{"id":971844,"date":"2024-10-09T14:53:21","date_gmt":"2024-10-09T17:53:21","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/?p=971844"},"modified":"2024-10-10T11:30:41","modified_gmt":"2024-10-10T14:30:41","slug":"agraciada-com-o-premio-nansen-2024-da-onu-irma-rosita-afirmou-que-a-dedicacao-aos-refugiados-e-missao-confiada-por-deus","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/agraciada-com-o-premio-nansen-2024-da-onu-irma-rosita-afirmou-que-a-dedicacao-aos-refugiados-e-missao-confiada-por-deus\/","title":{"rendered":"Agraciada com o Pr\u00eamio Nansen 2024 da ONU, irm\u00e3 Rosita afirmou que a dedica\u00e7\u00e3o aos refugiados \u00e9 miss\u00e3o confiada por Deus"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Nesta quarta-feira, 9 de outubro, foi oficialmente anunciado que a irm\u00e3 Rosita Milesi, religiosa Scalabriniana e diretora do Instituto Migra\u00e7\u00f5es e Direitos Humanos (IMDH), foi a escolhida para receber o Pr\u00eamio Nansen 2024, concedido pelo Alto Comissariado das Na\u00e7\u00f5es Unidas para Refugiados (ACNUR). O pr\u00eamio ser\u00e1 entregue em uma cerim\u00f4nia no dia 14 de outubro, em Genebra, na Su\u00ed\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na entrevista abaixo, a religiosa atribui o servi\u00e7o de mais de 40 anos dedicados ao trabalho com migrantes e refugiados como algo que sempre entendeu como um chamado de Deus e que orientou sua miss\u00e3o dentro de sua congrega\u00e7\u00e3o e na Igreja.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Pr\u00eamio Nansen, considerado uma esp\u00e9cie de Nobel da ONU ao trabalho com refugiados, \u00e9 dedicado ao reconhecimento do trabalho de institui\u00e7\u00f5es e pessoas que atuaram pelo resgate e atendimento de refugiados pelo mundo e j\u00e1 teve vencedores como Angela Merkel e Eleonor Roosevelt.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Acnur ao conceder a honraria aponta o seu trabalho como advogada e sua luta pela dignidade de refugiados e imigrantes. Desde 2017, seu trabalho na fronteira entre o Brasil e a Venezuela passou a ser uma refer\u00eancia para a ONU. A irm\u00e3 Rosita \u00e9 apenas a segunda brasileira a ser escolhida, entre mais de 400 nomes considerados para o pr\u00eamio. Em 1985, dom Paulo Evaristo Arns tamb\u00e9m recebeu a homenagem.<\/p>\n<h3>Casa Bom Samaritano<\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">A religiosa est\u00e1 \u00e0 frente tamb\u00e9m de um projeto de acolhida &#8220;Casa Bom Samaritano&#8221;, inaugurada em fevereiro de 2021,\u00a0 cujo papel \u00e9 acolher migrantes e refugiados venezuelanos que est\u00e3o na condi\u00e7\u00e3o de abrigados em Boa Vista (RR) e que ser\u00e3o interiorizados a partir de oportunidades de trabalho na regi\u00e3o do Distrito Federal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A iniciativa faz parte do projeto &#8220;Acolhidos por meio do trabalho&#8221;, implementado pela AVSI Brasil e Instituto Migra\u00e7\u00f5es e Direitos Humanos (IMDH)\/Irm\u00e3s Scalabrinianas e financiado pelo Departamento de Popula\u00e7\u00e3o, Refugiados e Migra\u00e7\u00e3o (PRM), do governo dos EUA, para fortalecer as a\u00e7\u00f5es da for\u00e7a tarefa humanit\u00e1ria Opera\u00e7\u00e3o Acolhida, liderada pelo governo federal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-971862 alignleft\" src=\"https:\/\/www.cnbb.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/Irma-Rosita-Bom-Samaratino-300x229.jpeg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"229\" srcset=\"https:\/\/www.cnbb.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/Irma-Rosita-Bom-Samaratino-300x229.jpeg 300w, https:\/\/www.cnbb.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/Irma-Rosita-Bom-Samaratino-1024x781.jpeg 1024w, https:\/\/www.cnbb.