{"id":969900,"date":"2024-09-05T15:05:35","date_gmt":"2024-09-05T18:05:35","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/?p=969900"},"modified":"2024-09-05T15:07:18","modified_gmt":"2024-09-05T18:07:18","slug":"o-limiar-da-velhice","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/o-limiar-da-velhice\/","title":{"rendered":"O limiar da velhice"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\">Dom Jo\u00e3o Santos Cardoso<br \/>\nArcebispo de Natal<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No Livro I da Rep\u00fablica, Plat\u00e3o oferece uma reflex\u00e3o sobre a velhice atrav\u00e9s do personagem C\u00e9falo, um anci\u00e3o que recebe S\u00f3crates em sua casa. Embora o tema central da obra seja a justi\u00e7a, o di\u00e1logo inicial faz uma discuss\u00e3o sobre o envelhecimento, destacando que o car\u00e1ter e o modo como se vive determinam a experi\u00eancia da velhice.<\/p>\n<p>C\u00e9falo, com as limita\u00e7\u00f5es f\u00edsicas impostas pela idade, encontra prazer na conversa\u00e7\u00e3o e na companhia de amigos. S\u00f3crates, valorizando a sabedoria dos mais velhos, pergunta a C\u00e9falo sobre o &#8220;limiar da velhice&#8221;. Em resposta, C\u00e9falo adota uma vis\u00e3o realista e estoica do envelhecimento, destacando a liberta\u00e7\u00e3o das paix\u00f5es como uma de suas principais vantagens. Ao citar S\u00f3focles, ele reflete sobre a serenidade que vem com a diminui\u00e7\u00e3o dos desejos, quando as paix\u00f5es da juventude j\u00e1 n\u00e3o atormentam o esp\u00edrito, semelhante a um escravo que se liberta de um senhor col\u00e9rico e truculento, alcan\u00e7ando um repouso que somente a velhice pode proporcionar.<\/p>\n<p>Essa ideia ressoa no poema \u201cElogio da Sombra\u201d, de Jorge Luis Borges, que descreve a velhice como um tempo de felicidade, onde &#8220;o animal morreu ou quase morreu&#8221; e restam &#8220;o homem e sua alma&#8221;. Borges destaca a serenidade e introspec\u00e7\u00e3o que acompanham essa fase da vida, semelhante ao prazer que C\u00e9falo encontra na quietude e na reflex\u00e3o.<\/p>\n<p>C\u00e9falo tamb\u00e9m refuta a ideia de que a velhice \u00e9 intrinsecamente uma fonte de sofrimento. Ele observa que muitos idosos se queixam das perdas e dificuldades da idade, mas argumenta que esses lamentos decorrem mais do car\u00e1ter das pessoas do que da velhice em si. Para aqueles com bom car\u00e1ter e que viveram desde a juventude com equil\u00edbrio, a velhice pode ser uma \u00e9poca de paz e satisfa\u00e7\u00e3o, em vez de um fardo. Plat\u00e3o sugere que a forma como vivemos na juventude prepara o terreno para nossa experi\u00eancia na velhice.<\/p>\n<p>Essa vis\u00e3o \u00e9 refletida no poema de Cec\u00edlia Meireles, \u201cA velhice pede desculpas\u201d, que retrata a idade avan\u00e7ada como um estado de resigna\u00e7\u00e3o e aceita\u00e7\u00e3o, onde as marcas do tempo s\u00e3o vistas como parte inevit\u00e1vel da vida, e n\u00e3o como trag\u00e9dias. A ideia de que a velhice \u00e9 uma continua\u00e7\u00e3o natural da vida, e n\u00e3o um evento catastr\u00f3fico, \u00e9 comum tanto em Plat\u00e3o quanto em Meireles.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, Plat\u00e3o aborda a rela\u00e7\u00e3o entre velhice e riqueza. S\u00f3crates questiona se a felicidade de C\u00e9falo na velhice est\u00e1 relacionada \u00e0 sua riqueza. C\u00e9falo reconhece que o dinheiro traz algumas compensa\u00e7\u00f5es, mas enfatiza que n\u00e3o \u00e9 a fonte da verdadeira paz. Para ele, a riqueza \u00e9 \u00fatil principalmente para evitar injusti\u00e7as e cumprir obriga\u00e7\u00f5es, mas n\u00e3o pode proporcionar paz a um homem mau. A verdadeira tranquilidade na velhice \u00e9 alcan\u00e7ada atrav\u00e9s de uma exist\u00eancia pautada com justi\u00e7a e equil\u00edbrio, e n\u00e3o pelo ac\u00famulo de bens materiais.<\/p>\n<p>Essa reflex\u00e3o sugere que os bens materiais s\u00e3o apenas instrumentos que podem facilitar ou dificultar uma vida plena, mas n\u00e3o s\u00e3o determinantes para a felicidade na idade avan\u00e7ada. O car\u00e1ter, e n\u00e3o a fortuna, define a qualidade da velhice.<\/p>\n<p>As reflex\u00f5es de Plat\u00e3o no Livro I da Rep\u00fablica oferecem uma vis\u00e3o profunda sobre como o car\u00e1ter e as escolhas feitas ao longo da vida moldam a experi\u00eancia do envelhecimento. A liberta\u00e7\u00e3o das paix\u00f5es, a aceita\u00e7\u00e3o serena do tempo e o uso judicioso da riqueza s\u00e3o apresentados como pilares que podem tornar a velhice um per\u00edodo de paz e realiza\u00e7\u00e3o. Embora a velhice traga desafios, ela tamb\u00e9m pode ser um tempo de profunda sabedoria e contentamento.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dom Jo\u00e3o Santos Cardoso Arcebispo de Natal No Livro I da Rep\u00fablica, Plat\u00e3o oferece uma reflex\u00e3o sobre a velhice atrav\u00e9s do personagem C\u00e9falo, um anci\u00e3o que recebe S\u00f3crates em sua casa. 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