{"id":998088,"date":"2026-03-24T11:29:14","date_gmt":"2026-03-24T14:29:14","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/?p=998088"},"modified":"2026-03-24T11:30:09","modified_gmt":"2026-03-24T14:30:09","slug":"a-politica-do-futuro-e-o-futuro-da-politica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/a-politica-do-futuro-e-o-futuro-da-politica\/","title":{"rendered":"A pol\u00edtica do futuro e o futuro da pol\u00edtica\u00a0"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><strong>Dom Lindomar Rocha Mota<br \/>\nBispo de S\u00e3o Lu\u00eds de Montes Belos (GO)\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-ccp-props=\"{}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">H\u00e1 um empobrecimento na pol\u00edtica contempor\u00e2nea\u00a0que\u00a0se revela, sobretudo, numa perda\u00a0progressiva\u00a0da arte de propor. A pol\u00edtica, espa\u00e7o da formula\u00e7\u00e3o de caminhos comuns, da leitura do tempo e da constru\u00e7\u00e3o de horizontes, parece ter se reduzido \u00e0 l\u00f3gica da rea\u00e7\u00e3o.<\/span><span data-ccp-props=\"{}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">Essa mudan\u00e7a \u00e9 grave. Reagir n\u00e3o \u00e9, em si, um mal. Toda vida p\u00fablica sup\u00f5e resposta, contraste, cr\u00edtica, resist\u00eancia, corre\u00e7\u00e3o. O problema come\u00e7a quando a rea\u00e7\u00e3o deixa de ser uma etapa do discernimento e passa a ser\u00a0a \u00fanica\u00a0aposta\u00a0da pol\u00edtica. Nesse caso, j\u00e1 n\u00e3o se age a partir de uma vis\u00e3o de futuro, mas a partir do est\u00edmulo vindo do advers\u00e1rio.\u00a0<\/span><span data-ccp-props=\"{}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">Uma pol\u00edtica assim vai perdendo\u00a0relev\u00e2ncia. Em vez de pensar o que precisa nascer, ela se ocupa obsessivamente em neutralizar o que acabou de surgir. Em vez de formular um projeto de pa\u00eds, passa a viver de r\u00e9plica, revide, indigna\u00e7\u00e3o e contra-ataque. Tudo se torna rea\u00e7\u00e3o. Um grupo fala, o outro rebate. Um setor prop\u00f5e, o advers\u00e1rio fabrica o s\u00edmbolo oposto. Um acontecimento explode, e imediatamente ele \u00e9 absorvido como muni\u00e7\u00e3o emocional para alimentar a pr\u00f3xima rodada do conflito.\u00a0<\/span><span data-ccp-props=\"{}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">\u00c9 preciso reconhecer que essa l\u00f3gica n\u00e3o \u00e9 apenas uma deforma\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica; ela \u00e9 tamb\u00e9m uma deforma\u00e7\u00e3o espiritual. Uma sociedade que s\u00f3 reage come\u00e7a a perder a serenidade necess\u00e1ria para compreender o que est\u00e1 vivendo. Torna-se incapaz de sil\u00eancio, de elabora\u00e7\u00e3o, de linguagem mais profunda. Fala muito, mas pensa pouco. Emite opini\u00f5es, mas j\u00e1 n\u00e3o consegue nomear\u00a0os acontecimentos. O resultado \u00e9 uma fala cada vez mais inflamada e cada vez menos fecunda. Incapaz\u00a0interpretar o tempo.<\/span><span data-ccp-props=\"{}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">A crise atual \u00e9, em grande parte, esta.\u00a0Vive-se num ambiente saturado de rea\u00e7\u00e3o e esvaziado de proposi\u00e7\u00e3o. O pol\u00edtico n\u00e3o se mede mais por sua capacidade de abrir caminhos, mas por sua habilidade em sobreviver ao ciclo imediato da pol\u00eamica. Sua for\u00e7a parece consistir em manter a pr\u00f3pria base mobilizada, alimentar a pr\u00f3pria trincheira, preservar sua presen\u00e7a na disputa constante. No entanto, isso produz uma esp\u00e9cie de poder sem grandeza\u00a0de\u00a0movimento\u00a0sem\u00a0avan\u00e7o, de\u00a0ru\u00eddo,\u00a0sem\u00a0dire\u00e7\u00e3o, de\u00a0combate\u00a0sem\u00a0constru\u00e7\u00e3o.