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/Irma-Rosita-Bom-Samaratino-768x586.jpeg 768w, https:\/\/www.cnbb.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/Irma-Rosita-Bom-Samaratino-500x381.jpeg 500w, https:\/\/www.cnbb.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/Irma-Rosita-Bom-Samaratino.jpeg 1280w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/>O espa\u00e7o est\u00e1 localizado na regi\u00e3o do Lago Sul em um im\u00f3vel cedido pela Confer\u00eancia Nacional de Bispos do Brasil (CNBB) ao projeto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De 2021 at\u00e9 hoje, o projeto j\u00e1 acolheu mais de 170 fam\u00edlias, totalizando pouco mais de 570 pessoas. A parceria da CNBB com a Avsi Brasil e o Instituto Migra\u00e7\u00f5es e Direitos Humanos (IMDH) na acolhida a migrantes venezuelanos vai se estender at\u00e9 setembro de 2025.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Abaixo, a o Portal da CNBB publica a \u00edntegra de uma entrevista com a religiosa. Ela fala de sua trajet\u00f3ria, sua jornada junto \u00e0s irm\u00e3s Mission\u00e1rias Scalabrinianas, sua forma\u00e7\u00e3o em direito e o trabalho com migrantes e refugiados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><strong>Conte-nos sobre sua inf\u00e2ncia, suas experi\u00eancias e valores enquanto crescia e como eles moldaram quem voc\u00ea \u00e9 hoje.<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nasci em 20 de janeiro de 1945, numa regi\u00e3o rural do munic\u00edpio de Farroupilha (RS). Somos 12 irm\u00e3os e irm\u00e3s. Eu sou a sexta. Sempre fui muito decidida e persistente em minhas pretens\u00f5es e sabia bem me defender quando algu\u00e9m tivesse qualquer atitude que eu n\u00e3o gostasse. Na fam\u00edlia fal\u00e1vamos o dialeto italiano, meu primeiro idioma. S\u00f3 fui aprender portugu\u00eas quando comecei a frequentar a escola, aos 6 anos de idade.<\/p>\n<p>Minha fam\u00edlia era muito religiosa, lembro de ouvir meu pai, de manh\u00e3 bem cedo antes de clarear o dia, indo tratar os animais e rezando em voz alta as ora\u00e7\u00f5es da manh\u00e3. E na casa, ningu\u00e9m ia dormir, \u00e0 noite, antes de rezarmos o ros\u00e1rio em fam\u00edlia. Este foi um grande valor que incorporei profundamente em minha vida. E o sigo at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p>Outro valor que aprendi desde cedo \u00e9 o trabalho. Meu pai, minha m\u00e3e, meus irm\u00e3os trabalhavam no campo desde antes do sol nascer at\u00e9 depois do sol posto. E quando havia muito que fazer, muitas vezes iam para o campo a trabalhar sob a luz da lua.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E um terceiro valor que aprendi e que procuro honrar \u00e9 a generosidade. Minha m\u00e3e era muito generosa para com os \u201cmoradores de rua\u201d, que \u00e0 \u00e9poca eram os \u201csem teto\u201d que viviam pelas estradas, andando em busca de comida e de algum lugar para dormir. Meu tamb\u00e9m estava sempre dispon\u00edvel para ajudar, dar trabalho, apoiar na doen\u00e7a estes \u201csem teto\u201d e em geral sem fam\u00edlia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aos 9 anos de idade tive que deixar a fam\u00edlia e fui morar com as Irm\u00e3s Scalabrinianas para poder estudar, com a inten\u00e7\u00e3o de \u201cser Irm\u00e3\u201d, isto \u00e9, de seguir o caminho da vida religiosa consagrada. Sentia falta da fam\u00edlia, mas se quisesse estudar, havia que aceitar estar longe dela. Sempre fui bem no estudo. Rapidamente conclui o ensino ginasial e aos 15 anos decidi entrar para o noviciado para a etapa formativa especifica na Congrega\u00e7\u00e3o das Irm\u00e3s Scalabrinianas.