{"id":986301,"date":"2025-07-21T09:50:41","date_gmt":"2025-07-21T12:50:41","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/?p=986301"},"modified":"2025-07-21T09:53:30","modified_gmt":"2025-07-21T12:53:30","slug":"conflitos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/conflitos\/","title":{"rendered":"Conflitos\u00a0"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><strong>Dom Geraldo dos Reis Maia<br \/>\nBispo de Ara\u00e7ua\u00ed (MG)<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-ccp-props=\"{&quot;335551550&quot;:3,&quot;335551620&quot;:3}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">A povoa\u00e7\u00e3o no Vale do Jequitinhonha se iniciou com conflitos. Como nos relatam M\u00e1rio Ferreira e Dostoievsky Brasil, na obra \u201cTempo, cultura e espa\u00e7o \u2013 Notas sobre Ara\u00e7ua\u00ed\u201d (S\u00e3o Paulo: Dial\u00e9tica, 2024), essa povoa\u00e7\u00e3o \u201c\u00e9 marcada historicamente por encontros nem sempre harmoniosos\u201d. Tais encontros \u201cse configuravam muitas vezes como saques, opress\u00e3o, coisifica\u00e7\u00e3o dos sujeitos, estupros, que n\u00e3o reconhecem no outro tra\u00e7o algum de humanidade\u201d (2024, 20). H\u00e1 registros de v\u00e1rios povos ind\u00edgenas que habitavam essa regi\u00e3o ou por ela passavam como n\u00f4mades, especialmente os Borum, Maxacali e Macuni. Os que n\u00e3o foram dizimados, foram desconfigurados culturalmente.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559731&quot;:708}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">Para essa regi\u00e3o, foram trazidos os escravizados negros pelo sistema colonial. \u201cAs pessoas negras escravizadas nesta regi\u00e3o foram distribu\u00eddas como coisas em fazendas de coron\u00e9is ou latifundi\u00e1rios\u201d (2024, p. 30). H\u00e1 registros de que, em 1874, haviam 3.148 escravizados no munic\u00edpio de Ara\u00e7ua\u00ed e, em 1885, o n\u00famero cai para 2.832. Tal diminui\u00e7\u00e3o gradual dos escravizados deu-se mais por causa mortis que por processo de alforria (id., p. 32). Da\u00ed a origem de as comunidades quilombolas serem t\u00e3o presentes na regi\u00e3o.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559731&quot;:708}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">Continuam os historiadores: \u201cAs lutas pela liberdade de escravizados, juridicamente libertos pela lei \u00e1urea em 1888, que liberta o estado servil, n\u00e3o garantiram direitos ou repara\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica. As comunidades de remanescentes quilombolas no territ\u00f3rio de Ara\u00e7ua\u00ed s\u00e3o o retrato daqueles que conseguiram passar pelo s\u00e9culo XX, resistindo pela manuten\u00e7\u00e3o do \u2018sonho da liberdade\u2019 almejado pelos antepassados\u201d (id., p. 32).<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559731&quot;:708}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">Essas duas abordagens s\u00e3o paradigm\u00e1ticas para retratar a realidade de todo o Vale do Jequitinhonha, guardadas as devidas propor\u00e7\u00f5es em partes espec\u00edficas da regi\u00e3o. A viol\u00eancia dos conflitos tornou-se constitutiva na cultura local: dizima\u00e7\u00e3o e desconfigura\u00e7\u00e3o dos ind\u00edgenas, segrega\u00e7\u00e3o e preconceito em rela\u00e7\u00e3o aos afrodescendentes. Trata-se de dois grupos \u00e9tnicos que s\u00e3o agredidos historicamente at\u00e9 os dias atuais. Continuamos a perceber conflitos gerados por viol\u00eancias em rela\u00e7\u00e3o a eles, que seguem lutando com resist\u00eancia pelo reconhecimento de suas tradi\u00e7\u00f5es e cultura.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559731&quot;:708}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">Outra realidade que gerou e continua a gerar constantes conflitos \u00e9 o garimpo. Conta a hist\u00f3ria que as primeiras expedi\u00e7\u00f5es chegaram a essa regi\u00e3o, motivadas pelas not\u00edcias de que haviam por aqui pedras brilhantes, que supunham ser esmeraldas, em grande quantidade (id<\/span><span data-contrast=\"auto\">.<\/span><span data-contrast=\"auto\">, pp. 17-18). A busca pela riqueza foi consolidando o garimpo, com disputas de territ\u00f3rio e conflitos com os povos que habitavam esses vales. \u00c0 medida que encontravam pedras preciosas e ouro, os conflitos aumentavam, com a dizima\u00e7\u00e3o de povos ind\u00edgenas e a intensifica\u00e7\u00e3o da cultura escravagista.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559731&quot;:708}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">Nas \u00faltimas d\u00e9cadas, novos fen\u00f4menos contribu\u00edram para o incremento de conflitos: a implanta\u00e7\u00e3o da monocultura do eucalipto, a extra\u00e7\u00e3o de granito e a atividade miner\u00e1ria, com a descoberta de grandes reservas de l\u00edtio. Essas novas atividades de interfer\u00eancia na ecologia da regi\u00e3o t\u00eam gerado ser\u00edssimos impactos socioambientais, com preju\u00edzo para as popula\u00e7\u00f5es mais vulner\u00e1veis, como os povos tradicionais, especialmente ind\u00edgenas e quilombolas, al\u00e9m das agress\u00f5es aos ecossistemas.