{"id":978069,"date":"2025-02-28T08:49:13","date_gmt":"2025-02-28T11:49:13","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/?p=978069"},"modified":"2025-02-28T09:16:33","modified_gmt":"2025-02-28T12:16:33","slug":"amor-aos-inimigos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/amor-aos-inimigos\/","title":{"rendered":"Amor aos inimigos\u00a0"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><strong>Dom Jo\u00e3o Santos Cardoso<br \/>\nArcebispo de Natal (RN)<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559731&quot;:567,&quot;335559739&quot;:0,&quot;335559740&quot;:240}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">O mandamento do amor aos inimigos, ensinado por Jesus, \u00e9 um dos mais desafiadores e aparentemente paradoxais de sua mensagem: &#8220;Amai os vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam&#8221; (Lc 6,27). Assim nos ensina o Senhor, chamando-nos a transcender a l\u00f3gica humana da retribui\u00e7\u00e3o e do ressentimento. Mas como \u00e9 poss\u00edvel amar aqueles que nos prejudicaram, feriram, causaram-nos danos profundos e traum\u00e1ticos, decepcionaram-nos e tra\u00edram, ou mesmo aqueles que defendem valores e cren\u00e7as que nos parecem inaceit\u00e1veis?<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559731&quot;:567,&quot;335559739&quot;:0,&quot;335559740&quot;:240}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">Em seu livro, <\/span><i><span data-contrast=\"auto\">Quero que sejas<\/span><\/i><span data-contrast=\"auto\">, Hal\u00edk afirma que Jesus n\u00e3o exige uma mudan\u00e7a instant\u00e2nea de postura, mas sim uma decis\u00e3o consciente e progressiva de n\u00e3o alimentar a inimizade. Para ilustrar essa ideia, ele recorre a uma lenda chass\u00eddica: um homem, mesmo diante de grandes prova\u00e7\u00f5es, mantinha sua paz interior. Quando questionado sobre como conseguia permanecer sereno, respondeu: &#8220;Voc\u00eas devem estar falando com a pessoa errada. Nada sei daquilo que est\u00e3o dizendo; jamais aconteceu algo de ruim na minha vida.&#8221; Essa resposta n\u00e3o nega o sofrimento, mas revela uma escolha: a de n\u00e3o alimentar o ressentimento. Da mesma forma, a inimizade s\u00f3 persiste se for cultivada. Tanto a hostilidade quanto a amizade dependem da reciprocidade; quando recusamos nos vingar, a inimizade perde sua for\u00e7a e se dissolve.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559731&quot;:567,&quot;335559739&quot;:0,&quot;335559740&quot;:240}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">Hal\u00edk recorda outra hist\u00f3ria chass\u00eddica, contada por um rabino, que nos oferece uma chave valiosa para compreender o amor ao inimigo. Perguntado repetidamente sobre quando a noite termina e o dia come\u00e7a, o rabino respondeu: &#8220;A noite chega ao fim e o dia se inicia quando conseguimos olhar para o rosto de qualquer pessoa e reconhecer nela um irm\u00e3o ou uma irm\u00e3.&#8221; Enquanto enxergarmos os outros apenas como inimigos, permaneceremos imersos na escurid\u00e3o e no medo. \u00c9 necess\u00e1rio transformar nosso olhar, um processo de convers\u00e3o interior que nos permite superar a l\u00f3gica da hostilidade. Richard Kearney, fil\u00f3sofo irland\u00eas, tamb\u00e9m nos desafia ao propor que &#8220;olhemos nos olhos do monstro&#8221; e descubramos que ele n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o diferente de n\u00f3s. Esse exerc\u00edcio nos conduz \u00e0 humaniza\u00e7\u00e3o do inimigo, reconhecendo sua dignidade, evitando cair na tenta\u00e7\u00e3o de demoniz\u00e1-lo. Somente ao confrontarmos nossos pr\u00f3prios medos e proje\u00e7\u00f5es conseguiremos romper o ciclo da inimizade e abrir espa\u00e7o para a reconcilia\u00e7\u00e3o.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559731&quot;:567,&quot;335559739&quot;:0,&quot;335559740&quot;:240}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">A psicologia profunda de C.G. Jung complementa essa reflex\u00e3o ao mostrar que projetamos nos outros aquilo que n\u00e3o conseguimos aceitar em n\u00f3s mesmos. Muitas vezes, o que odiamos no inimigo s\u00e3o aspectos de nossa pr\u00f3pria sombra. Esse mecanismo nos impede de reconhecer nossas falhas e nos aprisiona em um ciclo de \u00f3dio. O amor ao inimigo exige um trabalho interior para tomar consci\u00eancia dessas sombras e desarmar a l\u00f3gica da inimizade.