{"id":992961,"date":"2025-12-22T09:00:21","date_gmt":"2025-12-22T12:00:21","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/?p=992961"},"modified":"2025-12-22T09:03:45","modified_gmt":"2025-12-22T12:03:45","slug":"natal-4","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/natal-4\/","title":{"rendered":"Natal"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><strong>Dom Geraldo Maia<br \/>\nBispo de Ara\u00e7ua\u00ed (MG)<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">Jean Paul Sartre (1905\u20131980), grande fil\u00f3sofo franc\u00eas, existencialista, comunista e ateu, foi preso em 1940, durante a ocupa\u00e7\u00e3o da Fran\u00e7a pela Alemanha. Levado para o campo de concentra\u00e7\u00e3o de\u00a0Tr\u00e9veris, na Alemanha, conviveu com simpatizantes e n\u00e3o simpatizantes de seus ideais: crist\u00e3os leigos, padres diocesanos, dominicanos, jesu\u00edtas, dentre outros. Somente no ano seguinte ele conseguiria escapar daquela sucursal do inferno. Nos lugares mais cru\u00e9is, quando nossa humanidade \u00e9 desafiada, desenvolvemos uma das mais belas de nossas caracter\u00edsticas: o di\u00e1logo com o diferente, que faz brotar uma fonte nova em nossa exist\u00eancia, ainda que fr\u00e1gil, fortalecendo nossa dimens\u00e3o humana.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">Os padres planejavam pedir autoriza\u00e7\u00e3o aos administradores do campo de concentra\u00e7\u00e3o para celebrar a Missa de Natal de 1940, ali, naquela nova situa\u00e7\u00e3o de periferia do mundo. Foi Sartre quem teve a brilhante ideia de montar um teatro para tentar unir as mais diversas tend\u00eancias ideol\u00f3gicas e religiosas daquele in\u00f3spito lugar. E foi ele mesmo quem escreveu o \u201cAuto de Natal\u201d, intitulando-o\u00a0Barion\u00e1. Al\u00e9m disso, dirigiu os sessenta atores, supervisionou os cen\u00e1rios e figurinos e interpretou um dos personagens, o mago Baltazar. Todo esse esfor\u00e7o foi realizado em apenas seis semanas. A pe\u00e7a foi apresentada no\u00a0Stalag\u00a012D, com tr\u00eas horas e meia de dura\u00e7\u00e3o, nos dias 24, 25 e 26 de dezembro de 1940, para cerca de dois mil prisioneiros em cada apresenta\u00e7\u00e3o.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">A pe\u00e7a conta a hist\u00f3ria de um chefe de uma aldeia da Judeia, em tempos da domina\u00e7\u00e3o romana. Os dominadores decretaram o aumento dos impostos.\u00a0Barion\u00e1\u00a0re\u00fane seus concidad\u00e3os e os exorta a n\u00e3o ter mais filhos, em resposta aos desmandos da domina\u00e7\u00e3o. Essa seria a t\u00e1tica para diminuir os impostos pagos aos romanos. Da\u00ed a pouco, sua mulher, Sara, lhe comunica que estava gr\u00e1vida e, no mesmo dia, chega a not\u00edcia de que, na aldeia vizinha de Bel\u00e9m, nascera um menino, que fora \u201cenfaixado e deitado num pres\u00e9pio\u201d, e que Magos vindos do Oriente e s\u00e1bios creditados em Jerusal\u00e9m o anunciam como sendo o Messias.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">Barion\u00e1\u00a0entra num dilema: ir\u00e1 matar esse rec\u00e9m-nascido, como pensara inicialmente, ou ir\u00e1, ao inv\u00e9s disso, proteg\u00ea-lo da viol\u00eancia dos Romanos que, alarmados pela agita\u00e7\u00e3o reinante na regi\u00e3o, decidiram tamb\u00e9m\u00a0suprimi-lo?\u00a0Barion\u00e1\u00a0decide proteger a crian\u00e7a. Unido aos seus alde\u00e3os, ele deter\u00e1 os romanos at\u00e9 que Maria, Jos\u00e9 e o rec\u00e9m-nascido consigam escapar. As palavras finais do her\u00f3i s\u00e3o comovedoras. Dirigindo-se \u00e0 sua esposa, antes de partir para o combate,\u00a0Barion\u00e1\u00a0confessa que mudou de opini\u00e3o e quer que ela d\u00ea \u00e0 luz o seu filho e que lhe diga, \u00e0 hora do nascimento, que o seu pai morreu na alegria. Segundo o testemunho do Pe. Marius Perrin, companheiro de Sartre no cativeiro, \u201cos homens de\u00a0Barion\u00e1\u00a0correm talvez para a sua morte (\u2026) para que a esperan\u00e7a dos homens livres n\u00e3o seja assassinada\u201d.