<\/span><span data-ccp-props=\"{}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">O mais preocupante \u00e9 que uma pol\u00edtica fundada exclusivamente na rea\u00e7\u00e3o perde a capacidade de se relacionar com o futuro. E o futuro n\u00e3o espera.\u00a0Ele se aproxima mesmo quando uma sociedade est\u00e1 distra\u00edda, cansada ou fechada em seus pr\u00f3prios enfrentamentos.<\/span><span data-ccp-props=\"{}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">Nisso reside uma das maiores fragilidades do nosso tempo!<\/span><span data-ccp-props=\"{}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">\u00c0s\u00a0possibilidades\u00a0de solu\u00e7\u00f5es mais significativas\u00a0est\u00e3o esvaziadas, porque solu\u00e7\u00f5es verdadeiras n\u00e3o nascem da nega\u00e7\u00e3o\u00a0reacion\u00e1ria. Elas exigem intelig\u00eancia hist\u00f3rica, imagina\u00e7\u00e3o moral, paci\u00eancia institucional e coragem para propor o que ainda n\u00e3o foi testado.<\/span><span data-ccp-props=\"{}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">Solu\u00e7\u00e3o significativa n\u00e3o \u00e9\u00a0o\u00a0que resolve o impasse do\u00a0hoje, mas a que inaugura a capacidade coletiva de existir\u00a0e\u00a0reorienta a conviv\u00eancia.\u00a0<\/span><span data-ccp-props=\"{}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">Mas esse\u00a0processo\u00a0requer algo que a pol\u00edtica reativa j\u00e1 quase n\u00e3o suporta,\u00a0interioridade.<\/span><span data-ccp-props=\"{}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">\u00c9 preciso haver reflex\u00e3o antes da fala, vis\u00e3o antes da disputa, discernimento antes da mobiliza\u00e7\u00e3o. \u00c9 preciso aceitar que nem toda resposta \u00e9 pensamento, que nem toda indigna\u00e7\u00e3o \u00e9 lucidez, que nem toda velocidade \u00e9 vigor.<\/span><span data-ccp-props=\"{}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">Hoje em dia\u00a0a rea\u00e7\u00e3o apenas mascara a aus\u00eancia de projeto. H\u00e1 discursos cuja agressividade serve para esconder o vazio de dire\u00e7\u00e3o. H\u00e1 lideran\u00e7as que falam sem cessar porque j\u00e1 n\u00e3o conseguem conduzir. E h\u00e1 sociedades inteiras que se deixam levar por esse circuito, confundindo intensidade com profundidade.<\/span><span data-ccp-props=\"{}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">Por isso, o grande desafio do presente n\u00e3o \u00e9 apenas reduzir a hostilidade p\u00fablica, mas restaurar a capacidade\u00a0propositiva. Isso significa recuperar uma pol\u00edtica que n\u00e3o dependa exclusivamente do erro do outro para\u00a0existir. Significa reencontrar a coragem de formular um pa\u00eds poss\u00edvel, institui\u00e7\u00f5es renovadas, prioridades comuns, linguagens mais honestas e\u00a0menos mentiras. Significa, sobretudo, sair da menoridade hist\u00f3rica de quem apenas\u00a0reage\u00a0para entrar na\u00a0idade adulta\u00a0de quem assume responsabilidade pelo que vem.<\/span><span data-ccp-props=\"{}\">\u00a0<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dom Lindomar Rocha Mota Bispo de S\u00e3o Lu\u00eds de Montes Belos (GO)\u00a0 \u00a0 H\u00e1 um empobrecimento na pol\u00edtica contempor\u00e2nea\u00a0que\u00a0se revela, sobretudo, numa perda\u00a0progressiva\u00a0da arte de propor. 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