{"id":962291,"date":"2024-04-25T13:12:05","date_gmt":"2024-04-25T16:12:05","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/?p=962291"},"modified":"2024-04-25T13:12:52","modified_gmt":"2024-04-25T16:12:52","slug":"o-homem-pode-ser-reduzido-a-uma-maquina","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/o-homem-pode-ser-reduzido-a-uma-maquina\/","title":{"rendered":"O homem pode ser reduzido a uma m\u00e1quina?\u00a0"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><strong>Dom Jo\u00e3o Santos Cardoso<br \/>\nArcebispo de Natal (RN)<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-ccp-props=\"{}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">Baseado no livro &#8220;O Princ\u00edpio da Humanidade&#8221;, de Jean-Claude Guillebaud, discutimos os desafios em redefinir a humanidade do homem na era da tecnoci\u00eancia.\u00a0 Guillebaud ressalta que, se no passado os perigos para definir a humanidade do homem provinham dos totalitarismos e tiranias, hoje s\u00e3o os avan\u00e7os da pesquisa cient\u00edfica que colocam em quest\u00e3o a ess\u00eancia do ser humano. A ci\u00eancia contempor\u00e2nea, ao ressuscitar quest\u00f5es denunciadas por Primo Levi sobre a redu\u00e7\u00e3o do homem ao animal, objeto ou coisa, desperta preocupa\u00e7\u00f5es sobre a possibilidade de equiparar o ser humano a uma m\u00e1quina. As ci\u00eancias cognitivas n\u00e3o nos sugerem a hip\u00f3tese do c\u00e9rebro eletr\u00f4nico? A intelig\u00eancia artificial n\u00e3o \u00e9 uma concretiza\u00e7\u00e3o dessa hip\u00f3tese que mostra a proximidade do homem com a m\u00e1quina?<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559731&quot;:567,&quot;335559739&quot;:0,&quot;335559740&quot;:240}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">As mem\u00f3rias do Holocausto servem como lembretes sombrios do que acontece quando a humanidade da pessoa humana \u00e9 negada ou reduzida e, portanto, mostram que o homem jamais deve ser assemelhado ao animal, \u00e0 m\u00e1quina ou \u00e0 coisa.\u00a0<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559731&quot;:567,&quot;335559739&quot;:0,&quot;335559740&quot;:240}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">A discuss\u00e3o sobre a redu\u00e7\u00e3o do homem \u00e0 m\u00e1quina \u00e9 um dilema filos\u00f3fico e \u00e9tico que se intensificou com os avan\u00e7os da tecnologia e da ci\u00eancia. Ela envolve quest\u00f5es fundamentais sobre a natureza do ser humano, consci\u00eancia, alma e esp\u00edrito.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559731&quot;:567,&quot;335559739&quot;:0,&quot;335559740&quot;:240}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">Guillebaud apresenta um embate entre duas perspectivas: a teoria forte da intelig\u00eancia artificial (AI), que argumenta n\u00e3o haver diferen\u00e7a ontol\u00f3gica entre humanos e m\u00e1quinas, e a teoria fraca, que reconhece limita\u00e7\u00f5es e diferen\u00e7as fundamentais. A ideia de que n\u00e3o h\u00e1 diferen\u00e7a ontol\u00f3gica desafia concep\u00e7\u00f5es tradicionais sobre a singularidade e dignidade humanas.\u00a0<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559731&quot;:567,&quot;335559739&quot;:0,&quot;335559740&quot;:240}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">Os defensores da teoria forte da AI sugerem que os humanos s\u00e3o essencialmente m\u00e1quinas complexas, prevendo que as m\u00e1quinas realizar\u00e3o todas as tarefas humanas. No entanto, cr\u00edticos como Hubert L. Dreyfus contestam essa vis\u00e3o, argumentando que o c\u00e9rebro humano n\u00e3o opera como um computador e que a compreens\u00e3o da psique humana vai al\u00e9m das capacidades da intelig\u00eancia artificial.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559731&quot;:567,&quot;335559739&quot;:0,&quot;335559740&quot;:240}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">Os elementos essenciais que definem a humanidade n\u00e3o se limitam apenas \u00e0s habilidades cognitivas. H\u00e1 aspectos como a subjetividade, emo\u00e7\u00f5es e responsabilidade moral, intr\u00ednsecos \u00e0 profundidade da experi\u00eancia humana, que n\u00e3o podem ser replicados por m\u00e1quinas e que distinguem o homem delas, desafiando a ideia de uma redu\u00e7\u00e3o simplista \u00e0 tecnologia. O computador, por mais avan\u00e7ado que seja, \u00e9 incapaz de experimentar emo\u00e7\u00f5es ou compreender a profundidade da experi\u00eancia humana. A subjetividade faz a diferen\u00e7a no homem, separando-o da m\u00e1quina e do animal, e nenhum estudo neurobiol\u00f3gico pode capturar completamente esse aspecto essencial da humanidade.