{"id":993502,"date":"2026-01-09T08:45:56","date_gmt":"2026-01-09T11:45:56","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/?p=993502"},"modified":"2026-01-09T08:50:12","modified_gmt":"2026-01-09T11:50:12","slug":"vaticano-ii-o-concilio-do-presente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/vaticano-ii-o-concilio-do-presente\/","title":{"rendered":"Vaticano II, o Conc\u00edlio do presente\u00a0"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><strong>Dom Lindomar Rocha Mota<br \/>\nBispo de S\u00e3o Lu\u00eds de Montes Belos (GO)\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-ccp-props=\"{}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"none\">A aud\u00e1cia maior\u00a0do Vaticano II, evidencia-se\u00a0na\u00a0<\/span><i><span data-contrast=\"none\">Gaudium et Spes<\/span><\/i><span data-contrast=\"none\">, um\u00a0texto\u00a0que al\u00e9m de\u00a0reformar linguagens\u00a0e\u00a0ajustar m\u00e9todos,\u00a0desloca o ponto de partida.\u00a0Como se tivesse percebido, com uma lucidez\u00a0sem precedente, que as grandes respostas fracassam quando ignoram os\u00a0lugares\u00a0onde a vida d\u00f3i.<\/span><span data-ccp-props=\"{}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"none\">Em vez de iniciar pela arquitetura das provas,\u00a0a\u00a0<\/span><i><span data-contrast=\"none\">Gaudium et Spes<\/span><\/i><span data-contrast=\"none\">\u00a0come\u00e7ou\u00a0pela humanidade\u00a0ferida.\u00a0Descartou\u00a0o abstrato, que paira intacto acima das ru\u00ednas,\u00a0e acolheu\u00a0a terra,\u00a0assim como Jesus fez. Acolheu o caminho\u00a0onde os passos pesam e o tempo deixa marcas.<\/span><span data-ccp-props=\"{}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"none\">N\u00e3o a metaf\u00edsica do absoluto, mas a pergunta que se insinua nas horas mais vulner\u00e1veis\u00a0\u2014\u00a0<\/span><i><span data-contrast=\"none\">por que sofremos?<\/span><\/i><span data-contrast=\"none\">\u00a0\u2014 e, logo depois, quase sem transi\u00e7\u00e3o, como um eco que se recusa a calar\u00a0\u2014\u00a0<\/span><i><span data-contrast=\"none\">por que, apesar de tudo, ainda esperamos?<\/span><\/i><span data-ccp-props=\"{}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"none\">As alegrias e as esperan\u00e7as, as tristezas e as ang\u00fastias,\u00a0sobretudo dos pobres e dos que sofrem,\u00a0tornaram-se,\u00a0ent\u00e3o, o\u00a0aut\u00eantico\u00a0pr\u00f3logo da teologia.<\/span><span data-ccp-props=\"{}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"none\">Antes de falar de Deus, \u00e9 preciso escutar o tempo humano. E o tempo humano n\u00e3o se deixa reduzir \u00e0 sucess\u00e3o dos dias.\u00a0Ele se dobra, retorna, acelera, estagna.<\/span><span data-ccp-props=\"{}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"none\">H\u00e1 dores que parecem novas e s\u00e3o antigas; h\u00e1 esperan\u00e7as que julg\u00e1vamos superadas e que reaparecem, como se tivessem aguardado o instante prop\u00edcio para se revelarem.<\/span><span data-ccp-props=\"{}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"none\">Lendo hoje aquele in\u00edcio, somos tomados por uma estranha sensa\u00e7\u00e3o de reconhecimento. Como ocorre na experi\u00eancia da mem\u00f3ria involunt\u00e1ria, algo ali se oferece como reencontro. O texto fala de uma humanidade submetida a transforma\u00e7\u00f5es r\u00e1pidas, quase vertiginosas\u00a0que ecoa em\u00a0n\u00f3s, que vivemos numa \u00e9poca em que o presente mal se deixa habitar antes de se tornar passado, reconhecemos que essa rapidez n\u00e3o cessou de se intensificar.\u00a0Uma\u00a0inquietante acelera\u00e7\u00e3o interior com\u00a0a\u00a0qual\u00a0a\u00a0humanidade\u00a0se afasta de si, como se estivesse sempre atrasado em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 pr\u00f3pria vida.<\/span><span data-ccp-props=\"{}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"none\">O ensaio conciliar observa esse fen\u00f4meno\u00a0sem\u00a0acusar\u00a0nem dramatizar\u00a0em excesso. Ele descreve uma\u00a0humanidade\u00a0que acumula meios e perde a capacidade de permanecer; que domina a mat\u00e9ria e, paradoxalmente, sente crescer uma fragilidade \u00edntima; que amplia as possibilidades de escolha e descobre, com espanto, que nenhuma delas o livra da pergunta essencial quando o\u00a0barulho\u00a0se\u00a0aquieta. O progresso avan\u00e7a, a comunica\u00e7\u00e3o se expande, a hist\u00f3ria se comprime,\u00a0mas a consci\u00eancia, em vez de pacificar-se, torna-se mais inquieta, mais exposta, mais vulner\u00e1vel ao cansa\u00e7o de existir.<\/span><span data-ccp-props=\"{}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"none\">H\u00e1, nesse olhar, uma percep\u00e7\u00e3o\u00a0refinada\u00a0do desencontro entre abund\u00e2ncia e sentido\u00a0que fragiliza as perguntas. E, se as perguntas se fragilizam, torna-se\u00a0dif\u00edcil\u00a0as respostas.