesco projeto da modernidade extremizada: o de construir um &#8220;mundo sem Deus&#8221;. 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