{"id":989317,"date":"2025-09-26T16:08:23","date_gmt":"2025-09-26T19:08:23","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/?p=989317"},"modified":"2025-09-26T16:09:32","modified_gmt":"2025-09-26T19:09:32","slug":"havia-um-homem-rico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/havia-um-homem-rico\/","title":{"rendered":"Havia um homem rico"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\">Dom Lindomar Rocha Mota<br \/>\nBispo de S\u00e3o Lu\u00eds de Montes Belos (GO)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Havia um homem rico! A abertura de Lucas 16,19 \u00e9 simples e lapidar. N\u00e3o h\u00e1 nome, apenas uma condi\u00e7\u00e3o que ocupa a cena. O grego fala de p\u00farpura e linho fin\u00edssimo, porphyra e byssos, tecidos caros que tingem o corpo de distin\u00e7\u00e3o. O narrador acrescenta que ele se banqueteava \u201ctodos os dias\u201d com esplendor, sugerindo uma vida inteira voltada para si, sem intervalo para a compaix\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n\u00c0 porta, jogado como quem foi descartado, est\u00e1 L\u00e1zaro, um pobre com nome, e o seu nome j\u00e1 vale como teologia, pois significa \u201cDeus ajuda\u201d.<\/p>\n<p>A narrativa de Lucas coloca lado a lado anonimato revestido de luxo e pobreza nomeada, invertendo a l\u00f3gica social que costuma conhecer o rico e esquecer o pobre. L\u00e1zaro est\u00e1 coberto de feridas, desejava saciar-se com as migalhas que ca\u00edam da mesa do rico e c\u00e3es vinham lamber-lhe as feridas. Os c\u00e3es, figuras impuras na cultura daqueles dias, tornam-se os \u00fanicos a tocar o corpo ferido.<\/p>\n<p>O rico nunca atravessa o pr\u00f3prio port\u00e3o para encontrar o outro. Nesse quadro dram\u00e1tico a morte chega para ambos.<\/p>\n<p>L\u00e1zaro \u00e9 levado pelos anjos ao seio de Abra\u00e3o, imagem de consolo e banquete, lugar de proximidade ao patriarca. O rico morre e \u00e9 sepultado, mas o detalhe que se segue \u00e9 decisivo. No Hades, em tormentos, ele levanta os olhos e v\u00ea ao longe Abra\u00e3o e L\u00e1zaro ao seu lado. O primeiro pedido que faz revela que nada mudou no seu modo de ver. Chama Abra\u00e3o de pai e pede que L\u00e1zaro venha aliviar sua l\u00edngua com umedecer de \u00e1gua. A cena desnuda o cora\u00e7\u00e3o. Mesmo depois da morte, continua a ver L\u00e1zaro como subordinado, algu\u00e9m que deveria servi-lo. Abra\u00e3o responde com uma palavra que mistura ternura e verdade. Chama-o de filho e convida-o a lembrar que, em vida, recebeu bens, enquanto L\u00e1zaro recebeu males. Agora o consolo mudou de lugar e h\u00e1 um abismo que n\u00e3o permite passagem.<\/p>\n<p>O abismo n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 um tra\u00e7o do al\u00e9m, mas figura do intervalo que o rico cavou em vida. A porta que nunca atravessou transformou-se em um precip\u00edcio entre os mundos. L\u00e1zaro estava a poucos passos, mas esse pouco era vasto, porque o cora\u00e7\u00e3o do rico n\u00e3o reconhecia proximidade. \u00c9 uma geografia moral.<\/p>\n<p>Os passos que n\u00e3o damos tornam-se dist\u00e2ncias que n\u00e3o se cruzam depois. A justi\u00e7a da par\u00e1bola n\u00e3o nasce de uma decis\u00e3o tardia, mas brota da verdade de uma vida inteira inclinada sobre si.<\/p>\n<p>O rico tenta um segundo pedido. Se L\u00e1zaro n\u00e3o pode vir, que ao menos v\u00e1 avisar seus cinco irm\u00e3os, para que n\u00e3o venham parar no mesmo lugar. Abra\u00e3o responde com sobriedade: eles t\u00eam Mois\u00e9s e os Profetas! Que os ou\u00e7am!<\/p>\n<p>A convers\u00e3o n\u00e3o depende de espet\u00e1culos. Depende de ouvir a Escritura que j\u00e1 pede m\u00e3os abertas e cora\u00e7\u00e3o vigilante. O rico insiste que se algu\u00e9m dentre os mortos for at\u00e9 eles, h\u00e3o de se arrepender. Abra\u00e3o encerra o di\u00e1logo com lucidez que desarma a curiosidade do milagreiro. Se n\u00e3o escutam Mois\u00e9s e os Profetas, nem mesmo se algu\u00e9m ressuscitar os convencer\u00e1.