{"id":994400,"date":"2026-02-02T11:46:03","date_gmt":"2026-02-02T14:46:03","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/?p=994400"},"modified":"2026-02-02T11:46:34","modified_gmt":"2026-02-02T14:46:34","slug":"cegueira-e-medo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cegueira-e-medo\/","title":{"rendered":"Cegueira e medo\u00a0"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><strong>Dom\u00a0Geraldo\u00a0dos Reis\u00a0Maia<br \/>\nBispo de Ara\u00e7ua\u00ed (MG)<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335559739&quot;:0,&quot;335559740&quot;:240}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">No seu \u201cEnsaio sobre a cegueira\u201d (livro 1995; filme 2008), Saramago usa a cegueira f\u00edsica de seus personagens fict\u00edcios para falar sobre a cegueira mental de pessoas reais. Em estilo de realismo psicol\u00f3gico, o autor apresenta um diagn\u00f3stico da sociedade ocidental contempor\u00e2nea,\u00a0por meio\u00a0de personagens, conflitos, desejos e pensamentos, com a clara inten\u00e7\u00e3o\u00a0de retratar a condi\u00e7\u00e3o humana.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">Saramago\u00a0se serve da categoria de \u201ccegueira branca\u201d como representa\u00e7\u00e3o de\u00a0todos\u00a0n\u00f3s,\u00a0mergulhados na banheira das vaidades. \u201cCegueira \u00e9 uma quest\u00e3o privada entre a pessoa e os olhos com que nasceu\u201d, esclarece Saramago (p\u00e1g. 39).\u00a0Com um refinado deboche liter\u00e1rio,\u00a0o autor\u00a0escreve: \u201cSeria horr\u00edvel, um mundo todo de cegos,\u00a0n\u00e3o\u00a0quero nem imaginar\u201d (p\u00e1g. 60). E esclarece a concep\u00e7\u00e3o de vida daqueles que sofrem de \u201ccegueira branca\u201d: \u201cPara estes, a cegueira n\u00e3o era viver banalmente rodeado de trevas, mas no interior de uma gl\u00f3ria luminosa\u201d (p\u00e1g. 94).<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">J\u00e1 no fim de sua obra,\u00a0o escritor portugu\u00eas, vencedor do\u00a0Nobel de literatura, constata: \u201cCostuma-se at\u00e9 dizer que n\u00e3o h\u00e1 cegueiras, mas cegos, quando a experi\u00eancia dos tempos n\u00e3o tem feito outra coisa que dizer-nos que n\u00e3o h\u00e1 cegos, mas cegueiras\u201d (p\u00e1g. 306). E assim ele vai concluindo seu ensaio: \u201cPenso que n\u00e3o cegamos, penso que estamos cegos,\u00a0Cegos\u00a0que veem,\u00a0Cegos\u00a0que, vendo, n\u00e3o veem\u201d (p\u00e1g. 310).<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">Depois de tantas luzes\u00a0da Modernidade\u00a0e\u00a0com todo o desenvolvimento tecnol\u00f3gico\u00a0nesta\u00a0P\u00f3s-modernidade, aprofundamos a nossa cegueira.\u00a0Vivemos\u00a0a cultura da cegueira, que banaliza a realidade. A morte dos fracos se torna banal. O descarte dos marginalizados se torna banal. O menosprezo por pessoas pretas se torna banal. A discrimina\u00e7\u00e3o de pessoas de orienta\u00e7\u00e3o sexual diferente\u00a0se torna banal. Banaliza-se o \u00f3dio ao outro\u00a0que pensa diferente de mim.\u00a0<\/span><span data-contrast=\"auto\">Contra\u00a0esses\u00a0grupos\u00a0banalizados, declara-se a\u00a0persegui\u00e7\u00e3o,\u00a0conspira-se a sua\u00a0elimina\u00e7\u00e3o\u00a0e deflagra-se o medo.<\/span><span data-contrast=\"auto\">\u00a0\u201cO inferno s\u00e3o os outros\u201d, j\u00e1 preconizava Sartre.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">\u201cA Vila\u201d (Night\u00a0Shymalan, 2004) \u00e9 um filme metaf\u00f3rico da condi\u00e7\u00e3o humana, tendo o medo como motiva\u00e7\u00e3o.