{"id":998326,"date":"2026-03-30T09:02:59","date_gmt":"2026-03-30T12:02:59","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/?p=998326"},"modified":"2026-03-30T09:03:40","modified_gmt":"2026-03-30T12:03:40","slug":"semana-santa-a-seriedade-do-amor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/semana-santa-a-seriedade-do-amor\/","title":{"rendered":"Semana Santa, a\u00a0seriedade do Amor\u00a0\u00a0"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><strong>Dom Lindomar Rocha Mota<br \/>\nBispo de S\u00e3o Lu\u00eds de Montes Belos (GO)\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-ccp-props=\"{}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">Nos dias\u00a0passados, antes que o cora\u00e7\u00e3o\u00a0conhecesse\u00a0o tempo, j\u00e1\u00a0pairava\u00a0sobre o mundo uma Palavra mais\u00a0antiga\u00a0que as estrelas. Dela vinham os come\u00e7os, e por ela\u00a0se sustentavam\u00a0os caminhos\u00a0que viriam a existir.\u00a0<\/span><span data-ccp-props=\"{}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">N\u00f3s, por\u00e9m,\u00a0labut\u00e1vamos\u00a0como viajantes sob n\u00e9voa\u00a0ouvindo\u00a0nas dobras do vento e no rumor das \u00e1guas um eco\u00a0distante; cada gera\u00e7\u00e3o guardava, como podia, um fragmento dessa lembran\u00e7a.\u00a0Fruto de\u00a0uma voz\u00a0que\u00a0o mundo\u00a0ouviu\u00a0em sua juventude,\u00a0uma promessa que\u00a0n\u00e3o se distrai daquilo que\u00a0promete.<\/span><span data-ccp-props=\"{}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">A\u00a0voz\u00a0ouvida\u00a0n\u00e3o era como a voz dos reis da terra, que juram ao amanhecer e ao cair da tarde j\u00e1 esqueceram. Sua palavra n\u00e3o era como a fuma\u00e7a, que se eleva por um momento e logo se desfaz. Aquilo que ele\u00a0pronunciava\u00a0permanecia,\u00a0aquilo que ele prometia\u00a0se cumpria. E assim, por\u00a0muitas eras de\u00a0eras, enquanto os povos erguiam torres, quebravam alian\u00e7as, atravessavam desertos e enterravam seus mortos, a promessa\u00a0feita\u00a0seguia seu\u00a0caminho\u00a0oculto, como rio cavando por baixo\u00a0da terra \u00e1rida.<\/span><span data-ccp-props=\"{}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">Ent\u00e3o veio o tempo em que a\u00a0promessa\u00a0se encarnou e\u00a0j\u00e1 n\u00e3o quis apenas ressoar nos profetas e nos sonhos da noite;\u00a0tomou\u00a0para si o peso do dia, o p\u00f3 das estradas e o cansa\u00e7o\u00a0dos que labutam.\u00a0<\/span><span data-ccp-props=\"{}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">Aquele que desde sempre guardava\u00a0o mundo em sua palavra desceu at\u00e9 ele. N\u00e3o veio com o fulgor diante do qual as muralhas se desfazem, nem com o estrondo que\u00a0sucede ao rel\u00e2mpago. Veio\u00a0em sil\u00eancio\u00a0como chegam os viajantes ao cair da tarde,\u00a0veio\u00a0sob o c\u00e9u\u00a0da humanidade, trazendo consigo\u00a0a\u00a0verdade.<\/span><span data-ccp-props=\"{}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">Tomou para si a condi\u00e7\u00e3o dos que caminham entre aurora e sepulcro. Recebeu o peso das horas, a sucess\u00e3o dos dias, o frio das madrugadas\u00a0e\u00a0a lentid\u00e3o dos passos humanos.<\/span><span data-ccp-props=\"{}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">Aquele a quem pertenciam os confins da terra quis conhecer o limite de um corpo, o compasso do cora\u00e7\u00e3o, a fome depois da jornada, a amizade ao redor do p\u00e3o, o pranto diante do t\u00famulo, a solid\u00e3o sob as \u00e1rvores da noite. Assim,\u00a0o Senhor\u00a0entrou no mundo como caminhante entre caminhantes.<\/span><span data-ccp-props=\"{}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">Essa esperan\u00e7a\u00a0j\u00e1 estava escrita no barro de Ad\u00e3o e na can\u00e7\u00e3o secreta do\u00a0criado. Entrar na terra dos vivos \u00e9 aceitar a travessia.<\/span><span data-ccp-props=\"{}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">Ningu\u00e9m nasce para permanecer junto ao limiar.