<\/p>\n<blockquote><p>&#8220;Minha fam\u00edlia era muito religiosa, lembro de ouvir meu pai, de manh\u00e3 bem cedo antes de clarear o dia, indo tratar os animais e rezando em voz alta as ora\u00e7\u00f5es da manh\u00e3. E na casa, ningu\u00e9m ia dormir, \u00e0 noite, antes de rezarmos o ros\u00e1rio em fam\u00edlia. Este foi um grande valor que incorporei profundamente em minha vida. E o sigo at\u00e9 hoje&#8221;.<\/p><\/blockquote>\n<figure id=\"attachment_971866\" aria-describedby=\"caption-attachment-971866\" style=\"width: 1024px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-971866 size-large\" src=\"https:\/\/www.cnbb.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/Irma-Rosita-Bom-Samaritano-1024x710.jpg\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"710\" srcset=\"https:\/\/www.cnbb.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/Irma-Rosita-Bom-Samaritano-1024x710.jpg 1024w, https:\/\/www.cnbb.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/Irma-Rosita-Bom-Samaritano-300x208.jpg 300w, https:\/\/www.cnbb.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/Irma-Rosita-Bom-Samaritano-768x533.jpg 768w, https:\/\/www.cnbb.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/Irma-Rosita-Bom-Samaritano-500x347.jpg 500w, https:\/\/www.cnbb.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/Irma-Rosita-Bom-Samaritano.jpg 1280w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-971866\" class=\"wp-caption-text\">Irm\u00e3 Rosita com colaboradores da Casa Bom Samaritano. | Foto: Ascom CNBB.<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em><strong>Descreva a jornada que a levou a se juntar \u00e0s Irm\u00e3s Mission\u00e1rias Scalabrinianas. Como a miss\u00e3o delas de ajudar refugiados e migrantes ressoou em voc\u00ea e quais experi\u00eancias voc\u00ea ganhou trabalhando com pessoas for\u00e7adas a fugir?<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Minha irm\u00e3 maior foi morar com as religiosas, pois disse aos pais que queria ser Irm\u00e3. Dois anos depois, quando conclui a 4\u00aa s\u00e9rie, n\u00e3o havia como continuar os estudos l\u00e1 no campo. Quando eu conheci a Congrega\u00e7\u00e3o das Irm\u00e3s Scalabrinianas elas n\u00e3o se dedicavam \u00e0s migra\u00e7\u00f5es&#8230; As \u00e1reas de atua\u00e7\u00e3o eram educa\u00e7\u00e3o e sa\u00fade. Eu me dediquei \u00e0 educa\u00e7\u00e3o e atuei nesta \u00e1rea durante 10 anos. Depois a congrega\u00e7\u00e3o me pediu para integrar uma equipe que se dedicava \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de um grande Hospital em Porto Alegre.<\/p>\n<p>No final dos anos 70, a Congrega\u00e7\u00e3o decidiu retomar sua miss\u00e3o espec\u00edfica de aten\u00e7\u00e3o e servi\u00e7o evang\u00e9lico aos migrantes e refugiados. Pouco a pouco, fomos ampliando nossa miss\u00e3o nesta \u00e1rea. Em 1986, a Superiora Geral da Congrega\u00e7\u00e3o me chamou para ir a Roma, estudar e me preparar com a finalidade espec\u00edfica de implementar um Centro de Estudos Migrat\u00f3rios. Aceitei. Estive e Roma de setembro de 1986 a maio de 1988. Neste per\u00edodo minha dedica\u00e7\u00e3o foi total ao tema, pensando na miss\u00e3o junto e a favor dos migrantes e refugiados.<\/p>\n<p><strong><em>O que a inspirou a come\u00e7ar a estudar direito e levar seu trabalho em uma dire\u00e7\u00e3o voltada aos direitos humanos? Houve um momento ou fato em particular que a ajudou a decidir que era isso que voc\u00ea queria fazer?