{"id":994558,"date":"2026-02-05T08:23:25","date_gmt":"2026-02-05T11:23:25","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/?p=994558"},"modified":"2026-02-05T08:24:09","modified_gmt":"2026-02-05T11:24:09","slug":"o-sofrimento-como-condicao-da-existencia-humana","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/o-sofrimento-como-condicao-da-existencia-humana\/","title":{"rendered":"O\u00a0sofrimento como\u00a0condi\u00e7\u00e3o da\u00a0exist\u00eancia\u00a0humana\u00a0"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><strong>Dom Jo\u00e3o Santos Cardoso\u00a0<\/strong><br \/>\n<strong>Arcebispo de Natal (RN)<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559731&quot;:567,&quot;335559739&quot;:0,&quot;335559740&quot;:240}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">Existir \u00e9, simultaneamente, dom e prova\u00e7\u00e3o. N\u00e3o se trata de um paradoxo ret\u00f3rico, mas de uma verdade estrutural da condi\u00e7\u00e3o humana. Desde que o ser humano tomou consci\u00eancia de si, percebeu que a vida n\u00e3o se oferece como um caminho linear de satisfa\u00e7\u00e3o, mas como uma travessia marcada por tens\u00f5es, perdas, frustra\u00e7\u00f5es, desejos n\u00e3o cumpridos e dores que escapam \u00e0 l\u00f3gica da raz\u00e3o instrumental.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559731&quot;:567,&quot;335559739&quot;:0,&quot;335559740&quot;:240}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">A filosofia moderna, especialmente a tradi\u00e7\u00e3o pessimista alem\u00e3, ousou nomear essa ferida constitutiva da exist\u00eancia sem subterf\u00fagios. Entre seus expoentes, destaca-se\u00a0Arthur Schopenhauer, para quem o sofrimento n\u00e3o \u00e9 um acidente da vida, mas o seu tra\u00e7o estrutural. Sofremos n\u00e3o porque algo deu errado, mas porque existimos. Essa afirma\u00e7\u00e3o, \u00e0 primeira vista dura, n\u00e3o pretende negar a beleza da vida, mas libert\u00e1-la de ilus\u00f5es ing\u00eanuas. Existir \u00e9 uma\u00a0d\u00e1diva,\u00a0por\u00e9m\u00a0exigente, que cobra lucidez, maturidade e coragem interior.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559731&quot;:567,&quot;335559739&quot;:0,&quot;335559740&quot;:240}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">Em sua obra\u00a0<\/span><i><span data-contrast=\"auto\">O Mundo como Vontade e Representa\u00e7\u00e3o<\/span><\/i><span data-contrast=\"auto\">, Schopenhauer sustenta que a ess\u00eancia \u00faltima da realidade n\u00e3o \u00e9 a raz\u00e3o, mas a Vontade: um impulso cego, incessante e irracional que impele o ser humano a desejar continuamente. O sofrimento nasce exatamente desse movimento incessante da vontade. Enquanto desejamos, sofremos pela falta; quando alcan\u00e7amos o objeto desejado, sofremos pela saciedade, da qual brotam o t\u00e9dio e o\u00a0vazio\u00a0interior. A exist\u00eancia oscila, assim, entre dois polos igualmente inquietantes: a car\u00eancia e o t\u00e9dio.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559731&quot;:567,&quot;335559739&quot;:0,&quot;335559740&quot;:240}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">Essa estrutura n\u00e3o \u00e9 epis\u00f3dica, mas universal: ningu\u00e9m escapa a essa condi\u00e7\u00e3o. Mudam apenas os objetos do desejo:\u00a0amor, reconhecimento, sucesso, prest\u00edgio, seguran\u00e7a financeira, pertencimento, aceita\u00e7\u00e3o\u00a0social. O sofrimento n\u00e3o se dissolve com a posse do objeto desejado; ao ser alcan\u00e7ado, ele apenas se transforma, assumindo novas formas.