{"id":991795,"date":"2025-11-21T10:01:49","date_gmt":"2025-11-21T13:01:49","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/?p=991795"},"modified":"2025-11-21T10:03:04","modified_gmt":"2025-11-21T13:03:04","slug":"o-ultimo-trono","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/o-ultimo-trono\/","title":{"rendered":"O \u00faltimo trono\u00a0"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><strong>Dom Lindomar Rocha Mota<br \/>\nBispo de S\u00e3o Lu\u00eds de Montes Belos (GO)\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-ccp-props=\"{}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">O ano lit\u00fargico se encerra diante de uma cena que, aos olhos do mundo, n\u00e3o tem nada de solene. H\u00e1\u00a0somente\u00a0um madeiro erguido fora da cidade, um condenado entre dois criminosos, o riso amargo dos\u00a0passantes e\u00a0a indiferen\u00e7a dos\u00a0observaadorres. Sobre a cabe\u00e7a de Jesus, contudo, uma inscri\u00e7\u00e3o insiste: \u201cEste \u00e9 o Rei dos judeus\u201d.<\/span><span data-ccp-props=\"{}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">\u00c9 assim que a Igreja contempla o Rei do Universo!<\/span><span data-ccp-props=\"{}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">Em Lucas\u00a023, o contraste \u00e9 dolorosamente preciso. Em volta da cruz, est\u00e3o todos os sinais de\u00a0poder que conhecemos.\u00a0A\u00a0multid\u00e3o que observa e julga, as autoridades religiosas que escarnecem, a m\u00e1quina do imp\u00e9rio que executa sem hesitar.<\/span><span data-ccp-props=\"{}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">Ali se acumulam\u00a0todas\u00a0as expectativas de\u00a0\u201creino\u201d\u00a0que a hist\u00f3ria\u00a0aprecia.\u00a0For\u00e7a que se imp\u00f5e, prest\u00edgio que domina, efici\u00eancia que elimina o inc\u00f4modo. Em meio a tudo isso, o Rei de Israel parece o oposto de um rei. N\u00e3o comanda ex\u00e9rcitos, n\u00e3o desce do pat\u00edbulo, n\u00e3o devolve insultos. A coroa \u00e9 de espinhos, o trono\u00a0de madeira, o manto \u00e9 o pr\u00f3prio sil\u00eancio.<\/span><span data-ccp-props=\"{}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">No entanto, \u00e9 precisamente a\u00ed que o evangelho\u00a0concentra\u00a0o olhar. Um dos malfeitores\u00a0provoca: \u201cN\u00e3o \u00e9s tu o Cristo? Salva-te a ti mesmo e a n\u00f3s\u201d.\u00a0Um pedido que resume toda a l\u00f3gica do poder. Um rei, para o mundo, \u00e9 algu\u00e9m que se protege primeiro, que demonstra for\u00e7a pela fuga da humilha\u00e7\u00e3o, que prova sua realeza evitando a fraqueza.<\/span><span data-ccp-props=\"{}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">Mas o outro condenado, a ant\u00edtese do primeiro, aquele que a tradi\u00e7\u00e3o chamar\u00e1 de \u201cbom ladr\u00e3o\u201d, intui uma majestade diferente. Ele n\u00e3o v\u00ea milagres,\u00a0nem\u00a0luzes, n\u00e3o v\u00ea legi\u00f5es de anjos. V\u00ea um homem crucificado como ele, mas que suporta a dor com uma\u00a0altivez\u00a0que n\u00e3o se explica. Ent\u00e3o arrisca uma frase\u00a0de\u00a0confiss\u00e3o e s\u00faplica: \u201cJesus, lembra-te de mim quando entrares no teu Reino\u201d.\u00a0Ele n\u00e3o pede para descer da cruz. Pede\u00a0para\u00a0ser alcan\u00e7ado por uma lembran\u00e7a que n\u00e3o esquece. Reconhece como rei justamente aquele que n\u00e3o se salva a si mesmo, mas se entrega por todos.<\/span><span data-ccp-props=\"{}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">A resposta de Cristo\u00a0sentencia\u00a0como\u00a0uma proclama\u00e7\u00e3o\u00a0real:\u00a0\u201cHoje estar\u00e1s comigo no para\u00edso\u201d.\u00a0Uma promessa pronunciada entre o sangue e a poeira, quase aos sussurros, mas com a autoridade\u00a0de quem podia faz\u00ea-la.\u00a0Um\u00a0Rei medido\u00a0pela profundidade com que alcan\u00e7a\u00a0o\u00a0cora\u00e7\u00e3o e o arranca do desespero.\u00a0<\/span><span data-ccp-props=\"{}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">Celebrar Cristo Rei do Universo \u00e0 luz desse evangelho \u00e9 aceitar uma contradi\u00e7\u00e3o fecunda. Nosso imagin\u00e1rio pede coroas de ouro, tronos de m\u00e1rmore, vit\u00f3rias incontest\u00e1veis. O evangelho nos\u00a0entrega\u00a0um rei desfigurado, coroado de espinhos, vitorioso no fracasso.