<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Era o in\u00edcio dos anos 70. Eu trabalhava numa Escola, na cidade de S\u00e3o Jer\u00f4nimo, interior do RS. N\u00e3o todas as Irm\u00e3s tinham oportunidade de estudar. Era preciso trabalhar. Esta era a posi\u00e7\u00e3o congregacional. Apenas algumas pessoas eram selecionadas para estudar. Mas eu desejava cursar a Faculdade e tinha em minha mente cursar direito. V\u00e1rios professores haviam comentado que eu tinha um perfil adequado para esta forma\u00e7\u00e3o e atua\u00e7\u00e3o. Mas, na Congrega\u00e7\u00e3o ningu\u00e9m antes, ao longo a hist\u00f3ria, havia cursado Direito. E o entendimento era de que, com este curso eu n\u00e3o teria o que fazer na Congrega\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Contudo, esta era a oportunidade que eu havia encontrado, mesmo que fosse com certo desencontro com as perspectivas de minhas superioras. Iniciei o curso, por minha conta e risco, estudando \u00e0 noite, pois durante o dia devia trabalhar na Escola. Ap\u00f3s as 17 horas, viajava durante 2 horas, para chegar \u00e0 Universidade do Vale dos Sinos (Unisinos).<\/p>\n<p><em><strong>Descreva seu papel no estabelecimento do Centro de Estudos de Migra\u00e7\u00e3o e do Instituto de Migra\u00e7\u00e3o e Direitos Humanos e sua import\u00e2ncia para refugiados e migrantes.<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Superiora Geral a Congrega\u00e7\u00e3o me atribuiu a responsabilidade de implementar o Centro de Estudos Migrat\u00f3rios da Congrega\u00e7\u00e3o. Assim, em mar\u00e7o de 1988, o Governo Geral publicou o decreto de cria\u00e7\u00e3o do Centro e me destinou a vir a Bras\u00edlia para esta viabiliza\u00e7\u00e3o. Tive, pois, esta miss\u00e3o pr\u00e1tica. Retornei ao Brasil no in\u00edcio de maio de 1988 e no dia 6 de junho me desloquei para Bras\u00edlia. A miss\u00e3o foi dif\u00edcil, mas n\u00e3o imposs\u00edvel. Viabilizei a implementa\u00e7\u00e3o do CSEM, no qual trabalhei por 17 anos.<\/p>\n<p>Ao constitui-lo, criei o Departamento de Direito e Cidadania, especificamente para atendimento aos migrantes e refugiados que necessitassem de apoio para a quest\u00e3o documental e jur\u00eddica. Com o passar do tempo, este servi\u00e7o se tornou muito grande e foi necess\u00e1rio criar uma institui\u00e7\u00e3o espec\u00edfica para este foi. Foi ali que decidi procurar ajuda e amigos para criar o Instituto Migra\u00e7\u00f5es e Direitos Humanos (inicialmente ISMI e logo em seguida adotou-se a denomina\u00e7\u00e3o IMDH)<\/p>\n<p><strong><em>Por que foi importante para voc\u00ea defender mudan\u00e7as na lei no Brasil em rela\u00e7\u00e3o aos refugiados? Que diferen\u00e7a essas mudan\u00e7as fizeram na vida de refugiados em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 legisla\u00e7\u00e3o anterior?<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ocorre que o Brasil nunca havia adotado uma lei nacional sobre o tema dos refugiados. Adotava a Conven\u00e7\u00e3o de Genebra de 1951 e a aprecia\u00e7\u00e3o dos pedidos de ref\u00fagio era feita pelo ACNUR, que apenas submetia os nomes e a decis\u00e3o ao Minist\u00e9rio da Justi\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O ACNUR, em 1995, passou a desenvolver atividades para elaborar pautas que poderiam servir para os pa\u00edses da regi\u00e3o adotarem uma lei de refugiados, bem como criar um \u00f3rg\u00e3o encarregado desta tem\u00e1tica. Ademais, ACNUR j\u00e1 planejava fechar o escrit\u00f3rio no Brasil, pois a chegada de potenciais refugiadas era muito reduzida. Mas, n\u00e3o queria se afastar do Pa\u00eds, sem deixar uma legisla\u00e7\u00e3o e um \u00f3rg\u00e3o, isto \u00e9, uma estrutura b\u00e1sica para garantir o atendimento a quem buscasse prote\u00e7\u00e3o no Brasil.<\/p>\n<p>Eu j\u00e1 estava envolvida com o tema, pois havia colaborado nos anos anteriores com a acolhida aos angolanos e tamb\u00e9m havia colaborado com a iniciativa de levantar a cl\u00e1usula da reserva geogr\u00e1fica no Brasil, alvo que alcan\u00e7amos em 1989.