{"id":975935,"date":"2025-01-09T08:56:37","date_gmt":"2025-01-09T11:56:37","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/?p=975935"},"modified":"2025-01-09T08:57:23","modified_gmt":"2025-01-09T11:57:23","slug":"saudade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/saudade\/","title":{"rendered":"Saudade"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><strong>Dom Jo\u00e3o Santos Cardoso<br \/>\nArcebispo de Natal (RN)<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559731&quot;:567,&quot;335559739&quot;:0,&quot;335559740&quot;:240}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">\u201cSaudade\u201d \u00e9 um voc\u00e1bulo t\u00edpico da l\u00edngua portuguesa. Segundo Fernando Pessoa, \u201cSaudades, s\u00f3 portugueses conseguem senti-las bem. Porque t\u00eam essa palavra para dizer que as t\u00eam\u201d (PESSOA, F. Quadras ao Gosto Popular, 1965, p. 110). Considerada intraduz\u00edvel, a palavra &#8220;saudade&#8221; pode ser aproximada por termos de outras l\u00ednguas europeias que capturam aspectos de seu significado. O termo mais comum para traduzi-la \u00e9 \u201cnostalgia\u201d (espanhol, ingl\u00eas, italiano) ou \u201cnostalgie\u201d (alem\u00e3o e franc\u00eas). Embora \u201cnostalgia\u201d n\u00e3o abarque completamente o complexo conceito de &#8220;saudade&#8221;, reflete facetas desse sentimento, como o desejo, acompanhado de melancolia, tristeza e dor, de rever algo ou algu\u00e9m distante, ausente ou perdido.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559731&quot;:567,&quot;335559739&quot;:0,&quot;335559740&quot;:240}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">Entretanto, \u201cnostalgia\u201d n\u00e3o equivale a \u201csaudade\u201d. Esta possui uma profundidade e complexidade sem\u00e2ntica maior. Nem sempre a saudade est\u00e1 associada \u00e0 melancolia, tristeza e dor. Muitas vezes, ela permite tornar presente, mesmo que apenas na mem\u00f3ria, o que se foi, suprindo a aus\u00eancia de uma pessoa, lugar ou momento. A saudade alimenta a esperan\u00e7a e transforma-se em anseio por algo que, em muitos casos, n\u00e3o pode ser recuperado ou revivido, exceto na lembran\u00e7a e imagina\u00e7\u00e3o. Frequentemente, aponta para o passado ou para uma idealiza\u00e7\u00e3o de algo inalcan\u00e7\u00e1vel. A melancolia que pode acompanh\u00e1-la torna-se contemplativa, levando \u00e0 introspec\u00e7\u00e3o e \u00e0 valoriza\u00e7\u00e3o do vivido. Al\u00e9m disso, a saudade entrela\u00e7a mem\u00f3ria e amor, preservando momentos e rela\u00e7\u00f5es como eternos.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559731&quot;:567,&quot;335559739&quot;:0,&quot;335559740&quot;:240}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">Rubem Alves, em sua cr\u00f4nica \u201cComemorar, Recordar\u201d, define <\/span><i><span data-contrast=\"auto\">saudade<\/span><\/i><span data-contrast=\"auto\"> como \u201ca presen\u00e7a de uma aus\u00eancia\u201d, um elo que transcende a mera lembran\u00e7a: \u201cSaudade \u00e9 a inclina\u00e7\u00e3o da alma na dire\u00e7\u00e3o das coisas amadas que se perderam e continuam presentes como dor\u201d. Ele descreve a saudade como um sofrimento essencial para preservar a mem\u00f3ria do que foi amado, afirmando que o esquecimento seria uma trai\u00e7\u00e3o ao amor. Alves narra a hist\u00f3ria de um homem que, dilacerado pela perda, recusa a oferta dos deuses de esquecer sua amada, pois a dor mant\u00e9m viva sua mem\u00f3ria. Esse ato refor\u00e7a a ideia de que o sofrimento da saudade sustenta a presen\u00e7a simb\u00f3lica do que foi perdido. Assim, o sofrimento n\u00e3o \u00e9 um fardo a ser eliminado, mas parte essencial da experi\u00eancia de amar. Alves tamb\u00e9m explora a conex\u00e3o entre \u201ccomemorar\u201d e \u201crecordar\u201d, vinculando-as \u00e0 raiz latina \u201ccor\u201d (cora\u00e7\u00e3o), e ressalta que recordar vai al\u00e9m do exerc\u00edcio mental, envolvendo profundamente o ser nas mem\u00f3rias que tocam o cora\u00e7\u00e3o.