\u00a0A humanidade\u00a0recebe a vida como\u00a0caminhante.\u00a0Aprende o nome das coisas andando, amadurece sob o peso dos dias, ama em meio \u00e0s\u00a0guerras, perde sob o mesmo c\u00e9u.\u00a0Leva anos para compreender que existir \u00e9 mover-se entre promessa e cumprimento.<\/span><span data-ccp-props=\"{}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">Por isso o Filho caminhou.<\/span><span data-ccp-props=\"{}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">Caminhou pelas margens onde a \u00e1gua recolhe as vozes dos simples; entre colinas e ruas estreitas.\u00a0Caminhou entre doentes, pescadores, m\u00e3es aflitas, crian\u00e7as, estrangeiros, pobres de esp\u00edrito, homens endurecidos pelo costume e mulheres que\u00a0sofriam\u00a0em sil\u00eancio.\u00a0Uma\u00a0marcha\u00a0sem\u00a0pressa\u00a0na encosta\u00a0do mundo.<\/span><span data-ccp-props=\"{}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">O caminhar\u00a0recordou-nos\u00a0de\u00a0alguma\u00a0coisa\u00a0anterior ao medo. Os cegos ergueram o rosto, como se sentissem um clar\u00e3o sem nome. Os cansados descobriam que o peso de seus fardos podia ser\u00a0aliviado. Os pecadores, acostumados a\u00a0viver\u00a0a\u00a0sombra, ouviam em sua voz a\u00a0seriedade\u00a0de uma miseric\u00f3rdia antiga como\u00a0o tempo. E ainda assim sua presen\u00e7a trazia tamb\u00e9m inquieta\u00e7\u00e3o, porque a luz sempre perturba as fortalezas do orgulho e as casas\u00a0da injusti\u00e7a.<\/span><span data-ccp-props=\"{}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">Muitos pensaram que seu caminho terminaria como terminam os caminhos dos justos entre os homens.\u00a0Em recusa, em abandono e em sangue derramado sobre a terra ingrata. E, de fato, para l\u00e1 seus passos se\u00a0encaminharam, embora poucos o soubessem. Cada estrada por que passava inclinava-se secretamente para\u00a0aquela\u00a0descida; cada monte anunciava uma colina de dor; cada repouso junto \u00e0 mesa apontava para a hora em que ofereceria n\u00e3o apenas p\u00e3o, mas a si mesmo.<\/span><span data-ccp-props=\"{}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">Assim o Caminhante avan\u00e7ou para o cora\u00e7\u00e3o escuro do mundo.<\/span><span data-ccp-props=\"{}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">N\u00e3o recuou diante do \u00f3dio dos violentos, nem se desviou quando a amizade vacilou, nem se escondeu quando a noite se fechou. Seus p\u00e9s, que haviam atravessado aldeias e campos, subiram tamb\u00e9m a estrada amarga. E ali a fidelidade do Alt\u00edssimo mostrou sua grandeza al\u00e9m de toda medida.<\/span><span data-ccp-props=\"{}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">A\u00a0promessa entrou na afli\u00e7\u00e3o, o amor na ferida, a vida na morte. O Caminhante estendeu-se sobre a madeira como quem abre uma ponte sobre o abismo, para que os perdidos encontrem passagem.<\/span><span data-ccp-props=\"{}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">Veio ent\u00e3o o primeiro dia, e o mundo tremeu sob a dor de contemplar seu Senhor entregue \u00e0s m\u00e3os da viol\u00eancia. O c\u00e9u se velou. A terra guardou sil\u00eancio. Muitos julgaram que a antiga promessa havia enfim sido vencida, e que o t\u00famulo seria a morada da esperan\u00e7a.<\/span><span data-ccp-props=\"{}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">Veio depois o segundo dia, o mais estranho de todos os dias desde que o sol\u00a0iluminou\u00a0este mundo. Era o dia im\u00f3vel, o dia fechado, o dia em que as portas pareciam pesadas demais para serem abertas e o ar espesso para ser respirado. Nesse dia, o mundo viu apenas a pedra, o sepulcro e a aus\u00eancia. Mas as ra\u00edzes da fidelidade trabalhavam escondidas, para al\u00e9m do alcance da vista, como sementes sob a neve ou fogo debaixo das cinzas.<\/span><span data-ccp-props=\"{}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">Ent\u00e3o amanheceu o terceiro dia!