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559731&quot;:567,&quot;335559739&quot;:0,&quot;335559740&quot;:240}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">O neurobiologista Antonio Damasio destaca a import\u00e2ncia das emo\u00e7\u00f5es na racionalidade humana e como est\u00e3o ligadas \u00e0 percep\u00e7\u00e3o da alma ou esp\u00edrito. Al\u00e9m disso, a cr\u00edtica de Thomas Nagel sobre a incompreensibilidade da experi\u00eancia subjetiva de outros seres, como morcegos, ressalta a lacuna na capacidade das teorias neurobiol\u00f3gicas em compreender a profundidade da consci\u00eancia humana.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559731&quot;:567,&quot;335559739&quot;:0,&quot;335559740&quot;:240}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">As met\u00e1foras cient\u00edficas, como a compara\u00e7\u00e3o do homem com uma m\u00e1quina, especialmente o computador, refletem nossa tentativa de compreender aspectos complexos da intelig\u00eancia humana, mas s\u00e3o limitadas e n\u00e3o devem ser tomadas como explica\u00e7\u00f5es definitivas. Embora o computador possa fornecer insights sobre certos aspectos do intelecto humano, \u00e9 essencial reconhecer as limita\u00e7\u00f5es dessa met\u00e1fora, pois ela n\u00e3o pode ser considerada uma explica\u00e7\u00e3o completa nem d\u00e1 fundamentos para negar a ess\u00eancia humana. A compara\u00e7\u00e3o do homem com uma m\u00e1quina n\u00e3o \u00e9 uma verdade objetiva, mas sim uma constru\u00e7\u00e3o que reflete nossos pr\u00f3prios desejos e limita\u00e7\u00f5es. Em \u00faltima an\u00e1lise, a interpreta\u00e7\u00e3o em sentido real\u00edstico da met\u00e1fora coloca em risco a compreens\u00e3o da verdadeira natureza e dignidade humanas.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559731&quot;:567,&quot;335559739&quot;:0,&quot;335559740&quot;:240}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">Portanto, a afirma\u00e7\u00e3o da humanidade do homem n\u00e3o depende apenas da pesquisa cient\u00edfica (gen\u00e9tica, neuroci\u00eancia, teoria computacional), mas tamb\u00e9m de abordagens filos\u00f3ficas e dos diversos ramos das ci\u00eancias humanas que deem conta de considerar o ser humano em suas multifacetadas dimens\u00f5es. A responsabilidade, emo\u00e7\u00e3o e subjetividade s\u00e3o aspectos fundamentais que distinguem o homem da m\u00e1quina e devem ser levados em considera\u00e7\u00e3o em qualquer discuss\u00e3o sobre a rela\u00e7\u00e3o entre o homem e a intelig\u00eancia artificial. Afinal, a verdadeira compreens\u00e3o do humano n\u00e3o pode ser reduzida a simples met\u00e1foras ou modelos simplificados.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559731&quot;:567,&quot;335559739&quot;:0,&quot;335559740&quot;:240}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">Em \u00faltima an\u00e1lise, a tentativa de reduzir o homem \u00e0 m\u00e1quina coloca em risco a compreens\u00e3o sobre sua natureza e dignidade. \u00c9 necess\u00e1rio um di\u00e1logo \u00e9tico e reflexivo sobre os limites e implica\u00e7\u00f5es de nossas tentativas de entender e replicar a complexidade da mente humana, celebrando a diversidade e singularidade do ser humano em vez de reduzi-lo a simples met\u00e1foras ou modelos simplificados.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559731&quot;:567,&quot;335559739&quot;:0,&quot;335559740&quot;:240}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-ccp-props=\"{}\">\u00a0<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dom Jo\u00e3o Santos Cardoso Arcebispo de Natal (RN) \u00a0 Baseado no livro &#8220;O Princ\u00edpio da Humanidade&#8221;, de Jean-Claude Guillebaud, discutimos os desafios em redefinir a humanidade do homem na era da tecnoci\u00eancia.\u00a0 Guillebaud ressalta que, se no passado os perigos para definir a humanidade do homem provinham dos totalitarismos e tiranias, hoje s\u00e3o os avan\u00e7os &hellip;<\/p>\n<p class=\"read-more\"> <a class=\"\" href=\"https:\/\/www.cnbb.org.br\/o-homem-pode-ser-reduzido-a-uma-maquina\/\"> <span class=\"screen-reader-text\">O homem pode ser reduzido a uma m\u00e1quina?\u00a0<\/span> Leia mais &raquo;<\/a><\/p>\n","protected":false},"author":105,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":""},"categories":[758],"tags":[],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts\/962291"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/users\/105"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/comments?post=962291"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts\/962291\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":962293,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts\/962291\/revisions\/962293"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/media?parent=962291"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/categories?post=962291"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/tags?post=962291"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}