{"id":992141,"date":"2025-11-27T14:45:51","date_gmt":"2025-11-27T17:45:51","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/?p=992141"},"modified":"2025-11-27T14:46:33","modified_gmt":"2025-11-27T17:46:33","slug":"niceia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/niceia\/","title":{"rendered":"Niceia\u00a0"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><strong>Dom Geraldo dos Reis Maia<br \/>\nBispo de Ara\u00e7ua\u00ed (MG)<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-ccp-props=\"{&quot;335551550&quot;:3,&quot;335551620&quot;:3}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">Neste ano, nosso olhar se volta para dois importantes conc\u00edlios: o primeiro e o \u00faltimo da hist\u00f3ria do cristianismo, reconhecidos como Conc\u00edlios Ecum\u00eanicos. Comemoramos 1.700 anos do Conc\u00edlio de Niceia (325) e 60 anos do Conc\u00edlio Vaticano II (1962-1965). O primeiro define a identidade do Filho de Deus que entrou na Hist\u00f3ria para a salva\u00e7\u00e3o da humanidade. O segundo atualiza o sentido da salva\u00e7\u00e3o diante dos desafios do mundo contempor\u00e2neo. Os dois conc\u00edlios t\u00eam uma import\u00e2ncia extraordin\u00e1ria para a viv\u00eancia de nossa f\u00e9 no seguimento de Jesus Cristo.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">Apenas 12 anos ap\u00f3s o Edito de Mil\u00e3o (313), muitos bispos chegavam a Niceia, cidade pr\u00f3xima a Constantinopla (hoje correspondente ao territ\u00f3rio da Turquia), ostentando feridas das persegui\u00e7\u00f5es\u00a0deflagradas pelo Imp\u00e9rio Romano, e todos portavam consigo as marcas da divis\u00e3o da Igreja. Para salvaguardar a transcend\u00eancia divina, Ario, presb\u00edtero de Alexandria, sustentava que o Verbo n\u00e3o era da mesma subst\u00e2ncia de Deus, ainda que muito semelhante, mas n\u00e3o igual a Deus, e houve um tempo em que ele n\u00e3o existia. O Papa Le\u00e3o XIV, em recente Carta Apost\u00f3lica\u00a0nos adverte: \u201cO motivo da disputa, na verdade, n\u00e3o era um detalhe secund\u00e1rio. Tratava-se do cerne da f\u00e9 crist\u00e3, ou seja, da resposta \u00e0 pergunta decisiva que Jesus fez aos disc\u00edpulos em Cesareia de Filipe: \u2018Quem dizeis que eu sou?\u2019 (<\/span><i><span data-contrast=\"auto\">Mt<\/span><\/i><span data-contrast=\"auto\">\u202f16, 15) (<\/span><i><span data-contrast=\"auto\">In\u00a0unitate\u00a0fidei<\/span><\/i><span data-contrast=\"auto\">, 3).<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">A heresia iniciada em Alexandria espalhou-se por todo o mundo crist\u00e3o naquele in\u00edcio do IV s\u00e9culo. Foi necess\u00e1rio reunir os bispos para tratar a quest\u00e3o, assim como os ap\u00f3stolos se reuniram para tratar das condi\u00e7\u00f5es para o seguimento de Jesus, cerca de tr\u00eas s\u00e9culos antes de Niceia (cf. At 15,1-35). Falou-se em 318 bispos reunidos no Primeiro Conc\u00edlio Ecum\u00eanico, referindo-se a um n\u00famero simb\u00f3lico relacionado ao n\u00famero dos servos de Abra\u00e3o (cf.\u00a0Gn\u00a014,14). Seja como for, houve a presen\u00e7a de muitos bispos em Niceia, reconhecido como o maior acontecimento crist\u00e3o visto at\u00e9 ent\u00e3o.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">Os Padres de Niceia identificaram o Filho com a mesma divindade do Pai, com o termo grego\u00a0<\/span><i><span data-contrast=\"auto\">homo\u00fasion<\/span><\/i><span data-contrast=\"auto\">\u00a0(traduzido para o latim como \u201c<\/span><i><span data-contrast=\"auto\">unius\u00a0substantiae\u00a0cum\u00a0Patre<\/span><\/i><span data-contrast=\"auto\">\u201d \u2013 consubstancial, mesma subst\u00e2ncia). Este Filho que existiu desde a eternidade, pois n\u00e3o foi feito,\u00a0mas\u00a0gerado, entrou na\u00a0hist\u00f3ria da humanidade, padeceu e ressuscitou ao terceiro dia, subiu aos c\u00e9us, com a esperan\u00e7a de vir julgar os vivos e os mortos. Interessante observar que o esquema filos\u00f3fico engessado de Ario repugnava o movimento em Deus, que implicaria, dentro de uma l\u00f3gica interna, imperfei\u00e7\u00e3o na divindade. Era justamente para salvaguardar a transcend\u00eancia divina\u00a0que\u00a0Ario\u00a0recha\u00e7ava a possibilidade da entrada do divino na iman\u00eancia da hist\u00f3ria. A f\u00e9 de Niceia superava, assim, esquemas filos\u00f3ficos, procurando embasar-se na Revela\u00e7\u00e3o do Deus que entra na Hist\u00f3ria.