{"id":989558,"date":"2025-10-02T14:47:48","date_gmt":"2025-10-02T17:47:48","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/?p=989558"},"modified":"2025-10-02T14:51:17","modified_gmt":"2025-10-02T17:51:17","slug":"so-sentir-e-viver","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/so-sentir-e-viver\/","title":{"rendered":"S\u00f3 sentir e viver\u00a0"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><strong>Dom Jo\u00e3o Santos Cardoso<br \/>\nArcebispo de Natal (RN)<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559731&quot;:567,&quot;335559739&quot;:0,&quot;335559740&quot;:240}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">Quando a vida fala mais do que as palavras, estas se calam, tornam-se fr\u00e1geis e, por fim, repousam como morada silenciosa do mist\u00e9rio. H\u00e1 sentimentos que escapam \u00e0s malhas da linguagem. Por mais refinada que seja a express\u00e3o, h\u00e1 instantes em que a alma experimenta algo que n\u00e3o cabe em palavras, como se toda tentativa de descrever fosse uma trai\u00e7\u00e3o ao vivido. Nesse espa\u00e7o de sil\u00eancio, recordo de um poeta que, em tom m\u00edstico, exclamou: <\/span><i><span data-contrast=\"auto\">\u201cs\u00f3 sentir e viver\u201d! <\/span><\/i><span data-contrast=\"auto\">Simples e carregada de poesia, a frase traduzia, \u00e0 sua maneira, o indiz\u00edvel e a experi\u00eancia pura do existir.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559731&quot;:567,&quot;335559739&quot;:0,&quot;335559740&quot;:240}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">A filosofia, a poesia e os m\u00edsticos, cada qual a seu modo, tocaram esse mist\u00e9rio. Ludwig Wittgenstein, ao final do seu <\/span><i><span data-contrast=\"auto\">Tractatus Logico-Philosophicus<\/span><\/i><span data-contrast=\"auto\">, escreveu: <\/span><i><span data-contrast=\"auto\">\u201cSobre aquilo de que n\u00e3o se pode falar, deve-se calar\u201d<\/span><\/i><span data-contrast=\"auto\">. Esse sil\u00eancio, por\u00e9m, n\u00e3o \u00e9 vazio; ao contr\u00e1rio, \u00e9 o espa\u00e7o em que o vivido se abre e a experi\u00eancia se oferece na inteireza do ser. O indiz\u00edvel n\u00e3o \u00e9 aus\u00eancia, mas plenitude, um transbordar que ultrapassa os limites da linguagem.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559731&quot;:567,&quot;335559739&quot;:0,&quot;335559740&quot;:240}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">Do mesmo modo, Fernando Pessoa, em um de seus fragmentos, observou: <\/span><i><span data-contrast=\"auto\">\u201cSentir \u00e9 estar distra\u00eddo\u201d<\/span><\/i><span data-contrast=\"auto\"> (Se eu morrer. In: <\/span><i><span data-contrast=\"auto\">Poemas Inconjuntos<\/span><\/i><span data-contrast=\"auto\">). Ele percebia que sentir n\u00e3o se resume a analisar ou racionalizar, mas a mergulhar no instante com uma esp\u00e9cie de inoc\u00eancia. Quando tentamos traduzir em conceitos o que \u00e9 puro sentir, o momento j\u00e1 nos escapou.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559731&quot;:567,&quot;335559739&quot;:0,&quot;335559740&quot;:240}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">O aforismo <\/span><i><span data-contrast=\"auto\">\u201cs\u00f3 sentir e viver\u201d<\/span><\/i><span data-contrast=\"auto\"> \u00e9, no fundo, um convite a n\u00e3o se perder na busca de explica\u00e7\u00f5es intermin\u00e1veis, mas a deixar-se conduzir pelo pr\u00f3prio fluxo da vida. N\u00e3o se trata de desprezar o pensamento, mas de reconhecer que existem momentos em que o viver \u00e9 mais verdadeiro do que o descrever.