{"id":993695,"date":"2026-01-15T11:34:23","date_gmt":"2026-01-15T14:34:23","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/?p=993695"},"modified":"2026-01-15T11:36:48","modified_gmt":"2026-01-15T14:36:48","slug":"escrever-com-sangue","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/escrever-com-sangue\/","title":{"rendered":"Escrever com sangue\u00a0"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><strong>Dom Jo\u00e3o Santos Cardoso\u00a0<\/strong><br \/>\n<strong>Arcebispo de Natal (RN)<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335559731&quot;:567,&quot;335559739&quot;:0,&quot;335559740&quot;:240}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"none\">A prop\u00f3sito da escrita, certa vez ouvi a rea\u00e7\u00e3o de um poeta que, ao ler um texto que o havia\u00a0tocado\u00a0profundamente, exclamou, extasiado:\u202f<\/span><i><span data-contrast=\"none\">\u201cIsso foi escrito com sangue, com as art\u00e9rias, com o mioc\u00e1rdio e tudo o que o cora\u00e7\u00e3o tem direito,\u00a0ou melhor, foi escrito com a alma!\u201d<\/span><\/i><span data-contrast=\"none\">\u00a0A imagem permaneceu em mim. Fiquei a meditar sobre a for\u00e7a metaf\u00f3rica dessa express\u00e3o e sobre o poder da palavra pronunciada com autenticidade, com vida, com paix\u00e3o.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559731&quot;:567,&quot;335559739&quot;:0,&quot;335559740&quot;:240}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"none\">De algum modo, esse pensamento conduziu-me a Nietzsche, especialmente \u00e0 afirma\u00e7\u00e3o inicial do cap\u00edtulo\u202f\u201cDo ler e do escrever\u201d, de\u202f<\/span><i><span data-contrast=\"none\">Assim falou Zaratustra<\/span><\/i><span data-contrast=\"none\">\u202f(I):\u202f<\/span><i><span data-contrast=\"none\">\u201cDe todo o escrito s\u00f3 me agrada aquilo que uma pessoa escreveu com o seu sangue. Escreve com sangue e aprender\u00e1s que o sangue \u00e9 esp\u00edrito.\u201d<\/span><\/i><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559731&quot;:567,&quot;335559739&quot;:0,&quot;335559740&quot;:240}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"none\">No referido cap\u00edtulo, o\u00a0fil\u00f3sofo, longe de fazer um elogio gen\u00e9rico da escrita, formula uma cr\u00edtica severa \u00e0 cultura livresca, \u00e0 leitura passiva e \u00e0 escrita que n\u00e3o nasce da vida. Seu alvo \u00e9 o homem que l\u00ea demais e vive de menos, que acumula palavras, conceitos e doutrinas sem que nada disso tenha atravessado verdadeiramente a sua exist\u00eancia. Ao rejeitar a palavra sem vida e criticar a erudi\u00e7\u00e3o vazia, Nietzsche defende a palavra como\u202ftestemunho existencial\u202fe afirma a unidade entre pensamento e vida como exig\u00eancia \u00e9tica e espiritual da escrita. Assim, s\u00f3 merece ser lido aquilo que foi escrito com sangue, isto \u00e9, a partir de uma vida vivida intensamente; s\u00f3 merece ser escrito aquilo que compromete quem escreve; e s\u00f3 h\u00e1 esp\u00edrito verdadeiro onde o pensamento foi atravessado pela carne da exist\u00eancia.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559731&quot;:567,&quot;335559739&quot;:0,&quot;335559740&quot;:240}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"none\">\u201cEscrever com sangue\u201d, portanto, n\u00e3o \u00e9 um convite ao exagero ret\u00f3rico nem \u00e0 viol\u00eancia verbal, t\u00e3o em voga em nossos dias, mas uma exig\u00eancia radical de autenticidade existencial. Trata-se de uma das cr\u00edticas mais incisivas \u00e0 palavra vazia e \u00e0 escrita descomprometida com a vida. Para Nietzsche, s\u00f3 merece o nome de palavra verdadeira aquela que nasce da pr\u00f3pria carne da exist\u00eancia, do risco assumido, da dor atravessada e da alegria conquistada.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559731&quot;:567,&quot;335559739&quot;:0,&quot;335559740&quot;:240}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"none\">O \u201csangue\u201d, aqui, \u00e9 met\u00e1fora da vida concreta. \u00c9 o lugar onde pensamento e exist\u00eancia caminham juntos. Representa a rejei\u00e7\u00e3o ao discurso que permanece apenas no plano da abstra\u00e7\u00e3o, da repeti\u00e7\u00e3o erudita ou da neutralidade confort\u00e1vel. A palavra que n\u00e3o custa nada \u2014 que n\u00e3o compromete, n\u00e3o fere, n\u00e3o transforma \u2014 \u00e9\u00a0espiritualmente est\u00e9ril. Por isso\u00a0Nietzsche\u00a0afirma, de modo deliberadamente provocativo, que\u202fo sangue \u00e9 esp\u00edrito, isto \u00e9, n\u00e3o h\u00e1 verdadeiro esp\u00edrito onde a vida n\u00e3o foi implicada.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559731&quot;:567,&quot;335559739&quot;:0,&quot;335559740&quot;:240}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"none\">Essa intui\u00e7\u00e3o toca um ponto decisivo da condi\u00e7\u00e3o humana:\u202fa verdade n\u00e3o \u00e9 apenas algo que se pensa; \u00e9 algo que se vive. A palavra s\u00f3 adquire densidade quando passa pelo crivo da experi\u00eancia, quando \u00e9 atravessada pela hist\u00f3ria pessoal, pelas perdas, pelas decis\u00f5es dif\u00edceis e pelos encontros que nos transformam. Escrever com sangue \u00e9 escrever a partir de dentro, n\u00e3o como espectador da vida, mas como algu\u00e9m que foi por ela ferido e, apesar disso \u2014 ou justamente por isso \u2014 ousa falar.