{"id":988696,"date":"2025-09-09T11:24:59","date_gmt":"2025-09-09T14:24:59","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/?p=988696"},"modified":"2025-09-09T11:25:39","modified_gmt":"2025-09-09T14:25:39","slug":"nao-passe-a-frente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/nao-passe-a-frente\/","title":{"rendered":"N\u00e3o passe \u00e0 frente"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\">Dom Lindomar Rocha Mota<br \/>\nBispo de S\u00e3o Lu\u00eds de Montes Belos (GO)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cQuem n\u00e3o carrega a sua cruz e n\u00e3o caminha atr\u00e1s de mim, n\u00e3o pode ser meu disc\u00edpulo\u201d (Lc 14,27). Nesta senten\u00e7a breve, o Evangelho concentra uma gram\u00e1tica inteira do seguimento que tem a cruz como condi\u00e7\u00e3o e a posi\u00e7\u00e3o do disc\u00edpulo como algu\u00e9m que vem \u201catr\u00e1s\u201d. O grego sublinha o car\u00e1ter continuado do gesto (bast\u00e1zei, \u201ccarrega\u201d, no presente durativo) e a rela\u00e7\u00e3o espacial e existencial do seguimento (\u00e9rchetai op\u00edso mou, \u201cvem atr\u00e1s de mim\u201d). Trata-se de uma forma de vida moldada passo a passo no ritmo de Cristo. A corre\u00e7\u00e3o dirigida a Pedro: \u201cVai para tr\u00e1s de mim\u201d (Mt 16,23) torna expl\u00edcita essa disposi\u00e7\u00e3o. O erro do ap\u00f3stolo n\u00e3o foi apenas doutrin\u00e1rio, foi posicional.<\/p>\n<p>Ao tentar afastar a cruz, Pedro passou \u00e0 frente do Senhor, e a voz de Jesus, mais que refutar um argumento, recoloca o disc\u00edpulo em seu lugar. O problema do cora\u00e7\u00e3o humano, por\u00e9m, \u00e9 que n\u00e3o nasce pronto para aceitar esse lugar. O livro da Sabedoria enuncia com lucidez: \u201co corpo corrupt\u00edvel torna pesada a alma, e a tenda de barro oprime a mente preocupada com muitas coisas\u201d (Sb 9,15). A frase grega acentua tanto a precariedade (phthart\u00f3n s\u014dma, corpo corrupt\u00edvel) quanto a gravidade que se abate sobre a alma (barynei psych\u0113n, pesa a alma). N\u00e3o \u00e9 um desprezo do corpo, mas do reconhecimento de que a condi\u00e7\u00e3o mortal, quando deixada a si mesma, multiplica cuidados, dispersa o desejo, puxa a vida para baixo. Paulo retoma a imagem da tenda (2Cor 5,1-4) para falar do provis\u00f3rio que geme em n\u00f3s; e, Romanos 7, descreve a tens\u00e3o de uma vontade dividida, na qual o bem reconhecido n\u00e3o se realiza com facilidade. Aqui insere-se a exegese espiritual do \u201cpeso\u201d. N\u00e3o apenas a fadiga f\u00edsica, mas a densidade de amores desordenados que nos inclinam a \u201cchegar antes\u201d de Deus.<\/p>\n<p>Or\u00edgenes, ao comentar a corrida da alma atr\u00e1s do Esposo no C\u00e2ntico, percebe esse arrasto como apego que retarda o desejo; s\u00f3 o Esp\u00edrito, diz ele, sustenta a alma para que corra sem se esgotar.<\/p>\n<p>O amor curvado sobre si arrasta para baixo; a caridade, orientada para Deus, d\u00e1 \u00e0 alma uma nova gravidade que a eleva. O Evangelho assume esse drama e o transfigura com a forma pascal. \u201cNegue-se a si mesmo, tome a sua cruz cada dia e siga-me\u201d (Lc 9,23). \u00c9 um convite a recusar a pretens\u00e3o de ditar os termos do caminho. O Cristo que \u201cse esvaziou\u201d e \u201cfez-se obediente at\u00e9 a morte, e morte de cruz\u201d (Fl 2,6-11) revela essa obedi\u00eancia filial como a verdade da liberdade.