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559731&quot;:567,&quot;335559739&quot;:0,&quot;335559740&quot;:240}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">O poeta Rainer Maria Rilke, em <\/span><i><span data-contrast=\"auto\">Cartas a um jovem poeta<\/span><\/i><span data-contrast=\"auto\"> (Carta Quatro), aconselhava:<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559731&quot;:567,&quot;335559739&quot;:0,&quot;335559740&quot;:240}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">\u201cVoc\u00ea \u00e9 t\u00e3o jovem ainda, est\u00e1 diante de todos os in\u00edcios, e por isso gostaria de lhe pedir, caro Senhor, que tenha paci\u00eancia quanto a tudo o que est\u00e1 ainda por resolver no seu cora\u00e7\u00e3o e que tente amar as pr\u00f3prias perguntas como se fossem salas fechadas ou livros escritos numa l\u00edngua muito diferente das que conhecemos. N\u00e3o procure agora respostas que n\u00e3o lhe podem ser dadas porque ainda n\u00e3o as pode viver. E tudo tem de ser vivido. Viva agora as perguntas. Aos poucos, sem o notar, talvez d\u00ea por si um dia, num futuro distante, a viver dentro da resposta. Talvez traga em si a possibilidade de criar e de dar forma e talvez venha a senti-la como uma forma de vida particularmente pura e bem-aventurada.\u201d<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559731&quot;:567,&quot;335559739&quot;:0,&quot;335559740&quot;:240}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">Nessa cita\u00e7\u00e3o, o verbo central \u00e9 <\/span><i><span data-contrast=\"auto\">\u201cviver\u201d<\/span><\/i><span data-contrast=\"auto\">, n\u00e3o <\/span><i><span data-contrast=\"auto\">\u201cexplicar\u201d<\/span><\/i><span data-contrast=\"auto\">. A vida amadurece no compasso do sentir, n\u00e3o na pressa de compreender. O pensamento de Rilke convida a mudar o olhar diante das incertezas: em vez de tratar as perguntas como inc\u00f4modos, \u00e9 mais s\u00e1bio acolh\u00ea-las como companheiras de jornada. O essencial n\u00e3o \u00e9 obter logo uma resposta, mas permitir que a vida, em seu ritmo pr\u00f3prio, amadure\u00e7a dentro de n\u00f3s. Assim, as respostas n\u00e3o surgem de modo repentino ou definitivo, mas se revelam, silenciosas, no tecido do viver.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559731&quot;:567,&quot;335559739&quot;:0,&quot;335559740&quot;:240}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">A m\u00e1xima \u201cs\u00f3 sentir e viver\u201d aponta para uma sabedoria simples e profunda: a vida n\u00e3o \u00e9 um enigma a ser decifrado, mas um dom a ser acolhido. Como ensina o Senhor: \u201cA cada dia basta o seu cuidado\u201d (Mt 6,34). O instante, quando vivido em plenitude, j\u00e1 \u00e9 uma revela\u00e7\u00e3o.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559731&quot;:567,&quot;335559739&quot;:0,&quot;335559740&quot;:240}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">E talvez seja isso o que nos falta em tempos de pressa e de pap\u00e9is sociais acumulados: reaprender a sentir, sem necessidade de justificar, e viver, sem o peso de uma utilidade imediata. O aforismo, dito de modo casual em um contexto banal, guarda a for\u00e7a das m\u00e1ximas que atravessam gera\u00e7\u00f5es. Como toda grande intui\u00e7\u00e3o, ele nos lembra que o essencial da vida n\u00e3o se encerra em palavras, mas se cumpre em gestos, sil\u00eancios, l\u00e1grimas, sorrisos e encontros. Em s\u00edntese, diante de experi\u00eancias indiz\u00edveis, o melhor coment\u00e1rio \u00e9 sempre o mesmo: s\u00f3 sentir e viver!<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559731&quot;:567,&quot;335559739&quot;:0,&quot;335559740&quot;:240}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559731&quot;:567,&quot;335559739&quot;:0,&quot;335559740&quot;:240}\">\u00a0<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dom Jo\u00e3o Santos Cardoso Arcebispo de Natal (RN) \u00a0 Quando a vida fala mais do que as palavras, estas se calam, tornam-se fr\u00e1geis e, por fim, repousam como morada silenciosa do mist\u00e9rio. H\u00e1 sentimentos que escapam \u00e0s malhas da linguagem. 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