{"id":985595,"date":"2025-07-04T09:17:17","date_gmt":"2025-07-04T12:17:17","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/?p=985595"},"modified":"2025-07-04T09:20:17","modified_gmt":"2025-07-04T12:20:17","slug":"o-tempo-em-santo-agostinho-entre-a-eternidade-de-deus-e-a-fragmentacao-humana","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/o-tempo-em-santo-agostinho-entre-a-eternidade-de-deus-e-a-fragmentacao-humana\/","title":{"rendered":"O tempo em Santo Agostinho: entre a eternidade de Deus e a fragmenta\u00e7\u00e3o humana\u00a0"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><strong>Dom Jo\u00e3o Santos Cardoso\u00a0<\/strong><br \/>\n<strong>Arcebispo de Natal (RN)<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559731&quot;:567,&quot;335559739&quot;:0,&quot;335559740&quot;:240}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">A pergunta provocativa \u2014 \u201cQue fazia Deus antes de criar o c\u00e9u e a terra?\u201d \u2014 introduz, no Livro XI das <\/span><i><span data-contrast=\"auto\">Confiss\u00f5es<\/span><\/i><span data-contrast=\"auto\"> de Santo Agostinho, uma das mais belas e profundas medita\u00e7\u00f5es j\u00e1 feitas sobre o tempo. Longe de ser uma curiosidade irrelevante ou uma especula\u00e7\u00e3o vazia, diante da qual se poderia responder jocosamente, como ele mesmo ironiza \u2014 \u201cPreparava o inferno para os que perscrutam esses mist\u00e9rios profundos\u201d (<\/span><i><span data-contrast=\"auto\">Confiss\u00f5es<\/span><\/i><span data-contrast=\"auto\">, XI, 12) \u2014 trata-se, na verdade, de uma interroga\u00e7\u00e3o existencial sincera, nascida do desejo de compreender a pr\u00f3pria condi\u00e7\u00e3o humana \u00e0 luz da f\u00e9.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559731&quot;:567,&quot;335559739&quot;:0,&quot;335559740&quot;:240}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">Recusando as respostas simplistas, Agostinho confessa: <\/span><i><span data-contrast=\"auto\">n\u00e3o sei<\/span><\/i><span data-contrast=\"auto\">. Mas logo afirma algo essencial: antes da cria\u00e7\u00e3o, n\u00e3o havia tempo, pois o pr\u00f3prio tempo \u00e9 criatura de Deus. \u201cN\u00e3o houve, pois, tempo algum em que nada fizesses, pois fizeste o pr\u00f3prio tempo\u201d (<\/span><i><span data-contrast=\"auto\">Confiss\u00f5es<\/span><\/i><span data-contrast=\"auto\">, XI, 14). Com essa afirma\u00e7\u00e3o, Agostinho nos convida a reconhecer que o tempo n\u00e3o \u00e9 eterno, apenas Deus o \u00e9. E se Deus \u00e9 eterno, \u00e9 porque nele n\u00e3o h\u00e1 sucess\u00e3o de instantes, nem come\u00e7o ou fim. Tudo o que para n\u00f3s \u00e9 passado, presente ou futuro, em Deus \u00e9 um eterno presente. \u201cTeu hoje \u00e9 a eternidade\u201d (<\/span><i><span data-contrast=\"auto\">Confiss\u00f5es<\/span><\/i><span data-contrast=\"auto\">, XI, 13), afirma ele, com a for\u00e7a de quem contempla esse mist\u00e9rio com rever\u00eancia e assombro. A eternidade divina n\u00e3o se mede, n\u00e3o se divide, n\u00e3o se conta; nela tudo \u00e9, tudo permanece, tudo est\u00e1 presente.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559731&quot;:567,&quot;335559739&quot;:0,&quot;335559740&quot;:240}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">Essa reflex\u00e3o se mostra atual em nossa cultura, marcada por um paradoxo profundo: nunca se correu tanto e nunca se sentiu tanto cansa\u00e7o, dispers\u00e3o e t\u00e9dio. Vivemos como fugitivos do pr\u00f3prio tempo. As agendas est\u00e3o lotadas, os compromissos se sobrep\u00f5em e o tempo escorre por entre os dedos. H\u00e1 quem se sinta oprimido pela pressa; outros, esmagados pelo vazio, pelo tempo ocioso e sem sentido. O tempo, que deveria ser dom, tornou-se fardo.