{"id":998093,"date":"2026-03-24T11:34:58","date_gmt":"2026-03-24T14:34:58","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/?p=998093"},"modified":"2026-03-24T11:36:24","modified_gmt":"2026-03-24T14:36:24","slug":"o-stabat-da-esperanca-reflexoes-sobre-o-setenario-das-dores","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/o-stabat-da-esperanca-reflexoes-sobre-o-setenario-das-dores\/","title":{"rendered":"O stabat da esperan\u00e7a: reflex\u00f5es sobre o seten\u00e1rio das dores\u00a0"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><span data-ccp-props=\"{&quot;134233117&quot;:true,&quot;134233118&quot;:true,&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:3,&quot;335551620&quot;:3,&quot;335559739&quot;:160,&quot;335559740&quot;:240}\">\u00a0<\/span><b><span data-contrast=\"none\">Cardeal Orani Jo\u00e3o Tempesta<br \/>\n<\/span><\/b><b><span data-contrast=\"none\">Arcebispo do Rio de Janeiro (RJ)<\/span><\/b><span data-ccp-props=\"{&quot;134233117&quot;:true,&quot;134233118&quot;:true,&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:3,&quot;335551620&quot;:3,&quot;335559739&quot;:160,&quot;335559740&quot;:240}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559739&quot;:160,&quot;335559740&quot;:278}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">A liturgia da Igreja reserva-nos, no \u00faltimo s\u00e1bado, dia vinte e um de mar\u00e7o, o p\u00f3rtico de entrada para uma das viv\u00eancias mais profundas e tocantes da piedade crist\u00e3. Iniciamos a Semana das Dores, este seten\u00e1rio de recolhimento que antecede a entrada triunfal em Jerusal\u00e9m, fixando o olhar n\u00e3o apenas no sofrimento em si, mas na fidelidade absoluta e inabal\u00e1vel de Maria. Enquanto o mundo contempor\u00e2neo muitas vezes foge do desconforto e busca paliativos superficiais para a ang\u00fastia, a Igreja prop\u00f5e o exerc\u00edcio inverso da contempla\u00e7\u00e3o e da presen\u00e7a. Olhamos para a M\u00e3e de Jesus para aprender a dif\u00edcil arte de permanecer. A dor possui uma linguagem pr\u00f3pria, um idioma universal que todos compreendemos em algum momento da exist\u00eancia, mas que raramente sabemos articular com a gram\u00e1tica da esperan\u00e7a. Maria articula esse idioma atrav\u00e9s de seu sil\u00eancio operante e de sua postura firme diante do mist\u00e9rio. Desde o instante em que ouviu de Sime\u00e3o a profecia sobre a espada que transpassaria sua alma,\u00a0Ela compreendeu que sua miss\u00e3o exigiria uma entrega total e um cora\u00e7\u00e3o permanentemente aberto aos des\u00edgnios do Pai.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559739&quot;:160,&quot;335559740&quot;:278}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">A jornada de Maria representa a jornada de cada fiel que enfrenta a incerteza, a persegui\u00e7\u00e3o e a perda nas encruzilhadas da vida. Quando meditamos sobre a fuga para o Egito, encontramos a imagem viva das fam\u00edlias contempor\u00e2neas que abandonam seus lares sob o peso sufocante do medo, da guerra, das incertezas urbanas\u00a0ou da car\u00eancia extrema. Maria n\u00e3o experimentou uma dor te\u00f3rica, abstrata ou distante;\u00a0ela sentiu o frio cortante da noite no deserto, a poeira sufocante da estrada e a inseguran\u00e7a paralisante do estrangeiro sem teto. Esta realidade hist\u00f3rica conecta o mist\u00e9rio da f\u00e9 com as cal\u00e7adas das nossas cidades brasileiras, onde tantos filhos e filhas de Deus ainda buscam desesperadamente um lugar de repouso, justi\u00e7a e dignidade. A dor da perda do Menino Jesus no Templo, por sua vez, espelha a ang\u00fastia lancinante dos pais que hoje veem seus jovens perdidos em caminhos tortuosos, onde a aus\u00eancia de sentido e o niilismo consomem o vigor da juventude. Maria ensina que a busca exige paci\u00eancia heroica, ora\u00e7\u00e3o incessante e uma confian\u00e7a inabal\u00e1vel na provid\u00eancia que guia os passos\u00a0humanos, mesmo quando o horizonte aparece completamente obscurecido pela neblina da d\u00favida ou do desespero.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559739&quot;:160,&quot;335559740&quot;:278}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">Ao percorrermos o caminho do Calv\u00e1rio neste ano de dois mil e vinte e seis, encontramos o \u00e1pice desta teologia da compaix\u00e3o que a Igreja nos convida a viver. O encontro de Jesus com sua M\u00e3e na via dolorosa define o significado profundo do discipulado crist\u00e3o. Ali, as palavras tornam-se desnecess\u00e1rias e pequenas, pois o simples encontro de olhares comunica a aceita\u00e7\u00e3o m\u00fatua do sacrif\u00edcio por um bem infinitamente maior. Maria n\u00e3o tenta impedir o Filho de cumprir sua miss\u00e3o salv\u00edfica, nem se rebela com amargura contra a injusti\u00e7a flagrante do tribunal humano ou a crueldade dos carrascos. Ela sustenta o Filho com sua mera presen\u00e7a f\u00edsica e espiritual. Esta for\u00e7a feminina, que sustenta as fam\u00edlias e as comunidades em tempos de crise sist\u00eamica, revela o rosto mais belo e acolhedor da Igreja: aquele que n\u00e3o abandona o sofredor na hora derradeira da agonia. A morte de Jesus e o momento subsequente em que Maria o recebe nos bra\u00e7os, descido da cruz e desfigurado pela viol\u00eancia, encerram o ciclo da dor terrena para abrir, de par em par, a porta da eternidade. A imagem da\u00a0Piet\u00e0\u00a0resume a hist\u00f3ria de toda a humanidade ca\u00edda que encontra amparo, consolo e novo f\u00f4lego no colo da M\u00e3e Igreja.