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559731&quot;:567,&quot;335559739&quot;:0,&quot;335559740&quot;:240}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">Jesus nos convida a perdoar, como recitamos no Pai-Nosso: <\/span><i><span data-contrast=\"auto\">&#8220;perdoa-nos as nossas ofensas, assim como perdoamos a quem nos tem ofendido&#8221;<\/span><\/i><span data-contrast=\"auto\">. Perdoar n\u00e3o \u00e9 um ato instant\u00e2neo, mas um processo que nos liberta do ressentimento. O perd\u00e3o n\u00e3o significa esquecer o mal sofrido ou ignorar a injusti\u00e7a, mas sim recusar-se a ser prisioneiro da m\u00e1goa e da vingan\u00e7a. Cristo nos d\u00e1 o exemplo supremo ao perdoar aqueles que o crucificaram: <\/span><i><span data-contrast=\"auto\">&#8220;Pai, perdoa-lhes, porque n\u00e3o sabem o que fazem&#8221;<\/span><\/i><span data-contrast=\"auto\"> (Lc 23, 34). Seu ensinamento nos desafia a romper o ciclo do \u00f3dio e a trilhar o caminho da reconcilia\u00e7\u00e3o. O amor ao inimigo exige um compromisso consciente de n\u00e3o alimentar a hostilidade. Somente assim deixamos de ser ref\u00e9ns das sombras que projetamos nos outros e nos tornamos verdadeiros instrumentos da paz.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559731&quot;:567,&quot;335559739&quot;:0,&quot;335559740&quot;:240}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">Jesus n\u00e3o apenas nos ordena a amar os inimigos, mas tamb\u00e9m nos convida a abandonar o esp\u00edrito da inimizade. Segundo Lucas (6,27-38), o amor ao inimigo n\u00e3o \u00e9 passividade diante da injusti\u00e7a, mas uma resposta ativa que rompe o ciclo da viol\u00eancia. <\/span><i><span data-contrast=\"auto\">&#8220;Oferecer a outra face&#8221;<\/span><\/i><span data-contrast=\"auto\"> n\u00e3o significa aceitar a agress\u00e3o, mas recusar-se a responder \u00e0 viol\u00eancia com mais viol\u00eancia, escolhendo um caminho de resist\u00eancia pac\u00edfica.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559731&quot;:567,&quot;335559739&quot;:0,&quot;335559740&quot;:240}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">O amor aos inimigos \u00e9 uma das exig\u00eancias mais radicais do Evangelho, pois nos desafia a transcender nossas rea\u00e7\u00f5es instintivas e nos convida a um amor incondicional, semelhante ao de Deus. Esse mandamento n\u00e3o apenas confronta nossas limita\u00e7\u00f5es humanas, mas tamb\u00e9m nos liberta do peso do ressentimento. Ele nos ensina que perdoar n\u00e3o \u00e9 esquecer, mas uma escolha consciente de n\u00e3o permitir que o mal defina nossa exist\u00eancia. Seguir esse caminho \u00e9 exigente, mas n\u00e3o imposs\u00edvel. Com a gra\u00e7a de Deus e a a\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito Santo, podemos aprender a amar de maneira aut\u00eantica, perdoar sem reservas e superar as barreiras da inimizade, tornando-nos verdadeiros instrumentos da reconcilia\u00e7\u00e3o e da paz.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559731&quot;:567,&quot;335559739&quot;:0,&quot;335559740&quot;:240}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559731&quot;:567,&quot;335559739&quot;:0,&quot;335559740&quot;:240}\">\u00a0<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dom Jo\u00e3o Santos Cardoso Arcebispo de Natal (RN) \u00a0 O mandamento do amor aos inimigos, ensinado por Jesus, \u00e9 um dos mais desafiadores e aparentemente paradoxais de sua mensagem: &#8220;Amai os vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam&#8221; (Lc 6,27). Assim nos ensina o Senhor, chamando-nos a transcender a l\u00f3gica humana da retribui\u00e7\u00e3o e &hellip;<\/p>\n<p class=\"read-more\"> <a class=\"\" href=\"https:\/\/www.cnbb.org.br\/amor-aos-inimigos\/\"> <span class=\"screen-reader-text\">Amor aos inimigos\u00a0<\/span> Leia mais &raquo;<\/a><\/p>\n","protected":false},"author":105,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":""},"categories":[758],"tags":[],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts\/978069"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/users\/105"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/comments?post=978069"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts\/978069\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":978070,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts\/978069\/revisions\/978070"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/media?parent=978069"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/categories?post=978069"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/tags?post=978069"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}