{"id":994155,"date":"2026-01-26T13:00:58","date_gmt":"2026-01-26T16:00:58","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/?p=994155"},"modified":"2026-01-26T13:01:48","modified_gmt":"2026-01-26T16:01:48","slug":"moinhos-de-vento","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/moinhos-de-vento\/","title":{"rendered":"Moinhos de vento\u00a0"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><strong>Dom Geraldo dos Reis Maia<br \/>\nBispo de Ara\u00e7ua\u00ed (MG)<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" data-ccp-border-between=\"0px none #000000\" data-ccp-padding-between=\"0px\"><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335559739&quot;:0,&quot;335559740&quot;:240,&quot;335572071&quot;:0,&quot;335572072&quot;:0,&quot;335572073&quot;:4278190080,&quot;335572075&quot;:0,&quot;335572076&quot;:0,&quot;335572077&quot;:4278190080,&quot;335572079&quot;:0,&quot;335572080&quot;:0,&quot;335572081&quot;:4278190080,&quot;335572083&quot;:0,&quot;335572084&quot;:0,&quot;335572085&quot;:4278190080,&quot;335572087&quot;:0,&quot;335572088&quot;:0,&quot;335572089&quot;:4278190080,&quot;469789798&quot;:&quot;nil&quot;,&quot;469789802&quot;:&quot;nil&quot;,&quot;469789806&quot;:&quot;nil&quot;,&quot;469789810&quot;:&quot;nil&quot;,&quot;469789814&quot;:&quot;nil&quot;}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">\u201cDom Quixote de\u00a0la\u00a0Mancha\u201d, obra de Miguel de Cervantes<\/span><span data-contrast=\"none\">\u00a0<\/span><span data-contrast=\"auto\">y Saavedra (1547-1616), foi o cl\u00e1ssico que consagrou a l\u00edngua do Reino de Castela, chamada de castelhano, e, tendo sido oficializada, mais tarde, na Espanha, passou a ser denominada espanhol.<\/span><span data-contrast=\"none\">\u00a0<\/span><span data-contrast=\"auto\">O t\u00edtulo e ortografia originais da obra eram \u201c<\/span><i><span data-contrast=\"auto\">El ingenioso\u00a0hidalgo\u00a0Don\u00a0Qvixote\u00a0de La Mancha<\/span><\/i><span data-contrast=\"auto\">\u201d, com sua primeira edi\u00e7\u00e3o publicada em Madrid no ano de 1605. \u00c9 composto por 126 cap\u00edtulos, divididos em duas partes: a primeira surgida em 1605 e a outra em 1615.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">Tal cl\u00e1ssico da literatura mundial narra as aventuras e desventuras de um homem de meia-idade que resolveu se tornar cavaleiro andante depois de ler muitos romances de cavalaria. Providenciando cavalo e armadura, Dom Quixote passa a lutar para provar seu amor por Dulcineia, sua musa imagin\u00e1ria. O destemido cavaleiro \u00e9 sempre acompanhado por seu fiel escudeiro, Sancho Pan\u00e7a.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">\u201cMudar o mundo, meu amigo Sancho, n\u00e3o \u00e9 loucura, n\u00e3o \u00e9 utopia, \u00e9 justi\u00e7a!\u201d. Essa \u00e9 uma das frases mais citadas, colocadas na boca de Dom Quixote. Conhecedores da obra afirmam que a frase nela n\u00e3o consta. Foram verificadas as edi\u00e7\u00f5es brasileiras da Nova Fronteira (2017) e da\u00a0Penguin-Companhia (2012), bem como a edi\u00e7\u00e3o espanhola da Real Academia, publicada digitalmente em junho de 2015, e nada foi encontrado sobre tal frase atribu\u00edda ao nobre cavaleiro.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">Seja como for, a frase acima explicita o esp\u00edrito de Dom Quixote. Montado em seu cavalo,\u00a0Rocinante, vai \u00e0 procura de um mundo novo. \u00c9 uma met\u00e1fora do ser humano na aurora da Modernidade. Cervantes se serve da loucura ou alucina\u00e7\u00e3o, como lugar liter\u00e1rio, para trazer \u00e0 luz aspectos de uma nova fase hist\u00f3rico-cultural, como t\u00e3o bem fez seu contempor\u00e2neo Shakespeare, especialmente em Hamlet.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">Uma das cenas mais conhecidas e emblem\u00e1ticas\u00a0dessa importante\u00a0obra \u00e9 narrada no Cap\u00edtulo VIII (Parte I), intitulado \u201cDo bom sucesso que teve o valoroso D. Quixote na espantosa e jamais imaginada aventura dos moinhos de vento, com outros sucessos dignos de feliz recorda\u00e7\u00e3o\u201d. Seguiremos aqui a edi\u00e7\u00e3o da Nova Cultural (2002), com tradu\u00e7\u00e3o de Viscondes de Castilho e Azevedo.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">Os dois desbravadores do mundo cruel se deparam com trinta ou quarenta moinhos de vento. Neles, Dom Quixote enxerga \u201cdesaforados gigantes\u201d, contra quem decide travar batalha. Para o \u201cCavaleiro da triste figura\u201d, trata-se de \u201cboa guerra\u201d, pois \u201cbom servi\u00e7o faz a Deus quem tira t\u00e3o m\u00e1 ra\u00e7a da face da terra\u201d. Em v\u00e3o, Sancho tenta dissuadir seu amo e traz\u00ea-lo \u00e0 realidade. \u201cBem se v\u00ea \u2014 respondeu D. Quixote \u2014 que n\u00e3o\u00a0andas corrente\u00a0nisto das aventuras; s\u00e3o gigantes, s\u00e3o; e, se tens medo, tira-te da\u00ed, e p\u00f5e-te em ora\u00e7\u00e3o enquanto eu vou entrar com eles em feroz e desigual batalha\u201d.