{"id":965026,"date":"2024-06-13T16:52:44","date_gmt":"2024-06-13T19:52:44","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/?p=965026"},"modified":"2024-06-13T16:53:35","modified_gmt":"2024-06-13T19:53:35","slug":"o-medo-nas-cidades-modernas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/o-medo-nas-cidades-modernas\/","title":{"rendered":"O medo nas cidades modernas\u00a0"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><strong>Dom Jo\u00e3o Santos Cardoso\u00a0<\/strong><br \/>\n<strong>Arcebispo de Natal (RS)<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">Recentemente, em uma reuni\u00e3o com o clero e os fi\u00e9is leigos da Arquidiocese de Natal, discutimos sobre a pastoral urbana e a evangeliza\u00e7\u00e3o na cidade. O tema do medo urbano foi recorrente, manifestado em falas que expressavam receio de ir a determinados bairros e realizar atos lit\u00fargicos em certos hor\u00e1rios. Esse medo impacta a evangeliza\u00e7\u00e3o, retraindo a aud\u00e1cia pastoral para difundir o evangelho em todas as periferias, comprometendo o mandato de Jesus: \u201cIde pelo mundo inteiro e pregai o Evangelho a toda criatura\u201d (Mc 16,15).<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559731&quot;:567,&quot;335559739&quot;:0,&quot;335559740&quot;:240}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">A cidade fascina e amedronta. Muitos que vivem no interior aspiram morar na cidade grande, e a migra\u00e7\u00e3o para as regi\u00f5es metropolitanas \u00e9 comum, inclusive entre padres que desejam exercer seu minist\u00e9rio na grande cidade. No entanto, o medo afeta a evangeliza\u00e7\u00e3o, levando as pessoas a preferirem o isolamento dos condom\u00ednios fechados. Muitos padres tamb\u00e9m trocam a casa paroquial pr\u00f3xima da matriz pela resid\u00eancia em condom\u00ednios fechados, comprometendo a proximidade com suas comunidades, como pede o Papa Francisco: \u201csede pastores com o cheiro das ovelhas\u201d (Homilia Missa Crismal de 2013).<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559731&quot;:567,&quot;335559739&quot;:0,&quot;335559740&quot;:240}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">Essa situa\u00e7\u00e3o me faz lembrar do artigo \u201cA cidade como exig\u00eancia de sociabilidade\u201d na colet\u00e2nea &#8220;Dilemas da Sociabilidade, Pensar a Cidade Hoje&#8221;, onde discuto o medo como um desafio para a conviv\u00eancia urbana, com base nas contribui\u00e7\u00f5es de Zygmunt Bauman em \u201cConfian\u00e7a e medo na cidade\u201d (2009). Bauman afirma que a inseguran\u00e7a e o medo comprometem a vida urbana, mesmo sendo as cidades mais seguras do que nas sociedades do passado. Subjetivamente, as pessoas sentem-se amea\u00e7adas e obcecadas por seguran\u00e7a, esvaziando o espa\u00e7o p\u00fablico e as intera\u00e7\u00f5es humanas.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559731&quot;:567,&quot;335559739&quot;:0,&quot;335559740&quot;:240}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">\u00c9 urgente repensar a no\u00e7\u00e3o de espa\u00e7o p\u00fablico para recuperar a sociabilidade urbana, pois a urbaniza\u00e7\u00e3o \u00e9 irrevers\u00edvel e a vida nas cidades ser\u00e1 o modo predominante de habitar o planeta. Portanto, \u00e9 necess\u00e1rio que o espa\u00e7o urbano promova intera\u00e7\u00e3o humana, encontro com o desconhecido e conviv\u00eancia com a diferen\u00e7a, sem que a inseguran\u00e7a e o medo impe\u00e7am essa fun\u00e7\u00e3o.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559731&quot;:567,&quot;335559739&quot;:0,&quot;335559740&quot;:240}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">Cidades antigas e medievais eram protegidas por muros contra inimigos externos, oferecendo seguran\u00e7a interna. Hoje, o medo e a inseguran\u00e7a deslocaram-se para dentro das cidades. \u201cHoje, nossas cidades, em vez de constitu\u00edrem defesas contra o perigo, est\u00e3o se transformando em perigo\u201d (BAUMAN, 2009, p. 35). O perigo agora est\u00e1 dentro da cidade e a guerra \u00e0 inseguran\u00e7a foi transferida para o seu interior.