<\/p>\n<p>Esse texto \u00e9 para uma comunidade que j\u00e1 conhece a ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus. Por isso, o recado \u00e9 claro.<\/p>\n<p>A exegese do relato ganha espessura quando o recolocamos no arco do Evangelho. Pouco antes, Jesus advertira que ningu\u00e9m pode servir a Deus e ao dinheiro. Lucas acrescenta que os fariseus, amigos do dinheiro, zombavam dele, e Jesus lhes disse que Deus conhece os cora\u00e7\u00f5es. A par\u00e1bola cai exatamente nessa discuss\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 uma condena\u00e7\u00e3o gen\u00e9rica da riqueza, e sim uma den\u00fancia de um modo de vida que ignora a proximidade do pobre e transforma bens em muralhas. Em Lc 14, os convidados de um banquete buscam os primeiros lugares e recusam a presen\u00e7a dos pequenos. Em Lc 15, o Pai faz festa pela volta do filho perdido. Em Lc 16, um administrador astuto aprende a usar o dinheiro para o futuro. O homem rico da nossa hist\u00f3ria ignora tudo isso. Festeja a si mesmo, n\u00e3o usa os bens para fazer amigos junto a Deus, n\u00e3o v\u00ea o irm\u00e3o \u00e0 porta. A par\u00e1bola narra a omiss\u00e3o que se repete at\u00e9 virar crueldade.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m a escolha dos termos carrega precis\u00e3o. O rico \u00e9 plousios, palavra que no contexto ressoa advert\u00eancia. L\u00e1zaro \u00e9 pt\u014dchos, o pobre que n\u00e3o tem de onde tirar sustento. Ele \u201cfoi colocado\u201d \u00e0 porta, sugerindo que outro o p\u00f4s ali, como quem deposita o que n\u00e3o quer guardar. A mesa do rico tem migalhas que caem. Lucas deixa ver que bastaria pouco para mudar o destino daquele homem. A resposta de Abra\u00e3o retoma a l\u00f3gica dos \u201cai de v\u00f3s, ricos\u201d e das bem-aventuran\u00e7as \u201cfelizes v\u00f3s, os pobres\u201d do cap\u00edtulo 6. A invers\u00e3o n\u00e3o \u00e9 capricho nem vingan\u00e7a. \u00c9 a justi\u00e7a do Reino que coloca cada um no lugar que corresponde ao amor que praticou.<\/p>\n<p>L\u00e1zaro chega ao banquete que n\u00e3o se encerra. A ironia \u00e9 fina: quem mais comia descobre a fome, quem mais sofria, pelo crit\u00e9rio da miseric\u00f3rdia, chega \u00e0 saciedade.<\/p>\n<p>Quando a narrativa se apoia em \u201cMois\u00e9s e os Profetas\u201d, convoca passagens que o ouvinte reconhecia de mem\u00f3ria. A Lei que ordena abrir a m\u00e3o ao pobre. Os profetas que denunciam o luxo e banquetes indiferentes enquanto o povo geme, quase que convocando Isa\u00edas que chama de jejum verdadeiro partir o p\u00e3o com quem tem fome.<\/p>\n<p>O rico, daquele tempo, e de hoje em dia, n\u00e3o precisa de revela\u00e7\u00f5es extraordin\u00e1rias, basta cumprir o que j\u00e1 fora dito e a regra universal da fraternidade. Por isso, o pedido de um sinal vindo dos mortos soa como fuga. O problema n\u00e3o estava na falta de luz, mas na recusa do olhar.<\/p>\n<p>O rico chama Abra\u00e3o de pai e \u00e9 reconhecido como filho. A descend\u00eancia n\u00e3o \u00e9 negada, contudo, a heran\u00e7a \u00e9 distribu\u00edda para quem chama de irm\u00e3o aquele que est\u00e1 ca\u00eddo \u00e0 porta. O parentesco com o patriarca n\u00e3o dispensa a pr\u00e1tica da justi\u00e7a. O homem que vestia p\u00farpura e linho ignorou o fio que entrela\u00e7a a mesa de Deus com a mesa da humanidade.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dom Lindomar Rocha Mota Bispo de S\u00e3o Lu\u00eds de Montes Belos (GO) Havia um homem rico! A abertura de Lucas 16,19 \u00e9 simples e lapidar. N\u00e3o h\u00e1 nome, apenas uma condi\u00e7\u00e3o que ocupa a cena. O grego fala de p\u00farpura e linho fin\u00edssimo, porphyra e byssos, tecidos caros que tingem o corpo de distin\u00e7\u00e3o. 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