{"id":970651,"date":"2024-09-19T09:20:26","date_gmt":"2024-09-19T12:20:26","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/?p=970651"},"modified":"2024-09-19T09:21:00","modified_gmt":"2024-09-19T12:21:00","slug":"a-linguagem-e-uma-fonte-de-mal-entendidos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/a-linguagem-e-uma-fonte-de-mal-entendidos\/","title":{"rendered":"&#8220;A linguagem \u00e9 uma fonte de mal-entendidos&#8221;"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><strong>Dom Jo\u00e3o Santos Cardoso\u00a0<\/strong><br \/>\n<strong>Arcebispo de Natal (RN)<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">Essa frase de Antoine de Saint-Exup\u00e9ry, dita pela raposa ao <\/span><i><span data-contrast=\"auto\">Pequeno Pr\u00edncipe<\/span><\/i><span data-contrast=\"auto\"> durante o di\u00e1logo sobre &#8220;cativar&#8221; e criar la\u00e7os, revela a limita\u00e7\u00e3o da linguagem em transmitir plenamente as experi\u00eancias humanas mais significativas, como sentimentos e viv\u00eancias subjetivas. Nessa esfera, as palavras geralmente s\u00e3o insuficientes e podem gerar mal-entendidos.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559731&quot;:567,&quot;335559739&quot;:0,&quot;335559740&quot;:240}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">Ludwig Wittgenstein refor\u00e7a essa ideia ao afirmar que \u201ca linguagem corrente \u00e9 parte do organismo humano, e n\u00e3o menos complicada que ele. \u00c9 humanamente imposs\u00edvel, de imediato, extrair dela a l\u00f3gica da linguagem. A linguagem \u00e9 um traje que disfar\u00e7a o pensamento. E, na verdade, de um modo tal que n\u00e3o se pode inferir, da forma exterior da veste, a forma do pensamento vestido por ela, porque a forma exterior do traje foi constitu\u00edda segundo fins inteiramente diferentes de tornar reconhec\u00edvel a forma do corpo. Os acordos t\u00e1citos que permitem o entendimento da linguagem corrente s\u00e3o enormemente complicados\u201d (<\/span><i><span data-contrast=\"auto\">Tractatus Logico-Philosophicus<\/span><\/i><span data-contrast=\"auto\">, proposi\u00e7\u00e3o 4002).<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559731&quot;:567,&quot;335559739&quot;:0,&quot;335559740&quot;:240}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">Essa proposi\u00e7\u00e3o do <\/span><i><span data-contrast=\"auto\">Tractatus<\/span><\/i><span data-contrast=\"auto\"> reflete a complexidade da linguagem humana e as dificuldades que temos em compreender totalmente como ela funciona. Embora usemos a linguagem para nos comunicar, n\u00e3o temos plena consci\u00eancia de como cada palavra se relaciona com o mundo ou de como os sons que emitimos ganham sentido. Segundo Wittgenstein, a linguagem \u00e9 como um &#8220;traje&#8221; que encobre o pensamento, de modo que, ao observar apenas sua forma externa, n\u00e3o podemos inferir diretamente o conte\u00fado ou o sentido que ela carrega. A fun\u00e7\u00e3o do traje n\u00e3o \u00e9 revelar o corpo, mas embelez\u00e1-lo e ocult\u00e1-lo. Assim tamb\u00e9m ocorre com as palavras: muitas vezes, elas mais escondem do que revelam, pois, a linguagem disfar\u00e7a o pensamento ao inv\u00e9s de revelar diretamente o que est\u00e1 sendo pensado.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559731&quot;:567,&quot;335559739&quot;:0,&quot;335559740&quot;:240}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">Isso acontece porque a linguagem, enquanto ferramenta humana, envolve uma s\u00e9rie de acordos impl\u00edcitos e regras complexas que organizam como as palavras e os s\u00edmbolos ganham significado dentro de um sistema lingu\u00edstico compartilhado. Esses acordos, por serem t\u00e3o intrincados, tornam imposs\u00edvel entender de imediato a l\u00f3gica completa de como funciona a linguagem e como uma express\u00e3o lingu\u00edstica adquire significado. A linguagem corrente \u00e9 uma constru\u00e7\u00e3o humana, complexa e viva, que depende de uma l\u00f3gica subjacente n\u00e3o evidente a todos os seus falantes, e essa caracter\u00edstica limita a compreens\u00e3o direta daquilo que queremos expressar.\u00a0<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559731&quot;:567,&quot;335559739&quot;:0,&quot;335559740&quot;:240}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">Outrossim, h\u00e1 sempre algo inef\u00e1vel que a linguagem n\u00e3o pode expressar diretamente, sendo necess\u00e1rio que certas coisas se mostrem em vez de serem ditas. Esse fato leva Wittgenstein a distinguir entre o diz\u00edvel e o mostr\u00e1vel, sendo este \u00faltimo o \u00e2mbito do que n\u00e3o pode ser dito e apenas se revela. Tal distin\u00e7\u00e3o o conduz a tra\u00e7ar os limites entre o diz\u00edvel, que abrange proposi\u00e7\u00f5es verific\u00e1veis, e o indiz\u00edvel, que engloba experi\u00eancias humanas profundas, como sentimentos, \u00e9tica, est\u00e9tica e o m\u00edstico. Essas experi\u00eancias n\u00e3o podem ser plenamente expressas, mas se manifestam de forma indireta, atrav\u00e9s da met\u00e1fora e da poesia. Wittgenstein defende que devemos nos calar sobre o que n\u00e3o pode ser dito, pois aspectos significativos da vida transcendem a linguagem e escapam \u00e0 descri\u00e7\u00e3o te\u00f3rica ou cient\u00edfica. Tais viv\u00eancias s\u00e3o inef\u00e1veis \u2014 podem ser experimentadas e mostradas, mas n\u00e3o explicadas. O sil\u00eancio, a contempla\u00e7\u00e3o, os gestos, os tempos e os intervalos s\u00e3o mais adequados para express\u00e1-las, j\u00e1 que as palavras frequentemente geram mal-entendidos.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559731&quot;:567,&quot;335559739&quot;:0,&quot;335559740&quot;:240}\">\u00a0<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dom Jo\u00e3o Santos Cardoso\u00a0 Arcebispo de Natal (RN) &nbsp; &nbsp; Essa frase de Antoine de Saint-Exup\u00e9ry, dita pela raposa ao Pequeno Pr\u00edncipe durante o di\u00e1logo sobre &#8220;cativar&#8221; e criar la\u00e7os, revela a limita\u00e7\u00e3o da linguagem em transmitir plenamente as experi\u00eancias humanas mais significativas, como sentimentos e viv\u00eancias subjetivas. 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