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">\u00c0 dist\u00e2ncia, Sancho assiste incr\u00e9dulo \u00e0 investida corajosa de Dom Quixote, montado em seu Rocinante, indo em dire\u00e7\u00e3o aos moinhos de vento, armado com sua lan\u00e7a. Cego por sua obstina\u00e7\u00e3o, n\u00e3o ouvia as v\u00e3s tentativas de seu fiel escudeiro e bradava aos imagin\u00e1rios inimigos: \u201cN\u00e3o fujais, covardes e vis criaturas; \u00e9 um s\u00f3 cavaleiro o que vos investe\u201d. Com um pouco de vento que surge, as velas dos moinhos come\u00e7am a mover-se e Dom Quixote est\u00e1 certo\u00a0que\u00a0seus oponentes n\u00e3o o haveriam de intimidar. Chamou novamente \u00e0 mem\u00f3ria sua musa inspiradora, a\u00a0doce\u00a0Dulcineia, e arremeteu-se a todo galope em dire\u00e7\u00e3o ao primeiro moinho que se encontrava \u00e0 sua frente, convencido de que se tratava de um inimigo gigante.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">Cervantes narra a cena fat\u00eddica: \u201cdando-lhe uma lan\u00e7ada na vela, o vento a volveu com tanta f\u00faria, que fez a lan\u00e7a em peda\u00e7os, levando desastradamente cavalo e cavaleiro, que foi rodando miseravelmente pelo campo afora\u201d. Podendo prever o desastre, Sancho correu a acudir o seu amo. Mesmo com o infort\u00fanio acometido, Dom Quixote ainda n\u00e3o se convenceu de que tinha sido iludido por um transe e estava certo de que \u201cas coisas da guerra s\u00e3o de todas as mais sujeitas a cont\u00ednuas mudan\u00e7as\u201d. Sua justificativa foi que seu s\u00e1bio inimigo havia transformado os gigantes em moinhos, para lhe \u201cfalsear a gl\u00f3ria de os vencer\u201d.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">A loucura n\u00e3o era privil\u00e9gio da aurora da Modernidade. Novos moinhos de vento hoje s\u00e3o transformados em inimigos imagin\u00e1rios. Pior ainda: o solit\u00e1rio cavaleiro torna-se a triste figura de uma parte da humanidade, iludida por falsos inimigos. Os \u201cSanchos\u00a0Pan\u00e7as\u201d atuais continuam a advertir que se trata apenas de moinhos de vento, \u201ce que s\u00f3 o podia desconhecer quem dentro na cabe\u00e7a tivesse outros\u201d. S\u00e3o muitos os que se investem contra esses moinhos de vento, com suas armas em riste, julgando estar prestando um bem \u00e0 sociedade. Devaneio, alucina\u00e7\u00e3o, loucura\u2026 O desastre est\u00e1 anunciado, e suas consequ\u00eancias s\u00e3o imprevis\u00edveis.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">Dom Quixote passa a ser, agora, met\u00e1fora do ser humano em tempos de P\u00f3s-modernidade, de forma mais intensa e nociva, \u00e0 procura de inimigos imagin\u00e1rios, condi\u00e7\u00e3o para manter-se em batalha, numa vis\u00e3o manique\u00edsta da realidade. Montam-se cen\u00e1rios de luta entre o bem e o mal&#8230; Para firmar ideologias de poder, criam-se inimigos a serem combatidos. Aumenta o n\u00famero de alucinados, diminui o contingente de l\u00facidos. Que futuro vai se desenhando aos nossos olhos?<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6}\">\u00a0<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dom Geraldo dos Reis Maia Bispo de Ara\u00e7ua\u00ed (MG) \u00a0 \u201cDom Quixote de\u00a0la\u00a0Mancha\u201d, obra de Miguel de Cervantes\u00a0y Saavedra (1547-1616), foi o cl\u00e1ssico que consagrou a l\u00edngua do Reino de Castela, chamada de castelhano, e, tendo sido oficializada, mais tarde, na Espanha, passou a ser denominada espanhol.\u00a0O t\u00edtulo e ortografia originais da obra eram \u201cEl &hellip;<\/p>\n<p class=\"read-more\"> <a class=\"\" href=\"https:\/\/www.cnbb.org.br\/moinhos-de-vento\/\"> <span class=\"screen-reader-text\">Moinhos de vento\u00a0<\/span> Leia mais &raquo;<\/a><\/p>\n","protected":false},"author":2847,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":""},"categories":[758],"tags":[],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts\/994155"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/users\/2847"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/comments?post=994155"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts\/994155\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":994157,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts\/994155\/revisions\/994157"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/media?parent=994155"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/categories?post=994155"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/tags?post=994155"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}