{"id":982652,"date":"2025-05-29T13:07:31","date_gmt":"2025-05-29T16:07:31","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/?p=982652"},"modified":"2025-05-29T13:08:13","modified_gmt":"2025-05-29T16:08:13","slug":"nele-vivemos-nos-movemos-e-existimos-atos-1728","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/nele-vivemos-nos-movemos-e-existimos-atos-1728\/","title":{"rendered":"\u201cNele vivemos, nos movemos e existimos\u201d (Atos 17,28)\u00a0"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><strong>Dom Jo\u00e3o Santos Cardoso<br \/>\nArcebispo de Natal (RN)<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559731&quot;:567,&quot;335559739&quot;:0,&quot;335559740&quot;:240}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">O discurso de Paulo no Are\u00f3pago de Atenas (Atos 17,15.22-18,1) \u00e9 um exemplo not\u00e1vel do di\u00e1logo entre a f\u00e9 crist\u00e3 e a racionalidade filos\u00f3fica. Ao percorrer a cidade de Atenas, impressionado pela religiosidade dos atenienses, que inclusive haviam erigido um altar ao \u201cDeus desconhecido\u201d, Paulo aproveita essa abertura para inculturar o Evangelho, proclamando o Deus verdadeiro que n\u00e3o habita em templos feitos por m\u00e3os humanas e que deseja ser conhecido por todos.\u00a0<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559731&quot;:567,&quot;335559739&quot;:0,&quot;335559740&quot;:240}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">Em seu discurso, Paulo pronuncia uma\u00a0 frase de grande profundidade: \u201cNele vivemos, nos movemos e existimos\u201d (At 17,28). Essa express\u00e3o ressoa como um eco da busca filos\u00f3fica dos gregos pelo princ\u00edpio (arch\u00e9), a realidade \u00faltima, o fundamento, a subst\u00e2ncia prim\u00e1ria que sustenta todas as coisas. Desde os pr\u00e9-socr\u00e1ticos, como Thales de Mileto, Anaximandro e Anax\u00edmenes, essa busca foi central: descobrir a subst\u00e2ncia na qual tudo subsiste. Esses primeiros fil\u00f3sofos naturalistas identificaram o princ\u00edpio em elementos materiais \u2013 \u00e1gua, ar, fogo \u2013 ou em conceitos abstratos, como o \u201cindeterminado\u201d de Anaximandro, ou a harmonia de contr\u00e1rios, como em Her\u00e1clito. Mais tarde, Plat\u00e3o localizaria esse princ\u00edpio fora do mundo sens\u00edvel, nas ideias perfeitas, as formas transcendentais que moldam toda a realidade.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559731&quot;:567,&quot;335559739&quot;:0,&quot;335559740&quot;:240}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">Paulo, atento a esse pano de fundo filos\u00f3fico, faz algo not\u00e1vel: retoma essa tradi\u00e7\u00e3o de busca pela origem e fundamento, mas a eleva a uma dimens\u00e3o pessoal e relacional. Ele afirma que esse princ\u00edpio n\u00e3o \u00e9 uma for\u00e7a cega ou um conceito abstrato. N\u00e3o se trata de um elemento natural, nem de uma forma ideal que paira acima da mat\u00e9ria, mas de um Deus vivo, pessoal e relacional,$ que nos envolve e nos sustenta em nossa exist\u00eancia concreta. Esse Deus, \u201cno qual vivemos, nos movemos e existimos\u201d, n\u00e3o \u00e9 apenas o fundamento impessoal de tudo, mas o Criador que deseja um relacionamento de amor com cada pessoa.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559731&quot;:567,&quot;335559739&quot;:0,&quot;335559740&quot;:240}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">A riqueza da mensagem de Paulo est\u00e1 em sua universalidade: tudo e todos existem porque Deus sustenta a vida. Esse Deus n\u00e3o se reduz \u00e0 religi\u00e3o mitol\u00f3gica, como a elaborada mitologia grega, com seus deuses esculpidos em ouro, prata ou pedra, nem se deixa aprisionar pelos esquemas filos\u00f3ficos, por mais elevados que sejam. Ele transcende qualquer representa\u00e7\u00e3o ou teoria, mas est\u00e1, ao mesmo tempo, pr\u00f3ximo de cada pessoa. Somos \u201cda ra\u00e7a do pr\u00f3prio Deus\u201d (cf. At 17, 28), como cita Paulo, mencionando poetas gregos, e indicando que nosso ser e nosso movimento t\u00eam origem e sentido n\u2019Ele.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559731&quot;:567,&quot;335559739&quot;:0,&quot;335559740&quot;:240}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">No entanto, Paulo n\u00e3o obt\u00e9m grandes resultados no Are\u00f3pago. Seu discurso, embora refinado e adaptado ao contexto filos\u00f3fico de Atenas, encontra pouco acolhimento. Alguns zombam ao ouvir falar de ressurrei\u00e7\u00e3o; outros apenas adiam o interesse para ouvi-lo em \u201coutra ocasi\u00e3o\u201d. Apenas alguns \u2013 como Dion\u00edsio, o areopagita, e D\u00e2maris \u2013 se unem a ele e abra\u00e7am a f\u00e9. Por que essa mensagem t\u00e3o densa e bela n\u00e3o encontrou eco naquele ambiente intelectual?<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559731&quot;:567,&quot;335559739&quot;:0,&quot;335559740&quot;:240}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">Isso nos ensina que a verdade de Cristo n\u00e3o se reduz a um discurso te\u00f3rico, por mais eloquente ou inteligente que seja. Paulo, mesmo dominando as categorias filos\u00f3ficas, percebe que a f\u00e9 crist\u00e3 vai al\u00e9m da especula\u00e7\u00e3o racional: ela \u00e9 um encontro vivo com uma pessoa, o Cristo Ressuscitado. Por isso, a proclama\u00e7\u00e3o do Evangelho n\u00e3o depende apenas de argumentos s\u00f3lidos, mas do testemunho de uma vida transformada pelo encontro com Cristo e de um cora\u00e7\u00e3o que arde de amor por Aquele que nos amou primeiro.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559731&quot;:567,&quot;335559739&quot;:0,&quot;335559740&quot;:240}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">Assim, \u201cnele vivemos, nos movemos e existimos\u201d constitui um convite permanente para estabelecermos uma rela\u00e7\u00e3o pessoal com Deus, que nos envolve e nos chama a viver em comunh\u00e3o com Ele. Essa experi\u00eancia n\u00e3o \u00e9 meramente te\u00f3rica, mas existencial. Nossa vida s\u00f3 encontra sentido pleno quando reconhecemos, n\u00e3o um princ\u00edpio abstrato ou natural, mas quando entramos em rela\u00e7\u00e3o com o Deus vivo e verdadeiro, revelado em Jesus Cristo, que deseja conduzir cada um ao arrependimento, ao amor e \u00e0 vida nova. Essa mensagem transcende qualquer teoria e se faz verdade no encontro pessoal com o Senhor. Nele respiramos, nos movemos, existimos e somos: eis o princ\u00edpio e o fim de nossa vida.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559731&quot;:567,&quot;335559739&quot;:0,&quot;335559740&quot;:240}\">\u00a0<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dom Jo\u00e3o Santos Cardoso Arcebispo de Natal (RN) \u00a0 O discurso de Paulo no Are\u00f3pago de Atenas (Atos 17,15.22-18,1) \u00e9 um exemplo not\u00e1vel do di\u00e1logo entre a f\u00e9 crist\u00e3 e a racionalidade filos\u00f3fica. 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