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559731&quot;:708}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">As atividades miner\u00e1rias na regi\u00e3o precisam ser acompanhadas com aten\u00e7\u00e3o e senso cr\u00edtico, para evitar o s\u00e9rio risco de agress\u00e3o \u00e0 ecologia integral. Nisso, o Minist\u00e9rio P\u00fablico, grupos de estudo de universidades, institutos e entidades variadas t\u00eam contribu\u00eddo com muita compet\u00eancia. Compreendemos que tudo tem o seu pre\u00e7o, toda a atividade miner\u00e1ria gera seus impactos. O que n\u00e3o se pode transigir \u00e9 que esses impactos agridam povos tradicionais e residentes, em \u00e1reas pr\u00f3ximas a essas atividades miner\u00e1rias, intensificando conflitos j\u00e1 presentes na regi\u00e3o. O cuidado com a ecologia integral \u00e9 igualmente importante. N\u00e3o se pode transformar o Vale do Jequitinhonha numa zona de conflito.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">\u00d3rg\u00e3os de pesquisa ligados a universidades, como tamb\u00e9m o Minist\u00e9rio P\u00fablico, tanto Estadual como Federal, al\u00e9m de organiza\u00e7\u00f5es socioambientais e a imprensa, n\u00e3o cessam de denunciar os danosos impactos que v\u00eam sendo acarretados aos povos tradicionais e \u00e0 ecologia integral como um todo, em consequ\u00eancia da minera\u00e7\u00e3o na regi\u00e3o. Mesmo que apenas tr\u00eas grandes empresas que atuam na \u00e1rea de minera\u00e7\u00e3o estejam em atividades, estima-se que, em breve, esse n\u00famero seja bem mais elevado, devido aos processos de pesquisa e licita\u00e7\u00e3o em andamento, al\u00e9m de solicita\u00e7\u00f5es de amplia\u00e7\u00e3o das atividades miner\u00e1rias por parte de empresas que j\u00e1 atuam na regi\u00e3o.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559731&quot;:708}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">Vem aumentando o n\u00famero de processos jur\u00eddicos em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 quest\u00e3o ambiental tamb\u00e9m em outras localidades da regi\u00e3o do Vale do Jequitinhonha. Impactos causados por grandes empresas t\u00eam afetado a preserva\u00e7\u00e3o das nascentes, da fauna, da flora, interferindo no clima, no abastecimento de \u00e1gua e em v\u00e1rias comunidades tradicionais. As entidades de bom senso, que se preocupam com a preserva\u00e7\u00e3o da ecologia integral, s\u00e3o chamadas a estarem bem atentas para denunciar esses danosos impactos e acionar as institui\u00e7\u00f5es do Estado Democr\u00e1tico de Direito para cuidar de nossa Casa Comum.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559731&quot;:708}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"none\">Basta de conflitos nestes belos vales do Jequitinhonha, do Mucuri e do Rio Pardo! Queremos que prevale\u00e7a a harmonia entre os povos, o respeito pela dignidade humana das pessoas mais vulner\u00e1veis, a justi\u00e7a social, o bem comum, o cuidado pela ecologia integral, na constru\u00e7\u00e3o de uma sociedade justa e igualit\u00e1ria, condi\u00e7\u00e3o para se obter a paz t\u00e3o sonhada. Conclamamos a todos para seguir no esperan\u00e7ar, acreditando que outro mundo \u00e9 poss\u00edvel. Acreditando, esperan\u00e7ando, edificando&#8230;<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559731&quot;:426}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"none\">\u201cA morte n\u00e3o existir\u00e1 mais, e n\u00e3o haver\u00e1 mais luto, nem grito, nem dor, porque as coisas de antes passaram\u201d (Ap 21,4b). Eis o sonho de Deus&#8230; e o nosso tamb\u00e9m! Mero sonho? \u201cH\u00e1 quem diga que todas as noites s\u00e3o de sonhos. Mas h\u00e1 tamb\u00e9m quem garanta que nem todas, s\u00f3 as de ver\u00e3o. No fundo, isto n\u00e3o tem muita import\u00e2ncia. O que interessa mesmo n\u00e3o \u00e9 a noite em si, s\u00e3o os sonhos. Sonhos que o homem sonha sempre, em todos os lugares, em todas as \u00e9pocas do ano, dormindo ou acordado\u201d. (W. Shakespeare, Sonho de uma Noite de Ver\u00e3o).<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dom Geraldo dos Reis Maia Bispo de Ara\u00e7ua\u00ed (MG) \u00a0 A povoa\u00e7\u00e3o no Vale do Jequitinhonha se iniciou com conflitos. Como nos relatam M\u00e1rio Ferreira e Dostoievsky Brasil, na obra \u201cTempo, cultura e espa\u00e7o \u2013 Notas sobre Ara\u00e7ua\u00ed\u201d (S\u00e3o Paulo: Dial\u00e9tica, 2024), essa povoa\u00e7\u00e3o \u201c\u00e9 marcada historicamente por encontros nem sempre harmoniosos\u201d. 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