<\/p>\n<p>Em Cristo, a finitude humana, descrita por Rahner como a condi\u00e7\u00e3o transcendental que nos abre ao Mist\u00e9rio, torna-se um \u201csim\u201d radical ao Pai. A cruz, lugar em que toda autossufici\u00eancia se cala, \u00e9 tamb\u00e9m o lugar onde a liberdade finita \u00e9 dilatada pela gra\u00e7a numa obedi\u00eancia que personaliza. Por isso, o jugo de Cristo se manifesta paradoxalmente \u201csuave\u201d e seu fardo \u201cleve\u201d (Mt 11,30).<\/p>\n<p><strong>Sob o regime da caridade, o peso muda de qualidade<\/strong><br \/>\nSe perguntamos, ent\u00e3o, o que de fato impede o seguimento, a resposta j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 \u201ca cruz em si\u201d, mas o impulso de evit\u00e1-la; n\u00e3o \u00e9 o peso do madeiro, mas o peso da de se colocar \u00e0 frente. O orgulho que prefere mandar a obedecer; a ansiedade que confunde miss\u00e3o com efici\u00eancia; a ideologiza\u00e7\u00e3o que usa o nome de Jesus para selar agendas; o apego \u00e0 reputa\u00e7\u00e3o que recusa a humilha\u00e7\u00e3o evang\u00e9lica (1Cor 1,23); a impaci\u00eancia que n\u00e3o suporta o tempo do Reino (Mc 4,26-29). Tudo isso nos desloca do lugar \u201catr\u00e1s\u201d para a v\u00e3 pretens\u00e3o de ir \u00e0 frente.<\/p>\n<p>O ant\u00eddoto b\u00edblico \u00e9 uma purifica\u00e7\u00e3o do olhar e do passo: \u201cdeixemos de lado tudo que nos atrapalha e o pecado que nos envolve. Corramos com perseveran\u00e7a na competi\u00e7\u00e3o\u2026 com os olhos fixos em Jesus, que vai a frente da nossa f\u00e9&#8230; [e] Em vista da alegria que o esperava, suportou a cruz\u201d (Hb 12,1-2).<\/p>\n<p>Fixar o olhar naquele que vai \u00e0 frente nos restitui a posi\u00e7\u00e3o do disc\u00edpulo; e, restitu\u00edda a posi\u00e7\u00e3o, a cruz torna-se pratic\u00e1vel. A Eucaristia \u00e9 a escola terna e severa dessa disposi\u00e7\u00e3o, pois ali n\u00e3o somos protagonistas, seguimos o Cordeiro (cf. Ap 14,4), aprendendo o ritmo da gra\u00e7a que nos dessubjetiva sem nos despersonalizar, porque nos centra no amor. Na vida concreta, essa pedagogia se traduz em exerc\u00edcios discretos da obedientia fidei que nos corrige e produz a sobriedade que integra o corpo como aliado, a caridade paciente que ajusta o passo ao dos pequenos (Mt 25), desaprendendo a pressa que nos fazia correr \u00e0 frente.<\/p>\n<p>Se em Sabedoria o \u201cpeso\u201d aparece como obst\u00e1culo, em Paulo ele \u00e9 surpreendentemente transfigurado em promessa, pois, \u201ccom efeito, o moment\u00e2neo, leve peso de nossa afli\u00e7\u00e3o, produz para n\u00f3s, uma gl\u00f3ria incomensur\u00e1vel e eterna\u201d (2Cor 4,17).<\/p>\n<p>O que operou a virada? N\u00e3o foi a subtra\u00e7\u00e3o da cruz, mas a reposi\u00e7\u00e3o do disc\u00edpulo em seu lugar. Atr\u00e1s de Jesus, o peso que puxava para o ch\u00e3o torna-se gravidade de gl\u00f3ria; o fardo que o orgulho tornara insuport\u00e1vel converte-se em algo novo que leva para o alto. A exist\u00eancia passa do horizonte an\u00f4nimo do Mist\u00e9rio para o consentimento expl\u00edcito ao Deus de Jesus Cristo.<\/p>\n<p>No fim, permanece o discernimento simples e decisivo: estou atr\u00e1s ou \u00e0 frente? A teologia se complica onde este crit\u00e9rio se obscurece; e a espiritualidade se desvia onde o disc\u00edpulo, encantado consigo mesmo, abdica da posi\u00e7\u00e3o de seguidor. O maior peso, ent\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 a cruz, mas \u00e9 a obstina\u00e7\u00e3o de guiar o Guia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dom Lindomar Rocha Mota Bispo de S\u00e3o Lu\u00eds de Montes Belos (GO) \u201cQuem n\u00e3o carrega a sua cruz e n\u00e3o caminha atr\u00e1s de mim, n\u00e3o pode ser meu disc\u00edpulo\u201d (Lc 14,27). 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