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559731&quot;:567,&quot;335559739&quot;:0,&quot;335559740&quot;:240}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"none\">Nesse sentido, Nietzsche antecipa uma cr\u00edtica que permanece atual. Vivemos cercados de discursos abundantes, r\u00e1pidos e facilmente descart\u00e1veis, mas raramente encontramos palavras que tenham sido \u201cpagas\u201d com vida. Multiplicam-se opini\u00f5es, an\u00e1lises e ju\u00edzos; escasseiam, por\u00e9m, os testemunhos. Falta-nos, muitas vezes, a coragem de dizer apenas aquilo que foi verdadeiramente experimentado, discernido e assumido.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559731&quot;:567,&quot;335559739&quot;:0,&quot;335559740&quot;:240}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"none\">H\u00e1 tamb\u00e9m, na exig\u00eancia de \u201cescrever com sangue\u201d, uma verdadeira\u202f\u00e9tica da palavra. Quem escreve \u2014 ou fala \u2014 assume responsabilidade sobre aquilo que\u00a0diz. Escrever com sangue implica aceitar que a palavra compromete quem a\u00a0pronuncia. Ela\u00a0deixa marcas, tanto em quem a recebe quanto em quem a oferece. Por isso, essa escrita n\u00e3o \u00e9 ruidosa nem inflamada; ao contr\u00e1rio, costuma ser s\u00f3bria, densa, \u00e0s vezes at\u00e9 silenciosa. N\u00e3o nasce da pressa de convencer, mas da necessidade interior de ser fiel ao que foi vivido.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559731&quot;:567,&quot;335559739&quot;:0,&quot;335559740&quot;:240}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"none\">Paradoxalmente, essa concep\u00e7\u00e3o aproxima Nietzsche de uma tradi\u00e7\u00e3o muito mais ampla do que ele talvez admitisse: a tradi\u00e7\u00e3o do\u202ftestemunho. Em diferentes campos \u2014 filos\u00f3fico, liter\u00e1rio e espiritual \u2014 a palavra que permanece \u00e9 aquela que carrega o peso da exist\u00eancia. O que atravessa o tempo n\u00e3o \u00e9 o discurso perfeito, mas o discurso verdadeiro; n\u00e3o o mais elaborado, mas o mais encarnado.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559731&quot;:567,&quot;335559739&quot;:0,&quot;335559740&quot;:240}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"none\">Escrever com sangue, portanto, n\u00e3o \u00e9 escrever para impressionar. Ao contr\u00e1rio, \u00e9 uma necessidade que nasce da exig\u00eancia de responder \u00e0 vida. \u00c9 permitir que o pensamento seja ferido pela realidade e que a realidade, por sua vez, encontre voz no pensamento. S\u00f3 assim a palavra deixa de ser ornamento e se torna caminho; deixa de ser ru\u00eddo e se torna esp\u00edrito.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559731&quot;:567,&quot;335559739&quot;:0,&quot;335559740&quot;:240}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"none\">Num tempo em que tanto se escreve e t\u00e3o pouco permanece, a provoca\u00e7\u00e3o de Nietzsche continua a ecoar como um exame de consci\u00eancia para todo aquele que faz uso da palavra:\u202faquilo que digo nasceu da vida ou apenas da superf\u00edcie das ideias?\u00a0Se nasceu do sangue, ent\u00e3o, talvez, seja esp\u00edrito.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559731&quot;:567,&quot;335559739&quot;:0,&quot;335559740&quot;:240}\">\u00a0<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dom Jo\u00e3o Santos Cardoso\u00a0 Arcebispo de Natal (RN) \u00a0 A prop\u00f3sito da escrita, certa vez ouvi a rea\u00e7\u00e3o de um poeta que, ao ler um texto que o havia\u00a0tocado\u00a0profundamente, exclamou, extasiado:\u202f\u201cIsso foi escrito com sangue, com as art\u00e9rias, com o mioc\u00e1rdio e tudo o que o cora\u00e7\u00e3o tem direito,\u00a0ou melhor, foi escrito com a alma!\u201d\u00a0A &hellip;<\/p>\n<p class=\"read-more\"> <a class=\"\" href=\"https:\/\/www.cnbb.org.br\/escrever-com-sangue\/\"> <span class=\"screen-reader-text\">Escrever com sangue\u00a0<\/span> Leia mais &raquo;<\/a><\/p>\n","protected":false},"author":105,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":""},"categories":[758],"tags":[],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts\/993695"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/users\/105"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/comments?post=993695"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts\/993695\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":993696,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts\/993695\/revisions\/993696"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/media?parent=993695"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/categories?post=993695"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/tags?post=993695"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}