<\/span><span data-ccp-props=\"{}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"none\">A\u00a0humanidade\u00a0aprende a prolongar a vida, mas n\u00e3o a habit\u00e1-la. Aprende a prever o futuro, mas n\u00e3o a suportar o presente. Aprende a explicar quase tudo, mas permanece silenciosa\u00a0diante do essencial. A ang\u00fastia, nesse contexto,\u00a0\u00e9 um sintoma\u00a0e\u00a0n\u00e3o um acidente. Ela revela que algo\u00a0est\u00e1\u00a0excedendo\u00a0as respostas dispon\u00edveis.<\/span><span data-ccp-props=\"{}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"none\">E, no entanto, o texto n\u00e3o se entrega ao desencanto. Ele mant\u00e9m, com firmeza serena\u00a0a esperan\u00e7a como resist\u00eancia interior. Uma esperan\u00e7a\u00a0circunspecta, quase involunt\u00e1ria, semelhante \u00e0quela que retorna na mem\u00f3ria\u00a0como\u00a0um resto que insiste. Mesmo ferida,\u00a0a\u00a0humanidade\u00a0continua a desejar uma vida plena. Mesmo\u00a0desiludida, pressente que a exist\u00eancia n\u00e3o se esgota no que \u00e9 mensur\u00e1vel. Mesmo cercada\u00a0de explica\u00e7\u00f5es, experimenta um excedente que n\u00e3o se prova, mas se imp\u00f5e.<\/span><span data-ccp-props=\"{}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"none\">Por isso, o Vaticano II\u00a0n\u00e3o se apresse em resolver a quest\u00e3o de Deus. Ele parece compreender que, para muitos, essa quest\u00e3o foi soterrada menos por argumentos do que por decep\u00e7\u00f5es. Que h\u00e1 nega\u00e7\u00f5es que nascem do protesto, sil\u00eancios que nascem do cansa\u00e7o, indiferen\u00e7as que s\u00e3o formas de defesa. O ate\u00edsmo, em certos casos, n\u00e3o\u00a0surge\u00a0como triunfo da raz\u00e3o, mas como grito moral diante de um mundo que parece injustific\u00e1vel. Nada disso \u00e9 tratado com ironia; tudo \u00e9 acolhido\u00a0em sua import\u00e2ncia.<\/span><span data-ccp-props=\"{}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"none\">Nesse ponto,\u00a0a\u00a0f\u00e9\u00a0\u00e9\u00a0ressurge\u00a0como\u00a0int\u00e9rprete\u00a0atenta\u00a0da humanidade,\u00a0n\u00e3o\u00a0como sua\u00a0concorrente. Aqui,\u00a0a verdadeira ousadia se revela! Pois, falar de Deus s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel depois de atravessar o humano,\u00a0e n\u00e3o por cima dele.\u00a0Uma\u00a0teologia\u00a0constru\u00edda\u00a0a partir da proximidade\u00a0e\u00a0da vulnerabilidade compartilhada.\u00a0Logo, n\u00e3o h\u00e1 realidade verdadeiramente humana que n\u00e3o mere\u00e7a ser escutada!<\/span><span data-ccp-props=\"{}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"none\">\u00c9 por isso que o tempo daquele texto n\u00e3o se encerrou. Ele n\u00e3o pertence a um\u00a0tempo, mas \u00e0 dura\u00e7\u00e3o. Continua porque a pergunta inicial permanece. Enquanto\u00a0a humanidade\u00a0continuar a sofrer sem compreender plenamente por qu\u00ea; enquanto continuar a alegrar-se sem conseguir justificar essa alegria; enquanto continuar a esperar, mesmo quando afirma n\u00e3o acreditar mais,\u00a0esse pr\u00f3logo continuar\u00e1 a ser escrito no interior inquieto da hist\u00f3ria.\u00a0Esse \u00e9 um\u00a0tra\u00e7o\u00a0que persiste\u00a0ainda hoje.<\/span><span data-ccp-props=\"{}\">\u00a0<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dom Lindomar Rocha Mota Bispo de S\u00e3o Lu\u00eds de Montes Belos (GO)\u00a0 \u00a0 A aud\u00e1cia maior\u00a0do Vaticano II, evidencia-se\u00a0na\u00a0Gaudium et Spes, um\u00a0texto\u00a0que al\u00e9m de\u00a0reformar linguagens\u00a0e\u00a0ajustar m\u00e9todos,\u00a0desloca o ponto de partida.\u00a0Como se tivesse percebido, com uma lucidez\u00a0sem precedente, que as grandes respostas fracassam quando ignoram os\u00a0lugares\u00a0onde a vida d\u00f3i.\u00a0 Em vez de iniciar pela arquitetura das &hellip;<\/p>\n<p class=\"read-more\"> <a class=\"\" href=\"https:\/\/www.cnbb.org.br\/vaticano-ii-o-concilio-do-presente\/\"> <span class=\"screen-reader-text\">Vaticano II, o Conc\u00edlio do presente\u00a0<\/span> Leia mais &raquo;<\/a><\/p>\n","protected":false},"author":112,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":""},"categories":[758],"tags":[],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts\/993502"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/users\/112"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/comments?post=993502"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts\/993502\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":993505,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts\/993502\/revisions\/993505"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/media?parent=993502"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/categories?post=993502"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/tags?post=993502"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}