{"id":993334,"date":"2026-01-05T09:59:37","date_gmt":"2026-01-05T12:59:37","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/?p=993334"},"modified":"2026-01-05T10:00:32","modified_gmt":"2026-01-05T13:00:32","slug":"o-dilema-de-um-mundo-sem-consenso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/o-dilema-de-um-mundo-sem-consenso\/","title":{"rendered":"O\u00a0dilema\u00a0de\u00a0um\u00a0mundo sem\u00a0consenso\u00a0"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><strong>Dom Lindomar Rocha Mota<br \/>\nBispo de S\u00e3o Lu\u00eds de Montes Belos (GO)\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-ccp-props=\"{}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"none\">O in\u00edcio de 2026 encontra o mundo suspenso numa zona de ambiguidade hist\u00f3rica. Algo sutil e perigoso est\u00e1 em curso. H\u00e1\u00a0uma corros\u00e3o dos crit\u00e9rios com os quais, desde 1945, aprendemos a\u00a0diferenciar\u00a0for\u00e7a de direito, soberania de arb\u00edtrio\u00a0e\u00a0corre\u00e7\u00e3o de abuso, inaugurando um\u00a0dilema moral, jur\u00eddico e civilizacional, e\u00a0n\u00e3o apenas pol\u00edtico.<\/span><span data-ccp-props=\"{}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"none\">Como agir contra governos que corroem a pr\u00f3pria legitimidade sem destruir, no gesto de corre\u00e7\u00e3o, os fundamentos que ainda sustentam a conviv\u00eancia internacional? Como depor um governante que n\u00e3o quer sair do poder quando ele pr\u00f3prio tutelou as institui\u00e7\u00f5es encarregadas de remov\u00ea-lo?<\/span><span data-ccp-props=\"{}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"none\">A experi\u00eancia recente da\u00a0Venezuela\u00a0tornou esse dilema quase did\u00e1tico em sua perversidade. N\u00e3o se tratava de um tirano cl\u00e1ssico, sustentado apenas pela viol\u00eancia ostensiva, mas de um dirigente que aprendeu a administrar o tempo institucional.<\/span><span data-ccp-props=\"{}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"none\">Ele n\u00e3o aboliu elei\u00e7\u00f5es,\u00a0esvaziou-as. N\u00e3o fechou tribunais,\u00a0domesticou-os. N\u00e3o dissolveu o parlamento,\u00a0transformou-o em cen\u00e1rio. A legitimidade n\u00e3o foi\u00a0suprimida; foi cuidadosamente encenada. Criou-se, assim, uma tutela das institui\u00e7\u00f5es,\u00a0uma legalidade que n\u00e3o corrige o poder, mas o perpetua.<\/span><span data-ccp-props=\"{}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"none\">Diante disso, toda a\u00e7\u00e3o externa parece contaminada. Intervir \u00e9 facilmente rotulado como golpe; n\u00e3o intervir, como cumplicidade. O direito internacional, concebido para arbitrar conflitos entre Estados soberanos relativamente est\u00e1veis, mostra-se fr\u00e1gil diante de regimes que n\u00e3o negam a legalidade, mas a consomem por dentro. O dilema, ent\u00e3o, \u00e9\u00a0como defender a democracia sem violar o princ\u00edpio que a sustenta?<\/span><span data-ccp-props=\"{}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"none\">Esse impasse torna-se ainda mais grave quando, em outro ponto do tabuleiro, pa\u00edses que sempre se apresentaram como pilares da ordem internacional passam a relativizar as mesmas regras que ajudaram a construir. Quando uma pot\u00eancia que pode agir militar, econ\u00f4mica e\u00a0tecnologicamente\u00a0come\u00e7a a tutelar ou corroer as institui\u00e7\u00f5es internacionais em vez de sustent\u00e1-las, algo se rompe num n\u00edvel\u00a0t\u00e3o profundo que\u00a0n\u00e3o \u00e9\u00a0mais\u00a0apenas uma norma que \u00e9 violada; \u00e9 a pr\u00f3pria ideia de norma que se enfraquece.