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">Niceia nos apresenta acenos suficientes para descrever a antropologia assumida pelo Filho de Deus a partir de verbos do movimento\u00a0quen\u00f3tico\u00a0do\u00a0daquele que foi\u00a0gerado pelo Pai, \u00e0 luz de Ef\u00e9sios 2,5-11, sempre \u201cpor causa de n\u00f3s homens e da nossa salva\u00e7\u00e3o\u201d. O primeiro movimento \u00e9 de descida e de encarna\u00e7\u00e3o. Niceia afirmou que o Verbo se \u201cem-humanou\u201d, assumiu a condi\u00e7\u00e3o humana, entrou na Hist\u00f3ria, \u201carmou a sua tenda entre n\u00f3s\u201d (Jo\u00a01,14).\u00a0Ainda mais, viveu em sua carne alegrias e esperan\u00e7as: \u201cpadeceu, e ressuscitou ao terceiro dia\u201d. Mesmo tendo passado pelo sofrimento e morte, n\u00e3o ficou entregue \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o da carne. Com sua morte, ele atingiu um novo est\u00e1gio da humanidade: a ressurrei\u00e7\u00e3o. Levou nossa humanidade para junto da divindade: \u201csubiu aos c\u00e9us\u201d. Por fim, Niceia abre o horizonte de esperan\u00e7a para a humanidade, afirmando que Ele vir\u00e1 para \u201cjulgar os vivos e os mortos\u201d. Assim, o Verbo encarnado possibilitar\u00e1 a todo ser humano entrar na plena comunh\u00e3o com Deus.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">Aqui encontramos elementos importantes para desenvolver a rela\u00e7\u00e3o da salva\u00e7\u00e3o humana \u00e0 luz do mist\u00e9rio pascal de Jesus Cristo, conforme a defini\u00e7\u00e3o\u00a0nicena. \u00c9 a Comiss\u00e3o Teol\u00f3gica Internacional que nos ajuda na sua compreens\u00e3o: \u201cA plenitude do ato redentor de Cristo s\u00f3 se manifesta plenamente na sua ressurrei\u00e7\u00e3o, que \u00e9 a realiza\u00e7\u00e3o da salva\u00e7\u00e3o, na qual se confirmam todos os aspectos da nova cria\u00e7\u00e3o. A ressurrei\u00e7\u00e3o testemunha a plena divindade de Cristo, a \u00fanica capaz de atravessar e vencer a morte, mas tamb\u00e9m a sua humanidade, pois \u00e9 a mesma humanidade, numericamente id\u00eantica \u00e0 da sua vida terrena, que \u00e9 transfigurada e glorificada. N\u00e3o se trata de um s\u00edmbolo ou de uma met\u00e1fora: Cristo ressuscita na sua humanidade e no seu corpo. A ressurrei\u00e7\u00e3o transcende a hist\u00f3ria, mas realiza-se no cora\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria dos homens e deste homem Jesus\u201d (Jesus Cristo, Filho de Deus, Salvador, 28).<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559731&quot;:426}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"none\">Niceia n\u00e3o \u00e9 um mero evento do passado. Os conc\u00edlios n\u00e3o s\u00e3o simples pontos de chegada, mas pontos de partida da f\u00e9 crist\u00e3 sustentada sempre pelo Evangelho, com consequ\u00eancias para o mundo contempor\u00e2neo. Le\u00e3o XIV assim atualiza a express\u00e3o de f\u00e9 do Primeiro Conc\u00edlio Ecum\u00eanico, que garante a unidade da Igreja de Jesus Cristo: \u201ca f\u00e9 nos d\u00e1 esperan\u00e7a nos tempos dif\u00edceis que vivemos, em meio a muitas preocupa\u00e7\u00f5es e medos, amea\u00e7as de guerra e viol\u00eancia, desastres naturais, graves injusti\u00e7as e desequil\u00edbrios, fome e mis\u00e9ria sofridas por milh\u00f5es de nossos irm\u00e3os e irm\u00e3s\u201d\u00a0<\/span><span data-contrast=\"auto\">(<\/span><i><span data-contrast=\"auto\">In\u00a0unitate\u00a0fidei<\/span><\/i><span data-contrast=\"auto\">, 2).<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559731&quot;:426}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">E continua o Papa, expressando as consequ\u00eancias da nossa f\u00e9: \u201cNo seguimento de Jesus, a ascens\u00e3o a Deus passa pelo abaixamento e pela dedica\u00e7\u00e3o aos irm\u00e3os e irm\u00e3s, sobretudo aos \u00faltimos, aos mais pobres, abandonados e marginalizados. O que fizemos ao menor destes, fizemos a Cristo (cf.\u202f<\/span><i><span data-contrast=\"auto\">Mt<\/span><\/i><span data-contrast=\"auto\">\u202f25, 31-46). Perante as cat\u00e1strofes, as guerras e a mis\u00e9ria, s\u00f3 podemos testemunhar a miseric\u00f3rdia de Deus \u00e0s pessoas que duvidam d\u2019Ele, quando elas experimentam a sua miseric\u00f3rdia atrav\u00e9s de n\u00f3s\u201d (<\/span><i><span data-contrast=\"auto\">In\u00a0unitate\u00a0fidei<\/span><\/i><span data-contrast=\"auto\">, 11).<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559731&quot;:426}\">\u00a0<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dom Geraldo dos Reis Maia Bispo de Ara\u00e7ua\u00ed (MG) \u00a0 Neste ano, nosso olhar se volta para dois importantes conc\u00edlios: o primeiro e o \u00faltimo da hist\u00f3ria do cristianismo, reconhecidos como Conc\u00edlios Ecum\u00eanicos. 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