<\/p>\n<p>Eu j\u00e1 vivia com grande convic\u00e7\u00e3o o tema dos refugiados e a defesa de sua acolhida e prote\u00e7\u00e3o. Soma-se a isto tamb\u00e9m a Confer\u00eancia de Viena sobre Direitos Humanos (1993) e o governo brasileiro quis implementar com certa rapidez o I Plano nacional da Direitos Humanos, o qual foi lan\u00e7ado tamb\u00e9m no dia 13 de maio de 1996, junto com o encaminhamento ao Congresso do anteprojeto de lei sobre o estatuto dos refugiados.<\/p>\n<p>Neste contexto em que eu estava muito envolvida, n\u00e3o foi dif\u00edcil incorporar profundamente a proposta da primeira lei de refugiados do Brasil, em todo o seu conte\u00fado e enfrentar todos os desafios, buscando sua aprova\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong><em>H\u00e1 algum indiv\u00edduo espec\u00edfico \u2014 refugiados ou outros \u2014 que inspirou seu trabalho ou teve um impacto duradouro em voc\u00ea?<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A maior inspira\u00e7\u00e3o vem do hist\u00f3rico de nossa Congrega\u00e7\u00e3o, do fundador Scalabrini\u00a0 e de seus co-fundadores madre Assunta e padre Marchetti. Uma vez que havia decidido pertencer \u00e0 Congrega\u00e7\u00e3o das Scalabrinianas, a op\u00e7\u00e3o e o rumo da minha vida seria a fidelidade, o empenho para corresponder \u00e0quilo que sempre entendi como um chamado de Deus.<\/p>\n<p><em><strong>Quais qualidades ou caracter\u00edsticas pessoais s\u00e3o mais valiosas para ter sucesso no trabalho que voc\u00ea faz?<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Compromisso com a causa ou trabalho que assumo. Nada me abate diante disto;<br \/>\nF\u00e9 em Deus e a convic\u00e7\u00e3o de que esta \u00e9 a miss\u00e3o que Deus me deu.<br \/>\nResili\u00eancia;<br \/>\nBuscar sempre uma solu\u00e7\u00e3o para qualquer dificuldade, sendo transparente e buscar dialogar, sem renunciar ao fim principal.<\/p>\n<p><strong><em>Quais foram alguns dos maiores desafios que voc\u00ea enfrentou em sua vida e trabalho, e o que voc\u00ea aprendeu com eles?<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por princ\u00edpio, eu sempre acredito que enfrentar uma dificuldade, grande ou pequena, ou um desafio, ou mesmo passar por uma experi\u00eancia negativa, por um fracasso, tudo isto \u00e9 aprendizado. Quando sa\u00edmos de uma situa\u00e7\u00e3o dif\u00edcil, complexa ou mesmo frustrante, somos mais fortes do que o momento em que tivemos que enfrentar aquele desafio.<br \/>\nGrandes desafios que enfrentei:<br \/>\n&#8211; trabalhar na constru\u00e7\u00e3o de um hospital, \u00e1rea na qual eu n\u00e3o tinha experi\u00eancia e tampouco havia passado por qualquer m\u00ednima situa\u00e7\u00e3o de doen\u00e7a.<br \/>\n&#8211; Prestar assist\u00eancia a estrangeiros presos, ver as dif\u00edceis situa\u00e7\u00f5es em que se encontravam e respeitar ou encontrar uma solu\u00e7\u00e3o vi\u00e1vel, minimamente razo\u00e1vel, frente \u00e0s duras regras de assist\u00eancia num c\u00e1rcere, local de sofrimentos e de serias viola\u00e7\u00f5es de direitos&#8230;<\/p>\n<p><em><strong>9) Que li\u00e7\u00f5es voc\u00ea pode compartilhar do seu trabalho com governos e outras institui\u00e7\u00f5es sobre a melhor forma de defender os direitos e interesses dos refugiados?<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Optar sempre pela busca de solu\u00e7\u00f5es dialogadas, envolvendo os atores que t\u00eam responsabilidade ou atua\u00e7\u00e3o na causa;<\/p>\n<p>Levar aos \u00f3rg\u00e3os p\u00fablicos e outras institui\u00e7\u00f5es participantes em qualquer causa argumentos claros, transparentes sobre a dimens\u00e3o positiva, humana, humanit\u00e1ria que o tema envolve;<\/p>\n<p>Partir do princ\u00edpio da dignidade que todas as pessoas s\u00e3o portadoras, independentemente do local de nascimento, da cor, e da posi\u00e7\u00e3o social ou econ\u00f4mica.