{"id":979703,"date":"2025-04-08T11:03:29","date_gmt":"2025-04-08T14:03:29","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/?p=979703"},"modified":"2025-04-08T11:04:47","modified_gmt":"2025-04-08T14:04:47","slug":"paixao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/paixao\/","title":{"rendered":"Paix\u00e3o\u00a0"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><strong>Dom Geraldo dos Reis Maia<br \/>\nBispo de Ara\u00e7ua\u00ed (MG)<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:3,&quot;335551620&quot;:3,&quot;335559731&quot;:708,&quot;335559740&quot;:259}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">O grande compositor alem\u00e3o <\/span><span data-contrast=\"auto\">Johann Sebastian Bach (1685-1750), dentre inumer\u00e1veis e bel\u00edssimas composi\u00e7\u00f5es, deixou-nos uma solene interpreta\u00e7\u00e3o da Paix\u00e3o de Jesus Cristo segundo Jo\u00e3o, intitulada simplesmente \u201c<\/span><i><span data-contrast=\"auto\">Johannespassion<\/span><\/i><span data-contrast=\"auto\">\u201d. O m\u00fasico comp\u00f4s sua obra \u00e0 base dos cap\u00edtulos 18 e 19 do IV Evangelho, extra\u00eddos da tradu\u00e7\u00e3o luterana, introduzindo textos po\u00e9ticos, em forma de coment\u00e1rios, de Barthold Heinrich Brockes, contidos no hin\u00e1rio luterano. A estreia da obra se deu em grande estilo na igreja de S\u00e3o Nicolau, em Leipzig, na Sexta-feira Santa, 07 de Abril de 1724.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559740&quot;:259}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">Al\u00e9m da orquestra, coro e vozes principais, tenor, baixo, soprano e contralto, Bach acrescentou um grande coral para interpretar a participa\u00e7\u00e3o do povo na tr\u00e1gica narrativa da Paix\u00e3o de Jesus Cristo. Este exuberante conjunto musical manifesta a grandiosidade do ato cantado em estilo barroco. A musicalidade da\u00ed emanada transporta o ouvinte a uma profunda reflex\u00e3o e espiritualidade. Os textos po\u00e9ticos, intercalados nas per\u00edcopes do IV Evangelho, ajudam nesta reflex\u00e3o e fazem resplandecer a beleza da narrativa joanina. Apresentaremos, a seguir, tr\u00eas destes textos de Brockes.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559740&quot;:259}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">O primeiro deles precede a per\u00edcope de Jo 18,1-14. Trata-se de um intr\u00f3ito a toda a narrativa que se segue. Em grande estilo, o coro brada: \u201cSenhor, nosso Redentor, a cuja gl\u00f3ria em toda a terra \u00e9 senhora, mostra-nos, atrav\u00e9s da tua paix\u00e3o, que tu, verdadeiro Filho de Deus, por todos os tempos, at\u00e9 na maior humilha\u00e7\u00e3o, foste glorificado\u201d. Trata-se de um \u201caperitivo\u201d ao que se vai ouvir e assistir a seguir: o drama da Paix\u00e3o, desde o Jardim do Gets\u00eamani, at\u00e9 o Jardim do G\u00f3lgota.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559740&quot;:259}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">Bem mais \u00e0 frente, ap\u00f3s a apresenta\u00e7\u00e3o da \u00e1ria n\u00famero 30, \u201cTudo est\u00e1 consumado!\u201d, entra a narrativa do tenor a anunciar \u201ce inclinando a cabe\u00e7a, entregou o Esp\u00edrito\u201d. Da\u00ed tem in\u00edcio a segunda refer\u00eancia que desejamos apresentar, comentando a morte de Jesus. Dirigindo-se a Jesus crucificado, o baixo lhe interroga, em magn\u00edfico mon\u00f3logo: \u201cMeu amado Salvador, deixa que te pergunte: agora que foste crucificado e dito \u2018Tudo est\u00e1 consumado!\u2019, sou eu livre da morte? Posso, pelo teu sofrimento e morte, herdar o reino dos c\u00e9us? Todo o mundo foi salvo? Certo, tu n\u00e3o podes responder por causa de tuas dores, mas inclina a cabe\u00e7a e diga em sil\u00eancio: \u2018Sim\u2019\u201d.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559740&quot;:259}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">Por fim, a \u00faltima refer\u00eancia que aqui trago \u00e9 do <\/span><i><span data-contrast=\"auto\">gran finale<\/span><\/i><span data-contrast=\"auto\"> da apresenta\u00e7\u00e3o. Ap\u00f3s a recita\u00e7\u00e3o do \u00faltimo texto joanino, 19,38-42, o coro entoa uma esp\u00e9cie de <\/span><i><span data-contrast=\"auto\">requiem<\/span><\/i><span data-contrast=\"auto\">, embalando o descanso do Senhor. Da\u00ed entra o coral, que assume a voz de todo o povo, aclamando em ora\u00e7\u00e3o: \u201cAh, Senhor, deixa que os teus doces anjos, no \u00faltimo instante da vida, portem ao seio de Abra\u00e3o o meu esp\u00edrito; que o corpo, na sua c\u00e2mera, bem docemente, sem pena e tormento, repouse at\u00e9 o dia nov\u00edssimo. Ent\u00e3o, acorda-me da morte, que os meus olhos possam contemplar-te na plena gl\u00f3ria, \u00f3 Filho de Deus, meu Salvador e trono de gra\u00e7a! Senhor Jesus Cristo, ouve-me: eu desejo louvar-te eternamente!