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559731&quot;:567,&quot;335559739&quot;:0,&quot;335559740&quot;:240}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">Essa experi\u00eancia de inquieta\u00e7\u00e3o diante do tempo j\u00e1 habitava o cora\u00e7\u00e3o de Agostinho. \u201cQue \u00e9, pois, o tempo? Se ningu\u00e9m me pergunta, eu sei; mas se quiser explicar, j\u00e1 n\u00e3o sei\u201d (Confiss\u00f5es, XI, 14). A c\u00e9lebre frase n\u00e3o expressa ignor\u00e2ncia, mas sabedoria: o tempo \u00e9 familiar a todos n\u00f3s, mas nos escapa quando tentamos traduzi-lo em conceitos. Para Agostinho, o tempo n\u00e3o \u00e9 uma entidade f\u00edsica mensur\u00e1vel em si mesma, mas uma experi\u00eancia da alma. Ele est\u00e1 no interior do ser humano, como uma tens\u00e3o entre o que foi, o que \u00e9 e o que ainda vir\u00e1. Por isso, Agostinho distingue o presente do passado (mem\u00f3ria), o presente do presente (aten\u00e7\u00e3o) e o presente do futuro (expectativa).<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559731&quot;:567,&quot;335559739&quot;:0,&quot;335559740&quot;:240}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">Ao refletir sobre o tempo, Agostinho distingue claramente entre a eternidade divina e a temporalidade humana. Deus \u00e9 eterno, imut\u00e1vel, pleno. N\u00f3s somos temporais, inst\u00e1veis, limitados. Deus n\u00e3o espera, n\u00e3o come\u00e7a nem termina. Ele simplesmente \u00e9. Perguntar o que Deus fazia &#8216;antes&#8217; de criar o mundo \u00e9 um erro conceitual, pois o &#8216;antes&#8217; s\u00f3 faz sentido dentro do tempo, e este s\u00f3 come\u00e7ou quando Deus criou todas as coisas. O tempo, o espa\u00e7o e todas as criaturas foram criados por Deus. Ele est\u00e1 fora do tempo, mas entra nele por amor, por meio da Encarna\u00e7\u00e3o do Verbo. O Eterno fez-se tempo e, por isso, o tempo foi redimido.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559731&quot;:567,&quot;335559739&quot;:0,&quot;335559740&quot;:240}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">Embora Agostinho n\u00e3o utilize os termos gregos <\/span><i><span data-contrast=\"auto\">chronos<\/span><\/i><span data-contrast=\"auto\"> e <\/span><i><span data-contrast=\"auto\">kair\u00f3s<\/span><\/i><span data-contrast=\"auto\">, sua teologia nos ajuda a compreend\u00ea-los com clareza. <\/span><i><span data-contrast=\"auto\">Chronos<\/span><\/i><span data-contrast=\"auto\"> \u00e9 o tempo cronol\u00f3gico, linear, o tempo dos rel\u00f3gios e calend\u00e1rios. J\u00e1 <\/span><i><span data-contrast=\"auto\">kair\u00f3s<\/span><\/i><span data-contrast=\"auto\"> \u00e9 o tempo oportuno, o instante carregado de sentido, o momento da gra\u00e7a. Quando Agostinho suplica: \u201cConcede-me o tempo para meditar nos mist\u00e9rios de tua lei [&#8230;] tua palavra \u00e9 minha alegria\u201d (Confiss\u00f5es, XI, 2), ele n\u00e3o est\u00e1 pedindo mais horas no dia, mas um tempo novo, um tempo pleno, fecundado pela presen\u00e7a de Deus. Trata-se de transformar o tempo comum em tempo habitado, em tempo de salva\u00e7\u00e3o.