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559731&quot;:567,&quot;335559739&quot;:0,&quot;335559740&quot;:240}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">Carlos Drummond de Andrade, em seu poema \u201cAus\u00eancia\u201d, aborda a saudade como um sentimento que transcende a perda: \u201cPor muito tempo achei que a aus\u00eancia \u00e9 falta. E lastimava, ignorante, a falta. Hoje n\u00e3o a lastimo. N\u00e3o h\u00e1 falta na aus\u00eancia. A aus\u00eancia \u00e9 um estar em mim.\u201d J\u00e1 M\u00e1rio Quintana, em tom lapidar, afirma: \u201cO passado n\u00e3o reconhece o seu lugar: est\u00e1 sempre presente.\u201d (Poesia Completa).<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559731&quot;:567,&quot;335559739&quot;:0,&quot;335559740&quot;:240}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">Florbela Espanca, em sua colet\u00e2nea Soror Saudade (1923), faz da saudade um tema central de sua po\u00e9tica, transformando-a em um elo entre o passado e o presente, entre o amor e a dor. No poema \u201cFanatismo\u201d, ela exprime: \u201cMinh\u2019alma, de sonhar-te, anda perdida, meus olhos andam cegos de te ver, n\u00e3o \u00e9 sequer a raiva de te perder, nem a saudade de jamais ser tida&#8230;\u201d Entretanto, para Florbela, a saudade n\u00e3o \u00e9 apenas a lembran\u00e7a do que se foi, mas um sentimento que preserva a vitalidade do que foi amado. Assim, a dor da saudade torna-se uma forma de eternizar o amor.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559731&quot;:567,&quot;335559739&quot;:0,&quot;335559740&quot;:240}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">Guimar\u00e3es Rosa, por sua vez, aborda a saudade como uma condi\u00e7\u00e3o existencial, um elo espiritual entre o ser humano e o cosmos. Para ele, a saudade n\u00e3o se limita \u00e0 perda, mas \u00e9 tamb\u00e9m uma experi\u00eancia de plenitude. Em seu livro Jo\u00e3o Guimar\u00e3es Rosa e a Saudade, Susana Kampff Lages explora essa complexidade, revelando como o autor transcende a dor e transforma a saudade em um estado de conex\u00e3o e transcend\u00eancia. Lages afirma que, na obra de Guimar\u00e3es Rosa, saudade \u00e9 um sentimento que une passado, presente e futuro, convidando o leitor a abra\u00e7ar as aus\u00eancias como parte essencial da experi\u00eancia humana.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559731&quot;:567,&quot;335559739&quot;:0,&quot;335559740&quot;:240}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">A saudade, al\u00e9m de seu aspecto emocional, possui uma dimens\u00e3o filos\u00f3fica e existencial. Remete ao eu partido, \u00e0 transcend\u00eancia e ao mist\u00e9rio, como expressa, de forma paradoxal, Fernando Pessoa em O Livro do Desassossego: \u201cAh, n\u00e3o h\u00e1 saudades mais dolorosas do que as das coisas que nunca foram!\u201d O anseio por algo inalcan\u00e7\u00e1vel reflete o desejo pelo para\u00edso perdido e pela plenitude do eterno. Assim, a saudade torna-se um sentimento que transcende o tempo, um elo entre o finito e o infinito.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559731&quot;:567,&quot;335559739&quot;:0,&quot;335559740&quot;:240}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">Independentemente da cultura ou idioma, a saudade manifesta a experi\u00eancia universal de sentir a falta de algo ou algu\u00e9m que permanece vivo na mem\u00f3ria e no cora\u00e7\u00e3o. Esse sentimento, que combina aus\u00eancia, desejo e introspec\u00e7\u00e3o, transcende fronteiras e se torna um elo entre passado, presente e futuro. Na po\u00e9tica de Florbela, na filosofia de Rubem Alves e na transcend\u00eancia de Guimar\u00e3es Rosa, vemos como a saudade \u00e9 capaz de unir dor e beleza, melancolia e esperan\u00e7a, tornando-se um dos sentimentos mais profundos e humanizadores da experi\u00eancia humana.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559731&quot;:567,&quot;335559739&quot;:0,&quot;335559740&quot;:240}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559731&quot;:567,&quot;335559739&quot;:0,&quot;335559740&quot;:240}\">\u00a0<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dom Jo\u00e3o Santos Cardoso Arcebispo de Natal (RN) \u00a0 \u201cSaudade\u201d \u00e9 um voc\u00e1bulo t\u00edpico da l\u00edngua portuguesa. Segundo Fernando Pessoa, \u201cSaudades, s\u00f3 portugueses conseguem senti-las bem. 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