<\/span><span data-ccp-props=\"{}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"none\">Nesse contexto, as amea\u00e7as,\u00a0ainda que ret\u00f3ricas,\u00a0de anexa\u00e7\u00e3o da\u00a0Groenl\u00e2ndia\u00a0pelos\u00a0Estados Unidos\u00a0ganham um peso simb\u00f3lico devastador. Mesmo que jamais se concretizem, elas\u00a0reintroduzem\u00a0a expans\u00e3o territorial como possibilidade leg\u00edtima\u00a0no discurso pol\u00edtico,\u00a0algo que, desde o p\u00f3s-guerra, era considerado\u00a0intrat\u00e1vel\u00a0entre democracias consolidadas.<\/span><span data-ccp-props=\"{}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"none\">Ap\u00f3s a\u00a0Segunda Guerra Mundial, construiu-se a confian\u00e7a de que ningu\u00e9m mais reivindicaria o direito de reorganizar o mundo pela for\u00e7a.\u00a0Um pacto fr\u00e1gil, mas decisivo.\u00a0Hoje,\u00a0esse pacto\u00a0est\u00e1 rompido\u00a0pela volta da amea\u00e7a como instrumento leg\u00edtimo de negocia\u00e7\u00e3o.<\/span><span data-ccp-props=\"{}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"none\">A esse cen\u00e1rio,\u00a0j\u00e1 inst\u00e1vel,\u00a0soma-se a emerg\u00eancia de projetos de\u00a0civiliza\u00e7\u00f5es-Estado, que n\u00e3o se reconhecem como pa\u00edses entre outros, mas como centros hist\u00f3ricos com direitos difusos sobre territ\u00f3rios e povos\u00a0como\u00a0um terceiro movimento estrutural.<\/span><span data-ccp-props=\"{}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"none\">A\u00a0China, ao pensar-se cada vez mais como\u00a0<\/span><i><span data-contrast=\"none\">uma grande China<\/span><\/i><span data-contrast=\"none\">, recupera uma gram\u00e1tica imperial na qual fronteiras contempor\u00e2neas s\u00e3o vistas como interrup\u00e7\u00f5es provis\u00f3rias de uma continuidade hist\u00f3rica mais profunda. Pa\u00edses\u00a0vizinhos deixam de ser plenamente soberanos e passam a ser compreendidos como zonas naturais de influ\u00eancia, seguran\u00e7a ou heran\u00e7a cultural.<\/span><span data-ccp-props=\"{}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"none\">Essa l\u00f3gica relativiza o direito internacional sem neg\u00e1-lo frontalmente. Ele \u00e9 reinterpretado, flexibilizado, contornado. O perigo n\u00e3o est\u00e1 apenas no conflito aberto, mas na aceita\u00e7\u00e3o progressiva da ideia de que a for\u00e7a hist\u00f3rica,\u00a0econ\u00f4mica, demogr\u00e1fica, tecnol\u00f3gica,\u00a0geram\u00a0direitos pol\u00edticos especiais.<\/span><span data-ccp-props=\"{}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"none\">De modo ainda mais expl\u00edcito, essa gram\u00e1tica manifesta-se na ideia de uma\u00a0R\u00fassia\u00a0restaurada. A longa guerra contra a\u00a0Ucr\u00e2nia\u00a0\u00e9 a tentativa de reescrever o mapa moral do p\u00f3s-Guerra Fria. Ao negar a plena legitimidade de um pa\u00eds vizinho, a R\u00fassia desafia n\u00e3o um Estado espec\u00edfico, mas o princ\u00edpio de que povos podem escolher seu destino fora das \u00f3rbitas imperiais do passado.<\/span><span data-ccp-props=\"{}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"none\">A guerra Russa surte\u00a0o seu efeito pedag\u00f3gico. Vizinhos observam; a\u00a0Europa\u00a0reencontra fantasmas que julgava superados\u00a0e\u00a0a for\u00e7a voltou a ser argumento para corrigir a hist\u00f3ria.<\/span><span data-ccp-props=\"{}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"none\">\u00c9 nesse ponto que tudo pode se acelerar. Quando diferentes pot\u00eancias, cada uma \u00e0 sua maneira, passam a questionar os limites\u00a0civilizacionais, cria-se um efeito de cont\u00e1gio. A exce\u00e7\u00e3o deixa de ser exce\u00e7\u00e3o. O gesto de um legitima a aud\u00e1cia do outro. Mesmo amea\u00e7as n\u00e3o cumpridas produzem efeitos reais, pois deslocam o centro de gravidade do sistema internacional\u00a0do direito para a capacidade de impor fatos.