\u00a0<\/span><span data-contrast=\"auto\">A\u00a0Comunidade\u00a0vive em\u00a0uma\u00a0vila, no\u00a0meio\u00a0de\u00a0uma\u00a0floresta,\u00a0com\u00a0o intuito de preservar a\u00a0inoc\u00eancia\u00a0das\u00a0pessoas.\u00a0H\u00e1\u00a0limites\u00a0rigidamente\u00a0estabelecidos\u00a0entre\u00a0a vila e a\u00a0floresta\u00a0para\u00a0manter\u00a0o\u00a0acordo\u00a0entre\u00a0o\u00a0Conselho\u00a0de\u00a0Anci\u00e3os\u00a0e\u00a0os\u00a0supostos\u00a0monstros\u00a0denominados\u00a0\u201cCriaturas\u00a0que\u00a0n\u00f3s\u00a0n\u00e3o\u00a0mencionamos\u201d.<\/span><span data-contrast=\"auto\">\u00a0\u00a0Ivy \u00e9 uma linda jovem educadora. A sua condi\u00e7\u00e3o de cegueira lhe proporciona um diferencial: a sua alt\u00edssima sensibilidade. Com suas pr\u00f3prias palavras, ela esclarece ao seu amado Lucius o seu modo de vis\u00e3o: \u201cEu vejo o\u00a0mundo, mas n\u00e3o como voc\u00ea o v\u00ea\u201d.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">Ivy\u00a0se prontifica a vencer o medo, atravessar a floresta e buscar socorro para salvar Lucius, quando em risco de morte. O Conselho de Anci\u00e3os a libera para enfrentar o seu desafio, com um profundo di\u00e1logo. \u201cS\u00f3 podemos ter esperan\u00e7a, o que h\u00e1 de belo nesse lugar. N\u00e3o podemos fugir do sofrimento. Ivy est\u00e1 indo em dire\u00e7\u00e3o da esperan\u00e7a\u201d. Ao que o colega assegura: \u201cEla \u00e9 a mais capaz do qualquer um de n\u00f3s. Ela \u00e9 guiada pelo amor. \u00c9 o amor que move o mundo. O amor \u00e9 capaz de tudo\u201d.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">\u00c9 o amor\u00a0que nos salva das densas trevas de nossa\u00a0cegueira\u00a0e nos ilumina para\u00a0uma vida nova. \u00c9 esse amor capaz de salvar o mundo da \u201ccegueira branca\u201d, nesta cultura de p\u00f3s-verdade. O Ap\u00f3stolo Paulo nos assegura: \u201cOutrora \u00e9reis trevas, mas agora sois luz no Senhor. Vivei como filhos da luz. E o fruto da luz chama-se: bondade, justi\u00e7a, verdade\u201d (Ef\u00a05,8-9).\u00a0Entre os filhos da luz n\u00e3o h\u00e1 lugar para cegueiras, nem inverdades ou p\u00f3s-verdades&#8230; A experi\u00eancia da Luz nos leva \u00e0 Verdade, que \u00e9 uma pessoa!<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">Sim,\u00a0fomos iluminados pela\u00a0Luz que vem do alto. Ven\u00e7amos a cegueira, ven\u00e7amos as trevas do medo, ven\u00e7amos a cultura do \u00f3dio,\u00a0para vislumbrarmos a\u00a0Luz da esperan\u00e7a, que nos coloca diante da Verdade, que \u00e9 o Amor encarnado. Assim iluminados, sejamos agentes de luz e esperan\u00e7a para tantas pessoas que agora, mais do que nunca, anseiam por luz e esperan\u00e7a.\u00a0Como\u00a0Yvy, deixemo-nos\u00a0guiar\u00a0pelo amor que supera o \u00f3dio e o medo&#8230; e salva o mundo.\u00a0O amor gera perd\u00e3o e supera\u00e7\u00e3o de nossas polariza\u00e7\u00f5es,\u00a0para caminharmos em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 Verdade que nos liberta e nos descortina o horizonte de liberta\u00e7\u00e3o.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6}\">\u00a0<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dom\u00a0Geraldo\u00a0dos Reis\u00a0Maia Bispo de Ara\u00e7ua\u00ed (MG) &nbsp; \u00a0 No seu \u201cEnsaio sobre a cegueira\u201d (livro 1995; filme 2008), Saramago usa a cegueira f\u00edsica de seus personagens fict\u00edcios para falar sobre a cegueira mental de pessoas reais. 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