<\/span><span data-ccp-props=\"{}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">O mundo espera um reino que elimina as cat\u00e1strofes. Cristo inaugura um reinado que as atravessa. Guerras, abalos, injusti\u00e7as, pandemias, quedas de imp\u00e9rios,\u00a0tudo continua a acontecer, como sempre aconteceu. Mas, desde a cruz, essas for\u00e7as perderam\u00a0autoridade. O reinado de Cristo instala\u00a0na noite escura\u00a0do mundo\u00a0uma luz que n\u00e3o pode ser apagada.<\/span><span data-ccp-props=\"{}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">\u00c9 aqui que a intui\u00e7\u00e3o\u00a0po\u00e9tica\u00a0de Henry\u00a0Wadsworth\u00a0Longfellow\u00a0se faz teologia. Quando diz que a aurora n\u00e3o tarda, que a noite n\u00e3o \u00e9 sem estrelas, que o amor \u00e9 eterno,\u00a0ele\u00a0desvela\u00a0aquilo que a Igreja contempla quando se ajoelha diante do crucificado. As trevas s\u00e3o reais, mas n\u00e3o s\u00e3o\u00a0intranspon\u00edveis. O mal \u00e9 terr\u00edvel,\u00a0mas n\u00e3o \u00e9\u00a0irrestrito. O tempo humano \u00e9 dram\u00e1tico, mas n\u00e3o \u00e9 regido pelo acaso. Sobre tudo isso, discreto e soberano, permanece um Reinado que n\u00e3o envelhece.<\/span><span data-ccp-props=\"{}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">Dizer que Cristo \u00e9 Rei do Universo \u00e9 afirmar que a hist\u00f3ria n\u00e3o caminha \u00e0 deriva.\u00a0<\/span><span data-ccp-props=\"{}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">Quando\u00a0Longfellow\u00a0recorda que \u201cDeus \u00e9 sempre Deus, e sua f\u00e9 n\u00e3o nos falhar\u00e1; [pois] Cristo \u00e9 eterno\u201d, descreve\u00a0com exatid\u00e3o\u00a0o fundamento desse reinado.<\/span><span data-ccp-props=\"{}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">O Reino de Cristo\u00a0n\u00e3o \u00e9 uma institui\u00e7\u00e3o passageira,\u00a0nem\u00a0uma hegemonia cultural, mas\u00a0\u00e9\u00a0a fidelidade indestrut\u00edvel do Filho que\u00a0nunca\u00a0se retrata.<\/span><span data-ccp-props=\"{}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">Ao concluir o ano lit\u00fargico diante do Cristo Rei, a Igreja olha para o alto da cruz e reconhece, naquele rosto desfigurado, o \u00fanico rosto que n\u00e3o passa. Todas as coroas do mundo desbotam ou\u00a0duram\u00a0em vitrines de museu. Todos os tronos\u00a0desmoronam, mas a realeza de Jesus permanece,\u00a0porque est\u00e1 inscrita em\u00a0vida\u00a0ferida e ressuscitada.\u00a0\u00a0Por isso, a\u00a0aurora n\u00e3o tarda, e a noite, por mais escura, nunca\u00a0\u00e9\u00a0sem estrelas.<\/span><span data-ccp-props=\"{}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">O fim do ano cat\u00f3lico\u00a0com,\u00a0a\u00a0festa de Cristo Rei,\u00a0\u00e9 uma\u00a0concentra\u00e7\u00e3o\u00a0de sentido.\u00a0Tudo o que celebramos ao longo do ano \u2013 o Natal, a P\u00e1scoa, o Pentecostes \u2013 converge aqui para confessar que, por tr\u00e1s de cada mist\u00e9rio, reina\u00a0o\u00a0Senhor. E se Ele reina, o futuro n\u00e3o \u00e9 amea\u00e7a.<\/span><span data-ccp-props=\"{}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">Enquanto o\u00a0mundo continuar\u00e1 a medir poderes por for\u00e7as vis\u00edveis,\u00a0a\u00a0Igreja continuar\u00e1 a levantar os olhos para o crucificado e, paradoxalmente, cham\u00e1-lo de Rei.<\/span><span data-ccp-props=\"{}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">Entre a expectativa do mundo e o Evangelho, a contradi\u00e7\u00e3o permanecer\u00e1, mas \u00e9 nessa contradi\u00e7\u00e3o que se esconde\u00a0o segredo. O amor que se deixa ferir sem deixar de amar \u00e9 a forma mais alta de poder. E esse poder, porque \u00e9 amor, n\u00e3o passa.<\/span><span data-ccp-props=\"{}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">Cristo \u00e9 eterno! E, enquanto Ele reina, nenhuma noite ser\u00e1 absoluta, nenhuma cruz ser\u00e1 definitiva\u00a0e todo\u00a0reinado\u00a0neste mundo ser\u00e1\u00a0apenas\u00a0um intervalo diante da gl\u00f3ria\u00a0inquebr\u00e1vel\u00a0do seu senhorio.<\/span><span data-ccp-props=\"{}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span data-ccp-props=\"{}\">\u00a0<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dom Lindomar Rocha Mota Bispo de S\u00e3o Lu\u00eds de Montes Belos (GO)\u00a0 \u00a0 O ano lit\u00fargico se encerra diante de uma cena que, aos olhos do mundo, n\u00e3o tem nada de solene. H\u00e1\u00a0somente\u00a0um madeiro erguido fora da cidade, um condenado entre dois criminosos, o riso amargo dos\u00a0passantes e\u00a0a indiferen\u00e7a dos\u00a0observaadorres. 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