{"id":958269,"date":"2024-02-08T14:53:09","date_gmt":"2024-02-08T17:53:09","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/?p=958269"},"modified":"2024-02-08T14:53:54","modified_gmt":"2024-02-08T17:53:54","slug":"a-sede-da-alma","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/a-sede-da-alma\/","title":{"rendered":"A sede da alma\u00a0"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><strong>Dom Jo\u00e3o Santos Cardoso<br \/>\nArcebispo de Natal (RN)<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><i><span data-contrast=\"auto\">\u201cComo a cor\u00e7a bramindo por \u00e1guas correntes, assim minha alma brame por ti, \u00f3 meu Deus!\u201d (Sl 42, 2)<\/span><\/i><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:2,&quot;335551620&quot;:2,&quot;335559739&quot;:0,&quot;335559740&quot;:240}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">O Salmo 42 expressa poeticamente a ang\u00fastia de um exilado devido ao seu afastamento do Templo de Jerusal\u00e9m, onde Deus reside, e das festas que l\u00e1 eram celebradas. No ex\u00edlio, clama por Deus, desejando visitar o Santu\u00e1rio e contemplar a face do Senhor. Antropologicamente, o Salmo retrata uma realidade intr\u00ednseca \u00e0 alma humana: a sede de absoluto, a sede de Deus. O ser humano \u00e9 estruturalmente aberto e tem um desejo inato de eternidade.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559731&quot;:567,&quot;335559739&quot;:40,&quot;335559740&quot;:240}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">A met\u00e1fora do ex\u00edlio permeia a f\u00e9 crist\u00e3, sugerindo que vivemos exilados neste mundo. Nele estamos, mas n\u00e3o somos dele. No mundo, sentimos uma profunda inadequa\u00e7\u00e3o, como se estiv\u00e9ssemos longe de casa, desejosos de retornar \u00e0 p\u00e1tria de origem.\u00a0 \u201cN\u00e3o temos aqui cidade permanente, mas estamos \u00e0 procura daquela que est\u00e1 para vir\u201d (Hebreus 13,14). A ang\u00fastia do exilado \u00e9 expressa pelo Ap\u00f3stolo Paulo na Segunda Carta aos Cor\u00edntios, destacando a tens\u00e3o entre a f\u00e9 e a vis\u00e3o, entre habitar neste corpo e ansiar pela morada junto ao Senhor: \u201cPor conseguinte, estamos sempre confiantes, sabendo que, enquanto habitamos neste corpo, estamos fora da nossa mans\u00e3o, longe do Senhor, pois caminhamos pela f\u00e9 e n\u00e3o pela vis\u00e3o\u201d (2 Cor 5, 6-7).<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559731&quot;:567,&quot;335559739&quot;:40,&quot;335559740&quot;:240}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">O Salmo 63 retrata vividamente a sede da alma, apresentando-a como uma terra \u00e1rida clamando por \u00e1gua: &#8220;Minha alma tem sede de ti, minha carne te deseja com ardor, como terra \u00e1rida, sem \u00e1gua&#8221; (Sl 63, 2). Essa imagem \u00e9 poderosa para retratar a condi\u00e7\u00e3o humana, profundamente marcada por um desejo de eternidade, como se na alma houvesse um grande buraco que nada preenche, exceto o Absoluto. Santo Agostinho expressa essa condi\u00e7\u00e3o quando exclama no in\u00edcio de suas Confiss\u00f5es, em sua invoca\u00e7\u00e3o a Deus: &#8220;Fizeste-nos para ti, e inquieto est\u00e1 o nosso cora\u00e7\u00e3o, enquanto n\u00e3o repousa em ti&#8221;.\u00a0<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559731&quot;:567,&quot;335559739&quot;:40,&quot;335559740&quot;:240}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">A inquietude, a insatisfa\u00e7\u00e3o, denunciam a inadequa\u00e7\u00e3o do ser humano no mundo. O ser humano tem sede de absoluto e de Deus. Quando n\u00e3o compreendemos a natureza dessa sede, orientamos nossa busca para realidades ef\u00eameras que jamais cumprir\u00e3o suas promessas. Buscamos e nada nos sacia, e, quando conseguimos algo, somos remetidos para uma nova busca. Essa situa\u00e7\u00e3o de busca incessante aponta para um termo \u00faltimo, indica para algo que possa definitivamente saciar nossa sede e dar um novo norte \u00e0 nossa vida. Esse termo absoluto \u00e9 Deus!