<\/p>\n<p><em><strong>O Brasil \u00e9 conhecido por suas pol\u00edticas e atitudes inclusivas em rela\u00e7\u00e3o aos refugiados. Quais voc\u00ea acredita serem as principais raz\u00f5es para isso e como voc\u00ea encorajaria outros pa\u00edses a adotar uma abordagem semelhante?<\/strong><\/em><\/p>\n<p>\u00c9 uma raridade no contexto internacional uma fala como a do Brasil.<\/p>\n<p>Com certeza o di\u00e1logo entre poder p\u00fablico e sociedade civil foi algo constante nestes anos.<\/p>\n<p>As legisla\u00e7\u00f5es s\u00e3o de vanguarda e garantistas, mas a implementa\u00e7\u00e3o ainda est\u00e1 distante. O discurso \u00e9 de garantia, mas existe ainda bastante precariedade, provisoriamente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Que outras mudan\u00e7as voc\u00ea gostaria de ver no Brasil e al\u00e9m em termos de pol\u00edticas e atitudes em rela\u00e7\u00e3o aos refugiados e como elas podem ser melhor alcan\u00e7adas?<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A legisla\u00e7\u00e3o \u00e9 um ponto importante, pois sem esta base a a\u00e7\u00e3o fica prejudicada. Existe uma legisla\u00e7\u00e3o garantista, mas as institui\u00e7\u00f5es ainda operam numa l\u00f3gica anterior (por exemplo o visto humanit\u00e1rio para afeg\u00e3os, pol\u00edtica migrat\u00f3ria&#8230;). As institui\u00e7\u00f5es ainda n\u00e3o operam para concretizar os princ\u00edpios das normas.<\/p>\n<p><em><strong>\u00a0O que lhe d\u00e1 mais satisfa\u00e7\u00e3o no seu trabalho e por qu\u00ea?<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ver as pessoas refugiadas em condi\u00e7\u00f5es de retomar uma trajet\u00f3ria de vida em seguran\u00e7a e com o apoio necess\u00e1rio para viver em condi\u00e7\u00f5es de dignidade humana.<\/p>\n<p><em><strong>O que voc\u00ea aprendeu sobre si mesma e outras pessoas ao longo de sua vida e trabalho?<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ser mais compreensiva com as pessoas que colaboram em nossas atividades e a quem se dedica a esta causa humanit\u00e1ria de acolher, apoiar e integrar refugiados;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Escutar um pouco mais do que falar, pois isto nunca foi uma caracter\u00edstica minha;<br \/>\nTentar entender e solidarizar-me com a complexidade do drama que vive uma pessoa refugiada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Creio que aprendi um pouco a ter considera\u00e7\u00e3o e n\u00e3o julgar as pessoas por suas falhas e eventuais erros.<\/p>\n<p><em><strong>Como voc\u00ea mant\u00e9m sua energia e motiva\u00e7\u00e3o e o que voc\u00ea faz para relaxar?<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o sei muito explicar a energia que tenho. Atribuo muito \u00e0 semelhan\u00e7a com minha m\u00e3e. Era uma mulher forte, generosa, muito decidida, que n\u00e3o se deixava abater por nada. O meu \u201crelaxar\u201d \u00e9 cuidar das plantas, das flores e dar comida e \u00e1gua aos passarinhos (que vivem livres, mas est\u00e3o acostumados a vir comer em locais onde colocamos alimenta\u00e7\u00e3o&#8230; n\u00e3o tenho p\u00e1ssaros presos).<\/p>\n<p><strong><em>Este ano comemoramos 40 anos da Declara\u00e7\u00e3o de Cartagena, voc\u00ea tem trabalhado para pessoas deslocadas todo esse tempo, como voc\u00ea acha que a declara\u00e7\u00e3o e os compromissos dos pa\u00edses com a declara\u00e7\u00e3o fizeram a diferen\u00e7a em seu trabalho?