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">Sartre mesmo descreveu sua aventura art\u00edstica: \u201cA minha primeira experi\u00eancia teatral foi particularmente afortunada. Enquanto estive preso na Alemanha em 1940, escrevi, pus em cena e interpretei uma obra de Natal, a qual, conseguindo esquivar \u00e0 vigil\u00e2ncia do censor alem\u00e3o, atrav\u00e9s de s\u00edmbolos simples, se dirigia aos meus companheiros de cativeiro [&#8230;]. Naquela ocasi\u00e3o, [&#8230;] por cima das luzes das gambiarras e falando-lhes desde a sua condi\u00e7\u00e3o de prisioneiros, vi-os de repente t\u00e3o realmente silenciosos e atentos que compreendi o que o teatro tinha de ser: um grande fen\u00f4meno coletivo e religioso\u201d.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">Escrevendo \u00e0 sua esposa, Simone de Beauvoir, Sartre assim se expressou: \u201cSeguramente devo ter talento como autor dram\u00e1tico: escrevi uma cena do anjo que anuncia aos pastores o nascimento de Cristo, que deixou a todos sem respira\u00e7\u00e3o (\u2026) inclusive a alguns saltaram-lhes as l\u00e1grimas\u201d. E ainda: \u201cParece que fiz um Mist\u00e9rio de Natal muito comovente, ao ponto de alguns dos atores, ao declamarem, lhes saltarem as l\u00e1grimas\u201d. Depois de a vida ter voltado ao normal, o autor da pe\u00e7a proibiu que ela fosse reapresentada. Em 2005, por ocasi\u00e3o do centen\u00e1rio do nascimento de Jean-Paul Sartre, a editora Gallimard publicou uma edi\u00e7\u00e3o comemorativa do teatro completo do fil\u00f3sofo franc\u00eas, incluindo, pela primeira vez, o drama de\u00a0Barion\u00e1.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">O Pe. Marius Perrin deu um belo testemunho sobre os efeitos desta pe\u00e7a: \u201cDepois de\u00a0Barion\u00e1, tudo mudou. Foi como se Sartre tivesse introduzido um \u2018v\u00edrus\u2019. Foi como se, gra\u00e7as a ele, \u2018um longo per\u00edodo de incuba\u00e7\u00e3o\u2019, em que estivemos impedidos de nos revoltar, tivesse finalmente\u00a0chegado ao fim\u201d. O fil\u00f3sofo e escritor franc\u00eas Bernard-Henry L\u00e9vy constatou que, tamb\u00e9m para Sartre,\u00a0Barion\u00e1\u00a0representou \u201ca verdadeira virada na vida e na obra [\u2026] \u00e9 desta experi\u00eancia do\u00a0Stalag\u00a0e da elabora\u00e7\u00e3o da pe\u00e7a nesse local, que data o nascimento de um segundo Sartre, efetivamente messi\u00e2nico, otimista,\u00a0<\/span><i><span data-contrast=\"auto\">engag\u00e9<\/span><\/i><span data-contrast=\"auto\">\u00a0num sentido novo do termo e que volta subitamente as costas \u00e0 bela metaf\u00edsica pessimista que era como um salvo-conduto, uma vacina, contra os desvarios pol\u00edticos\u201d.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">Neste Natal, acolhamos o Salvador, \u201cpara que a esperan\u00e7a dos homens livres n\u00e3o seja assassinada\u201d, como nos ensinou\u00a0Barion\u00e1, o personagem criado por Sartre, no seu \u201cAuto de Natal\u201d. O mundo precisa da esperan\u00e7a que n\u00e3o decepciona e nem ilude, mas salva a humanidade. Diante das estruturas de morte, de viol\u00eancia contra as minorias e contra o mundo criado, a esperan\u00e7a nos aponta um horizonte que descortina uma nova humanidade e um mundo novo, onde haver\u00e1 de reinar a justi\u00e7a, a liberdade, a solidariedade e a paz, como cantam os devotos da Bandeira do Divino, express\u00e3o da religiosidade popular imortalizada na composi\u00e7\u00e3o de Ivan Lins:<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">A bandeira acredita\/ Que a semente seja tanta\/ Que essa mesa seja farta\/ Que essa casa seja santa, ai,\u00a0ai.\/\u00a0Que o perd\u00e3o seja sagrado\/ Que a f\u00e9 seja infinita\/ Que o homem seja livre\/ Que a justi\u00e7a sobreviva, ai, ai.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">Assim como os tr\u00eas reis magos\/ Que seguiram a estrela guia\/ A bandeira segue em frente\/ Atr\u00e1s de melhores dias, ai,\u00a0ai.\/\u00a0No estandarte vai escrito\/ Que ele voltar\u00e1 de novo\/ Que o rei ser\u00e1 bendito\/ Ele nascer\u00e1 do povo, ai, ai.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6}\">\u00a0<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dom Geraldo Maia Bispo de Ara\u00e7ua\u00ed (MG) &nbsp; Jean Paul Sartre (1905\u20131980), grande fil\u00f3sofo franc\u00eas, existencialista, comunista e ateu, foi preso em 1940, durante a ocupa\u00e7\u00e3o da Fran\u00e7a pela Alemanha. 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