<\/span><span data-ccp-props=\"{}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"none\">O mundo de 2026\u00a0inicia-se com\u00a0uma\u00a0crise de crit\u00e9rios. J\u00e1 n\u00e3o est\u00e1 claro quem tem autoridade para julgar, nem com que instrumentos, nem at\u00e9 onde pode ir sem se tornar aquilo que pretende combater. Depor governantes que tutelam seus pa\u00edses parece necess\u00e1rio; faz\u00ea-lo corroendo os fundamentos da soberania parece autodestrutivo. Defender a ordem internacional exige for\u00e7a; us\u00e1-la em excesso dissolve a pr\u00f3pria ordem que se\u00a0busca\u00a0preservar.<\/span><span data-ccp-props=\"{}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"none\">O\u00a0tra\u00e7o mais inquietante deste tempo\u00a0\u00e9\u00a0a sensa\u00e7\u00e3o de que n\u00e3o estamos assistindo apenas ao fim de uma ordem, mas ao fim da cren\u00e7a de que uma ordem comum seja poss\u00edvel. Quando grandes pot\u00eancias passam a pensar-se como exce\u00e7\u00f5es permanentes, o mundo deixa de ser um espa\u00e7o compartilhado e volta a ser um tabuleiro. E tabuleiros, como a hist\u00f3ria insiste em lembrar, n\u00e3o conhecem dilemas morais,\u00a0apenas movimentos.<\/span><span data-ccp-props=\"{}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"none\">Viver no dilema parece, por enquanto, a \u00fanica sa\u00edda. N\u00e3o porque seja desej\u00e1vel, mas porque as alternativas f\u00e1ceis j\u00e1 demonstraram seu custo hist\u00f3rico. Habitar o dilema significa reconhecer limites, aceitar a tens\u00e3o, resistir \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o das solu\u00e7\u00f5es absolutas num mundo que perdeu os crit\u00e9rios absolutos.<\/span><span data-ccp-props=\"{}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"none\">\u00c9 nesse ponto que o Evangelho de Cristo pode\u00a0iluminar\u00a0com\u00a0ju\u00edzos\u00a0mais profundos. O Evangelho n\u00e3o promete atalhos, mas prop\u00f5e um modo de atravessar o conflito sem perder a alma. Ele recusa tanto a domina\u00e7\u00e3o quanto a indiferen\u00e7a; denuncia a viol\u00eancia sem absolver a injusti\u00e7a; insiste na verdade sem se render \u00e0 l\u00f3gica da for\u00e7a. Sua luz n\u00e3o elimina o dilema, mas impede que o dilema se converta em desespero.<\/span><span data-ccp-props=\"{}\">\u00a0<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dom Lindomar Rocha Mota Bispo de S\u00e3o Lu\u00eds de Montes Belos (GO)\u00a0 \u00a0 O in\u00edcio de 2026 encontra o mundo suspenso numa zona de ambiguidade hist\u00f3rica. Algo sutil e perigoso est\u00e1 em curso. H\u00e1\u00a0uma corros\u00e3o dos crit\u00e9rios com os quais, desde 1945, aprendemos a\u00a0diferenciar\u00a0for\u00e7a de direito, soberania de arb\u00edtrio\u00a0e\u00a0corre\u00e7\u00e3o de abuso, inaugurando um\u00a0dilema moral, jur\u00eddico &hellip;<\/p>\n<p class=\"read-more\"> <a class=\"\" href=\"https:\/\/www.cnbb.org.br\/o-dilema-de-um-mundo-sem-consenso\/\"> <span class=\"screen-reader-text\">O\u00a0dilema\u00a0de\u00a0um\u00a0mundo sem\u00a0consenso\u00a0<\/span> Leia mais &raquo;<\/a><\/p>\n","protected":false},"author":112,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":""},"categories":[758],"tags":[],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts\/993334"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/users\/112"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/comments?post=993334"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts\/993334\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":993336,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts\/993334\/revisions\/993336"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/media?parent=993334"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/categories?post=993334"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/tags?post=993334"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}