\u201d<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559740&quot;:259}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">A obra retrata a teologia pr\u00f3pria que emana do barroco. Mesmo n\u00e3o sendo uma teologia atual, \u00e0 luz do Conc\u00edlio Vaticano II, a beleza po\u00e9tica dos coment\u00e1rios de <\/span><span data-contrast=\"auto\">Brockes,<\/span><span data-contrast=\"auto\"> alinhavados ao texto joanino, e a riqueza da m\u00fasica de Bach nos fazem vislumbrar a beleza da arte inspirada no cristianismo que, por sua parte, manifesta a beleza da salva\u00e7\u00e3o da humanidade.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559740&quot;:259}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">O fil\u00f3sofo alem\u00e3o Schopenhauer (1878-1860) entendeu a arte como ant\u00eddoto ao pessimismo. A contempla\u00e7\u00e3o est\u00e9tica nos salva do sofrimento e da dor do mundo (<\/span><i><span data-contrast=\"auto\">O mundo como vontade e representa\u00e7\u00e3o,<\/span><\/i><span data-contrast=\"auto\">\u202fR,J.: Contraponto, 2007, \u00a734). Nietzsche (1844-1900), igualmente fil\u00f3sofo e alem\u00e3o, entendeu a arte como \u201c\u00fanica for\u00e7a contr\u00e1ria superior, em oposi\u00e7\u00e3o a toda vontade de nega\u00e7\u00e3o da vida\u201d. Segundo ele, \u201ca arte tem mais valor do que a verdade\u201d (<\/span><i><span data-contrast=\"auto\">A vontade de poder<\/span><\/i><span data-contrast=\"auto\">, R,J.: Contraponto, 2008, \u00a7 853, 2.4). Dostoievski (1821-1881), um dos g\u00eanios da literatura russa, descreveu uma certa beleza que salva o mundo: \u201c\u00c9 verdade que o pr\u00edncipe disse, uma vez, que a \u2018beleza\u2019 salvaria o mundo? Meus senhores \u2013 gritou bem alto \u2013, o pr\u00edncipe afirma que a beleza salvar\u00e1 o mundo! [,,,] Que beleza salvar\u00e1 o mundo? (<\/span><i><span data-contrast=\"auto\">O Idiota<\/span><\/i><span data-contrast=\"auto\">, Portugal: Presen\u00e7a, 2001, p\u00e1g. 396).<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559740&quot;:259}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">A beleza que salva o mundo \u00e9 a beleza da solidariedade, no seguimento incondicional a Jesus Cristo. Bonhoeffer (1906-1945) foi um pastor luterano alem\u00e3o, preso no campo de concentra\u00e7\u00e3o nazista de Flossenburg. Ele<\/span> <span data-contrast=\"auto\">foi capaz de\u202fouvir a dor do mundo\u202fe se colocar nela numa entrega que n\u00e3o foi em v\u00e3o. Segue o testemunho do m\u00e9dico que assistiu sua execu\u00e7\u00e3o: \u201cPela porta entreaberta de um quarto, no acampamento, eu vi, antes que os condenados fossem despidos, o pastor Bonhoeffer de joelhos diante de seu Deus em uma intensa ora\u00e7\u00e3o. A maneira perfeitamente submissa e certa de ser atendida com que esse homem extraordinariamente simp\u00e1tico orava me emocionou profundamente. No local da execu\u00e7\u00e3o, ele orou novamente e depois subiu corajosamente os degraus do pat\u00edbulo. A sua morte ocorreu em alguns segundos. Em cinquenta anos de pr\u00e1tica, jamais vi um homem morrer t\u00e3o completamente nas m\u00e3os de Deus. (D. Rance, <\/span><i><span data-contrast=\"auto\">Un si\u00e8cle de tem\u00f3ins<\/span><\/i><span data-contrast=\"auto\">. Paris: Fayard-Le Sarment, 2000).<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559740&quot;:259}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">A dor do mundo e o drama da exist\u00eancia assolam as consci\u00eancias mais sens\u00edveis e fazem sofrer tamb\u00e9m os miser\u00e1veis da hist\u00f3ria. \u00c9 com esses miser\u00e1veis que Jesus Cristo se identifica na dor de sua Paix\u00e3o. O dram\u00e1tico Gets\u00eamani, seguido pelo G\u00f3lgota, \u00e9 representativo da condi\u00e7\u00e3o humana. Bem profetizou Isa\u00edas: \u201cFoi desprezado como o \u00faltimo dos homens, homem de dores, experimentado no sofrimento [&#8230;]. Entretando, ele assumiu as nossas fraquezas, e as nossas dores, ele as suportou\u201d (Is 53,3-4). Na boca de Pilatos encontramos a express\u00e3o que une antropologia e cristologia: \u201cEis o homem\u201d (Jo 19,5b). Nele se v\u00ea estampar a beleza que salva o mundo: a beleza da solidariedade de um Deus que se faz humano e assume suas dores e sofrimentos para abrir novo horizonte de esperan\u00e7a, travessia para a P\u00e1scoa da Ressurrei\u00e7\u00e3o.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559740&quot;:259}\">\u00a0<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dom Geraldo dos Reis Maia Bispo de Ara\u00e7ua\u00ed (MG) \u00a0 O grande compositor alem\u00e3o Johann Sebastian Bach (1685-1750), dentre inumer\u00e1veis e bel\u00edssimas composi\u00e7\u00f5es, deixou-nos uma solene interpreta\u00e7\u00e3o da Paix\u00e3o de Jesus Cristo segundo Jo\u00e3o, intitulada simplesmente \u201cJohannespassion\u201d. 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