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559739&quot;:160,&quot;335559740&quot;:278}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">Nesta semana de prepara\u00e7\u00e3o intensiva para a P\u00e1scoa, precisamos resgatar com urg\u00eancia a coragem do testemunho crist\u00e3o em pra\u00e7a p\u00fablica. O sofrimento humano ganha um novo contorno, uma nova dignidade, quando o unimos ao sofrimento redentor de Cristo. N\u00e3o celebramos a dor pela dor, pois tal atitude seria um vazio masoquismo desprovido de sentido; celebramos a vit\u00f3ria definitiva do amor sobre a morte, uma vit\u00f3ria que passa necessariamente pelo estreito gargalo da entrega total e do despojamento de si. Maria permanece de p\u00e9 junto \u00e0 cruz, o gesto do\u00a0\u201cStabat\u201d\u00a0que exige uma t\u00eampera espiritual forjada no fogo da ora\u00e7\u00e3o constante e na escuta da Palavra. O mundo atual, marcado por uma rapidez fren\u00e9tica que atropela os processos naturais de luto, cura e reflex\u00e3o, necessita desesperadamente deste tempo de parada e sil\u00eancio. Precisamos contemplar as feridas abertas do mundo com os olhos misericordiosos de Maria, permitindo que a compaix\u00e3o gere em n\u00f3s frutos concretos de caridade social. A caridade representa a \u00fanica resposta verdadeiramente eficaz e crist\u00e3 \u00e0 dor alheia, transformando a empatia em gesto que salva e restaura a vida.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559739&quot;:160,&quot;335559740&quot;:278}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">A Semana das Dores serve tamb\u00e9m como um espelho cristalino para a nossa pr\u00f3pria fragilidade humana e institucional. Reconhecemos, com humildade, que n\u00e3o possu\u00edmos todas as respostas para os dilemas \u00e9ticos e sociais do nosso tempo e que, muitas vezes, o peso da exist\u00eancia parece esmagador e insuport\u00e1vel. Contudo, a liturgia recorda-nos com do\u00e7ura que Maria assume o t\u00edtulo de Consoladora dos Aflitos. Ela possui autoridade para consolar porque conheceu a afli\u00e7\u00e3o em sua forma mais crua, visceral e injusta. Ao acolhermos as dores de Maria em nosso pr\u00f3prio cora\u00e7\u00e3o pastoral, permitimos que\u00a0Ela nos ensine a transformar o pranto amargo em semente de ressurrei\u00e7\u00e3o gloriosa. A Semana Santa que se avizinha com o Domingo de Ramos exige de n\u00f3s este despojamento interior completo. N\u00e3o existe o triunfo do sepulcro vazio sem a passagem necess\u00e1ria pelo calv\u00e1rio e pelo sil\u00eancio do s\u00e1bado. Maria guia nossos passos nesta transi\u00e7\u00e3o dif\u00edcil, garantindo que o cansa\u00e7o natural da caminhada n\u00e3o nos impe\u00e7a de enxergar a luz da aurora que j\u00e1 desponta no horizonte da f\u00e9.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559739&quot;:160,&quot;335559740&quot;:278}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">Conclu\u00edmos este seten\u00e1rio sagrado com a certeza absoluta de que a \u00faltima palavra da hist\u00f3ria n\u00e3o pertence \u00e0 morte, nem \u00e0 dor, nem ao pecado, mas sim \u00e0 vida em plenitude. As sete dores de Maria formam um arco teol\u00f3gico e existencial que culmina na esperan\u00e7a radiante da manh\u00e3 de P\u00e1scoa, no dia cinco de abril. Que cada celebra\u00e7\u00e3o em nossas par\u00f3quias, cada prociss\u00e3o do encontro e cada ora\u00e7\u00e3o do ter\u00e7o nestes dias ajudem o povo de Deus a redescobrir o valor santificador do sacrif\u00edcio e a beleza da fidelidade que n\u00e3o retrocede diante das dificuldades. Que Nossa Senhora das Dores, sob cujos mantos colocamos nossas afli\u00e7\u00f5es, interceda por nossa cidade de S\u00e3o Sebasti\u00e3o, por nossas fam\u00edlias e, especialmente, pelos enfermos e encarcerados que hoje se encontram no \u00e1pice de sua pr\u00f3pria dor solit\u00e1ria. Que eles encontrem em cada crist\u00e3o um reflexo do olhar de Maria: um olhar que n\u00e3o julga, mas que acolhe, permanece e ama at\u00e9 o fim. Que a f\u00e9 nos sustente e o amor nos impulsione, para que caminhemos unidos, como uma Igreja sinodal e mission\u00e1ria,\u00a0neste ano jubilar arquidiocesano,\u00a0rumo \u00e0 alegria que n\u00e3o tem fim, sob a prote\u00e7\u00e3o constante\u00a0d\u2019Aquela que tudo guardou e meditou em seu cora\u00e7\u00e3o imaculado.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559739&quot;:160,&quot;335559740&quot;:278}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00a0Cardeal Orani Jo\u00e3o Tempesta Arcebispo do Rio de Janeiro (RJ)\u00a0 \u00a0 A liturgia da Igreja reserva-nos, no \u00faltimo s\u00e1bado, dia vinte e um de mar\u00e7o, o p\u00f3rtico de entrada para uma das viv\u00eancias mais profundas e tocantes da piedade crist\u00e3. 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