<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559731&quot;:567,&quot;335559739&quot;:40,&quot;335559740&quot;:240}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">A atual sociedade de consumo leva em conta essa condi\u00e7\u00e3o existencial do ser humano, trabalhando com o desejo e sede do absoluto, remetendo-os para o consumo. A sociedade de consumo, conforme apresentada por Bauman, capitaliza essa busca, mantendo a insatisfa\u00e7\u00e3o como pilar fundamental para sua sobreviv\u00eancia. &#8220;A sociedade de consumo tem por premissa satisfazer os desejos humanos de uma forma que nenhuma sociedade do passado p\u00f4de realizar ou sonhar. A promessa de satisfa\u00e7\u00e3o, no entanto, s\u00f3 permanecer\u00e1 sedutora enquanto o desejo continuar irrealizado&#8221; (BAUMAN, Z. Vida L\u00edquida, 2009, p. 105). O consumo tem como estrat\u00e9gia perpetuar a insatisfa\u00e7\u00e3o, criando alvos inating\u00edveis e alimentando a compuls\u00e3o. Assim, o consumismo torna-se uma economia do logro, do excesso e do desperd\u00edcio, onde a promessa de satisfa\u00e7\u00e3o \u00e9 constantemente quebrada, mantendo viva a busca incessante.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559731&quot;:567,&quot;335559739&quot;:40,&quot;335559740&quot;:240}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">A massifica\u00e7\u00e3o das drogas em nossos dias n\u00e3o estaria apontando para o mal-estar de uma sociedade imersa na iman\u00eancia em que se perderam os horizontes da transcend\u00eancia? Quando nos falta uma experi\u00eancia de transcend\u00eancia, transferimos nossa ang\u00fastia de exilados para o consumo e para as subst\u00e2ncias psicotr\u00f3picas. A conex\u00e3o entre a falta de transcend\u00eancia e o recurso ao consumo e subst\u00e2ncias psicotr\u00f3picas \u00e9 como uma resposta \u00e0 ang\u00fastia do ex\u00edlio na iman\u00eancia. Contudo essa tentativa n\u00e3o responde \u00e0 sede da alma e aprofunda ainda mais o seu abismo. Somente em Deus, nossa alma encontra repouso!<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559731&quot;:567,&quot;335559739&quot;:40,&quot;335559740&quot;:240}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559739&quot;:120,&quot;335559740&quot;:240}\">\u00a0<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dom Jo\u00e3o Santos Cardoso Arcebispo de Natal (RN) &nbsp; \u00a0 \u201cComo a cor\u00e7a bramindo por \u00e1guas correntes, assim minha alma brame por ti, \u00f3 meu Deus!\u201d (Sl 42, 2)\u00a0 O Salmo 42 expressa poeticamente a ang\u00fastia de um exilado devido ao seu afastamento do Templo de Jerusal\u00e9m, onde Deus reside, e das festas que l\u00e1 &hellip;<\/p>\n<p class=\"read-more\"> <a class=\"\" href=\"https:\/\/www.cnbb.org.br\/a-sede-da-alma\/\"> <span class=\"screen-reader-text\">A sede da alma\u00a0<\/span> Leia mais &raquo;<\/a><\/p>\n","protected":false},"author":105,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":""},"categories":[758],"tags":[],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts\/958269"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/users\/105"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/comments?post=958269"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts\/958269\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":958271,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts\/958269\/revisions\/958271"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/media?parent=958269"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/categories?post=958269"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/tags?post=958269"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}