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559731&quot;:567,&quot;335559739&quot;:0,&quot;335559740&quot;:240}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">Essa vis\u00e3o agostiniana do tempo como dom e espa\u00e7o de encontro com o Eterno nos interpela profundamente. Vivemos em uma cultura que perdeu a capacidade de esperar, de contemplar, de simplesmente estar. Falta tempo para Deus, para os outros, para si mesmo. Refletir sobre o tempo, nesse contexto, n\u00e3o \u00e9 evas\u00e3o, mas resist\u00eancia. \u00c9 uma forma de resgatar o sentido da vida. O tempo, vivido com sabedoria, torna-se lugar de comunh\u00e3o, espa\u00e7o de gra\u00e7a, escola de paci\u00eancia.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559731&quot;:567,&quot;335559739&quot;:0,&quot;335559740&quot;:240}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">As implica\u00e7\u00f5es dessa vis\u00e3o s\u00e3o m\u00faltiplas. Teologicamente, ela nos lembra que Deus, eterno, n\u00e3o apenas criou o tempo, mas quis entrar nele para salv\u00e1-lo. O tempo \u00e9, portanto, o lugar da revela\u00e7\u00e3o e da salva\u00e7\u00e3o. Espiritualmente, somos convidados a habitar o tempo com profundidade, aten\u00e7\u00e3o e gratid\u00e3o. Cada instante pode ser <\/span><i><span data-contrast=\"auto\">kair\u00f3s<\/span><\/i><span data-contrast=\"auto\">, um tempo favor\u00e1vel, uma visita da gra\u00e7a. E pastoralmente, h\u00e1 urg\u00eancia de uma aut\u00eantica pedagogia do tempo. Precisamos redescobrir o valor do descanso, da altern\u00e2ncia entre a\u00e7\u00e3o e contempla\u00e7\u00e3o, do domingo como dia do Senhor. A administra\u00e7\u00e3o do tempo se tornou um desafio pastoral. N\u00e3o basta ensinar a fazer mais coisas em menos tempo, \u00e9 preciso aprender a viver com mais sentido e menos pressa.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559731&quot;:567,&quot;335559739&quot;:0,&quot;335559740&quot;:240}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">O tempo pode ser opressor quando mal vivido, mas torna-se libertador quando habitado com f\u00e9. Agostinho nos ensina que o tempo n\u00e3o \u00e9 condena\u00e7\u00e3o, mas caminho. Somos peregrinos do tempo, destinados \u00e0 eternidade. Quando vivemos o presente com f\u00e9 e amor, j\u00e1 tocamos, em parte, o eterno. Em Cristo, o eterno entrou no tempo para transfigur\u00e1-lo. Viver bem o tempo \u00e9 preparar-se para a eternidade. \u00c9 permitir que a esperan\u00e7a nos modele. \u00c9 compreender que at\u00e9 mesmo os instantes mais dif\u00edceis podem ser sagrados. E quando nos sentimos dispersos, vazios ou perdidos, resta-nos a ora\u00e7\u00e3o que resume toda a vida de Agostinho: \u201cFizeste-nos para Ti, Senhor, e o nosso cora\u00e7\u00e3o est\u00e1 inquieto enquanto n\u00e3o repousa em Ti\u201d (<\/span><i><span data-contrast=\"auto\">Confiss\u00f5es<\/span><\/i><span data-contrast=\"auto\">, I, 1).<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559731&quot;:567,&quot;335559739&quot;:0,&quot;335559740&quot;:240}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559731&quot;:567,&quot;335559739&quot;:0,&quot;335559740&quot;:240}\">\u00a0<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dom Jo\u00e3o Santos Cardoso\u00a0 Arcebispo de Natal (RN) &nbsp; \u00a0 A pergunta provocativa \u2014 \u201cQue fazia Deus antes de criar o c\u00e9u e a terra?\u201d \u2014 introduz, no Livro XI das Confiss\u00f5es de Santo Agostinho, uma das mais belas e profundas medita\u00e7\u00f5es j\u00e1 feitas sobre o tempo. 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