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559731&quot;:567,&quot;335559739&quot;:0,&quot;335559740&quot;:240}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">Urbanistas projetam constru\u00e7\u00f5es para manter os estranhos distantes, minando a ideia de espa\u00e7o p\u00fablico em favor do espa\u00e7o privado e suas ilhas de seguran\u00e7a. A arquitetura do medo, exemplificada por condom\u00ednios fechados e sistemas de vigil\u00e2ncia, atende ao desejo de seguran\u00e7a dos moradores, mas compromete a ess\u00eancia do espa\u00e7o p\u00fablico. \u201cA arquitetura do medo e da intimida\u00e7\u00e3o espalha-se pelos espa\u00e7os p\u00fablicos das cidades, transformando-os em \u00e1reas extremamente vigiadas\u201d (BAUMAN, 2009, p. 36).<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559731&quot;:567,&quot;335559739&quot;:0,&quot;335559740&quot;:240}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">A guerra \u00e0 inseguran\u00e7a e ao medo tem esvaziado o espa\u00e7o p\u00fablico, essencial \u00e0 vida urbana. \u00c9 nos locais p\u00fablicos que a vida urbana atinge sua mais completa express\u00e3o, com suas alegrias, dores, esperan\u00e7as e pressentimentos. O espa\u00e7o p\u00fablico carrega a ideia de liberdade e intera\u00e7\u00e3o com o estranho. Contudo, o medo que alimenta a obsess\u00e3o pela seguran\u00e7a remove a possibilidade de livre movimento e encontro com o estranho. \u201cCom a inseguran\u00e7a, est\u00e3o destinadas a desaparecer das ruas da cidade a espontaneidade, a flexibilidade, a capacidade de surpreender e a oferta de aventura, em suma, todos os atrativos da vida urbana\u201d (BAUMAN, 2009, p. 39).<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559731&quot;:567,&quot;335559739&quot;:0,&quot;335559740&quot;:240}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">O espa\u00e7o p\u00fablico \u00e9 vulner\u00e1vel e exposto a ataques, mas tamb\u00e9m \u00e9 onde a atra\u00e7\u00e3o pode superar a rejei\u00e7\u00e3o, onde se descobrem e se praticam os costumes de uma vida urbana satisfat\u00f3ria e onde o futuro da vida urbana \u00e9 decidido (BAUMAN, 2009, p. 40). Para evangelizar, \u00e9 necess\u00e1rio n\u00e3o temer a cidade e superar a obsess\u00e3o por seguran\u00e7a que gera segrega\u00e7\u00e3o e privatiza\u00e7\u00e3o dos espa\u00e7os. \u00c9 preciso recuperar a ideia do espa\u00e7o p\u00fablico, tornando-o um lugar onde as diferen\u00e7as s\u00e3o valorizadas e onde \u00e9 poss\u00edvel o encontro e mover-se livremente. Revitalizar o espa\u00e7o p\u00fablico \u00e9 uma estrat\u00e9gia para combater o isolamento e gerar encontros e comunh\u00e3o entre estranhos, superando a tend\u00eancia de buscar ref\u00fagio em ilhas privadas de seguran\u00e7a.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559731&quot;:567,&quot;335559739&quot;:0,&quot;335559740&quot;:240}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">A tend\u00eancia de retirar-se dos espa\u00e7os p\u00fablicos para refugiar-se em ilhas de \u201cuniformidade\u201d transforma-se no maior obst\u00e1culo para conviver com a diferen\u00e7a, enfraquecendo di\u00e1logos e pactos. A exposi\u00e7\u00e3o \u00e0 diferen\u00e7a torna-se um fator decisivo para uma conviv\u00eancia feliz, secando as ra\u00edzes urbanas do medo (BAUMAN, 2009, p. 41).<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559731&quot;:567,&quot;335559739&quot;:0,&quot;335559740&quot;:240}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">A humaniza\u00e7\u00e3o da cidade atrav\u00e9s da recupera\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o p\u00fablico \u00e9 a resposta mais razo\u00e1vel contra o perigo de um espa\u00e7o urbano residual onde as intera\u00e7\u00f5es humanas se reduzem a conflitos entre autom\u00f3veis e pedestres, possuidores e despossu\u00eddos, tornando-se locais de tens\u00e3o e viol\u00eancia. Para que a sociabilidade encontre express\u00e3o na cidade, Bauman defende um planejamento urbano que se desloque dos espa\u00e7os privados para os p\u00fablicos, tornando-os amplos, atraentes e estimulantes. Isso deve acentuar a \u201cconex\u00e3o, comunica\u00e7\u00e3o e celebra\u00e7\u00e3o\u201d, respondendo \u00e0 tarefa de construir cidades que alimentem comunidades e o ambiente que as sustentam (BAUMAN, 2009, p. 41).<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559731&quot;:567,&quot;335559739&quot;:0,&quot;335559740&quot;:240}\">\u00a0<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dom Jo\u00e3o Santos Cardoso\u00a0 Arcebispo de Natal (RS) \u00a0 Recentemente, em uma reuni\u00e3o com o clero e os fi\u00e9is leigos da Arquidiocese de Natal, discutimos sobre a pastoral urbana e a evangeliza\u00e7\u00e3o na cidade. 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