<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Declara\u00e7\u00e3o de Cartagena com certeza foi importante na amplia\u00e7\u00e3o normativa da prote\u00e7\u00e3o internacional dos direitos humanos dos refugiados. No caso da migra\u00e7\u00e3o venezuelana e outras migra\u00e7\u00f5es se tornou uma importante via de acesso \u00e0 documenta\u00e7\u00e3o quando as pessoas n\u00e3o se consideravam simplesmente &#8220;migrantes&#8221;. Numa palavra \u00e9 um importante instrumento normativo diante de fluxos mistos e a crescente complexidade do fen\u00f4meno migrat\u00f3rio e de suas causas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><strong>Estamos vendo deslocamentos por causa das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas e desastres. Como especialista em assist\u00eancia e prote\u00e7\u00e3o a refugiados, voc\u00ea poderia nos contar como as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas est\u00e3o mudando seu trabalho e a vida das pessoas para quem voc\u00ea trabalha? Voc\u00ea tem algum conselho para os governos sobre como abordar esses novos desafios?<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os deslocamentos decorrentes das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas est\u00e3o aumentando sempre mais. Fiquei impactado por alguns nigerianos que vieram para o Brasil por esta causa. Eram homens. E do outro lado estavam extremamente preocupados com as esposas que se encontravam na Nigeria, necessitando de apoio porque a seca n\u00e3o deixava sobreviver. Acredito que s\u00e3o importantes respostas que considerem os n\u00facleos familiares que n\u00e3o conseguiram se deslocar. Por exemplo criando canais para que as remessas possam chegar com menor taxas.<\/p>\n<p><strong>Conhe\u00e7a mais sobre a vida da religiosa em v\u00eddeo produzido pela Acnur\/ONU:<\/strong><\/p>\n<div class=\"ast-oembed-container\" style=\"height: 100%;\"><iframe loading=\"lazy\" title=\"Sister Rosita is the 2024 Nansen Refugee Award Global Laureate\" width=\"500\" height=\"281\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/o_r5_UAv-2o?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<pre>Por Willian Bonfim com informa\u00e7\u00f5es da Acnur e da irm\u00e3 Rosita Milesi<\/pre>\n<p><strong>Saiba mais:<\/strong><br \/>\n<a href=\"https:\/\/www.cnbb.org.br\/espaco-cedido-pela-cnbb-torna-se-casa-bom-samaritano-de-acolhida-de-migrantes-venezuelanos\/\">Espa\u00e7o cedido pela CNBB torna-se Casa Bom Samaritano de acolhida de migrantes venezuelanos &#8211; CNBB<\/a><br \/>\n<a href=\"https:\/\/www.cnbb.org.br\/secretario-geral-da-cnbb-dom-ricardo-hoepers-acolhe-coordenacao-da-rede-clamor-brasil\/\">Secret\u00e1rio-geral da CNBB, dom Ricardo Hoepers, acolhe coordena\u00e7\u00e3o da Rede Clamor Brasil &#8211; CNBB<\/a><br \/>\n<a href=\"https:\/\/www.cnbb.org.br\/renovacao-acolhida-migrantes-venezuelanos\/\">Projeto de acolhida a migrantes venezuelanos vai se estender por mais dois anos<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nesta quarta-feira, 9, foi oficialmente anunciado que religiosa Scalabriniana foi a escolhida para receber o Pr\u00eamio Nansen 2024, concedido pelo Alto Comissariado das Na\u00e7\u00f5es Unidas para Refugiados (ACNUR). O pr\u00eamio ser\u00e1 entregue em uma cerim\u00f4nia no dia 14 de outubro, em Genebra, na Su\u00ed\u00e7a.<\/p>\n","protected":false},"author":142,"featured_media":971860,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":""},"categories":[50,1],"tags":[5754,5753],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts\/971844"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/users\/142"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/comments?post=971844"}],"version-history":[{"count":20,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts\/971844\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":971895,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts\/971844\/revisions\/971895"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/media\/971860"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/media?parent=971844"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/categories?post=971844"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/tags?post=971844"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}