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559731&quot;:567,&quot;335559739&quot;:0,&quot;335559740&quot;:240}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">O primeiro grande modo do sofrimento \u00e9 a car\u00eancia. Sofremos porque nos falta algo ou algu\u00e9m: amor correspondido, amizade leal, reconhecimento, compreens\u00e3o, estabilidade, seguran\u00e7a. A falta fere porque revela nossa vulnerabilidade radical. Esse sofrimento se intensifica quando nasce da n\u00e3o aceita\u00e7\u00e3o, da frustra\u00e7\u00e3o de expectativas alheias projetadas sobre n\u00f3s. Quando o sujeito percebe que n\u00e3o corresponde aos ideais de perfei\u00e7\u00e3o exigidos por pessoas pr\u00f3ximas, a dor deixa de ser apenas emocional e se torna existencial: sofre-se n\u00e3o apenas pelo que falta, mas pelo que se \u00e9 ou pelo que se julga ser.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559731&quot;:567,&quot;335559739&quot;:0,&quot;335559740&quot;:240}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">Aqui o sofrimento toca a dignidade. A alma nobre, sens\u00edvel e profundamente humana \u00e9, muitas vezes, a mais vulner\u00e1vel a esse tipo de dor, justamente porque sente com profundidade e n\u00e3o se protege com o cinismo.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559731&quot;:567,&quot;335559739&quot;:0,&quot;335559740&quot;:240}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">Paradoxalmente, quando a car\u00eancia \u00e9 satisfeita, n\u00e3o encontramos a paz prometida. Surge, ent\u00e3o, o segundo grande sofrimento: o t\u00e9dio. Uma inquieta\u00e7\u00e3o silenciosa instala-se como sombra persistente sobre a exist\u00eancia. Essa experi\u00eancia \u00e9 retratada de modo magistral e profundamente ir\u00f4nico na can\u00e7\u00e3o\u00a0<\/span><i><span data-contrast=\"auto\">Ouro de Tolo<\/span><\/i><span data-contrast=\"auto\">, de Raul Seixas, na qual o sujeito constata ter alcan\u00e7ado tudo aquilo que socialmente lhe foi apresentado como sin\u00f4nimo de felicidade \u2014 emprego est\u00e1vel, reconhecimento, bens, conforto e sucesso \u2014 e, ainda assim, v\u00ea emergir o vazio e o t\u00e9dio, revelando a insufici\u00eancia dessas conquistas para conferir sentido \u00faltimo \u00e0 vida. A cr\u00edtica n\u00e3o se dirige ao sucesso em si, mas \u00e0 ilus\u00e3o de que ele seja capaz de redimir a condi\u00e7\u00e3o humana. Assim, a saciedade n\u00e3o liberta; ao contr\u00e1rio, evidencia a falta de sentido quando a exist\u00eancia \u00e9 reduzida \u00e0 l\u00f3gica da posse.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559731&quot;:567,&quot;335559739&quot;:0,&quot;335559740&quot;:240}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">H\u00e1 ainda um terceiro n\u00edvel de sofrimento: a dor propriamente dita \u2014 f\u00edsica, ps\u00edquica, emocional e espiritual, a dor da alma. Essa dor n\u00e3o se resolve com distra\u00e7\u00f5es\u00a0nem com argumentos; exige presen\u00e7a, escuta, tempo e, muitas vezes, sil\u00eancio. Neg\u00e1-la ou rebelar-se contra ela apenas intensifica o drama. A dor que n\u00e3o \u00e9 acolhida torna-se corrosiva.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559731&quot;:567,&quot;335559739&quot;:0,&quot;335559740&quot;:240}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">Schopenhauer ensina que o sofrimento \u00e9 inevit\u00e1vel porque existir \u00e9 desejar. A f\u00e9 crist\u00e3, contudo, acrescenta uma palavra decisiva: o sofrimento n\u00e3o \u00e9 definitivo.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559731&quot;:567,&quot;335559739&quot;:0,&quot;335559740&quot;:240}\">\u00a0<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dom Jo\u00e3o Santos Cardoso\u00a0 Arcebispo de Natal (RN) \u00a0 Existir \u00e9, simultaneamente, dom e prova\u00e7\u00e3o. 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