<\/span><span data-ccp-props=\"{}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">E nenhum canto, nenhum brilho, nenhuma aurora nas montanhas desde o princ\u00edpio do mundo se igualou \u00e0quele romper. Pois a morte, que havia fechado suas m\u00e3os sobre reis e mendigos, s\u00e1bios e crian\u00e7as, profetas e pecadores, descobriu que tocara aquele a quem n\u00e3o podia reter. O sepulcro foi\u00a0espalancado\u00a0como se\u00a0irrompe\u00a0de \u00e1guas sufocantes. A pedra\u00a0se partiu. O sil\u00eancio foi\u00a0superado\u00a0por uma vida que n\u00e3o voltaria a perecer. E o Caminhante levantou-se.<\/span><span data-ccp-props=\"{}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">Levantou-se\u00a0trazendo\u00a0uma\u00a0novidade\u00a0ao alcance dos mortais. Em seu corpo glorioso, ainda marcado pela mem\u00f3ria dos cravos, brilhava a verdade que nenhuma\u00a0palavra\u00a0humana pode\u00a0pronunciar\u00a0sem espanto.\u00a0A\u00a0promessa atravessou\u00a0a noite inteira e permaneceu\u00a0inteira; a fidelidade passou\u00a0pelo abismo e\u00a0trouxe\u00a0consigo a aurora; o Deus que\u00a0desceu\u00a0ao mundo n\u00e3o voltou\u00a0atr\u00e1s, mas foi\u00a0at\u00e9 o fim.<\/span><span data-ccp-props=\"{}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">Desde ent\u00e3o, todos os caminhos da terra foram mudados, ainda que muitos o ignorem.<\/span><span data-ccp-props=\"{}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">O\u00a0Caminhante chama agora outros caminhantes. Sua voz percorre campos, cidades, claustros, desertos, lares e ru\u00ednas, dizendo a cada gera\u00e7\u00e3o que se ponha de p\u00e9 e siga. N\u00e3o chama\u00a0apenas\u00a0os fortes, os s\u00e1bios,\u00a0ou\u00a0os puros. Chama os que t\u00eam p\u00e9s cansados, cora\u00e7\u00e3o dividido, mem\u00f3ria ferida e\u00a0pouca\u00a0esperan\u00e7a. Chama-os porque conhece a estrada. Chama-os porque j\u00e1 entrou na noite\u00a0do mundo\u00a0e\u00a0abriu\u00a0uma Clareira. Chama-os porque\u00a0\u00e9 ca\u00e7ador de vida e luz, e n\u00e3o de morte e escurid\u00e3o.<\/span><span data-ccp-props=\"{}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">Assim nasceram os disc\u00edpulos,\u00a0como companheiros do Caminhante. A eles foi dado mais do que doutrina; foi dado um caminho.\u00a0Entregue mais do que consola\u00e7\u00e3o; foi confiada uma marcha.<\/span><span data-ccp-props=\"{}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">Tornamo-nos\u00a0povo da estrada, gente do terceiro dia,\u00a0mulheres\u00a0e\u00a0homens\u00a0que aprenderam a reconhecer na sexta-feira a\u00a0<\/span><b><span data-contrast=\"auto\">seriedade\u00a0do amor<\/span><\/b><span data-contrast=\"auto\">, no s\u00e1bado a\u00a0<\/span><b><span data-contrast=\"auto\">paci\u00eancia da esperan\u00e7a<\/span><\/b><span data-contrast=\"auto\">\u00a0e no domingo a\u00a0<\/span><b><span data-contrast=\"auto\">vit\u00f3ria\u00a0do\u00a0cora\u00e7\u00e3o<\/span><\/b><span data-contrast=\"auto\">\u00a0sobre a dureza\u00a0do tempo.<\/span><span data-ccp-props=\"{}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">E ainda agora, quando os reinos envelhecem, as guerras obscurecem o horizonte e muitos se perguntam se a promessa se perdeu entre as ru\u00ednas do mundo,\u00a0o\u00a0que permanece\u00a0\u00e9 o fato que o\u00a0Alt\u00edssimo entrou na hist\u00f3ria como caminhante. Seus p\u00e9s tocaram a poeira. Sua voz chamou os perdidos. Sua fidelidade desceu at\u00e9 a morte. Sua vida abriu a manh\u00e3 do terceiro dia.\u00a0E,\u00a0todo aquele que\u00a0o\u00a0ouve, cedo ou tarde,\u00a0encontra\u00a0dentro de si o\u00a0vest\u00edgio\u00a0dessa\u00a0verdade.<\/span><span data-ccp-props=\"{}\">\u00a0<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dom Lindomar Rocha Mota Bispo de S\u00e3o Lu\u00eds de Montes Belos (GO)\u00a0 \u00a0 Nos dias\u00a0passados, antes que o cora\u00e7\u00e3o\u00a0conhecesse\u00a0o tempo, j\u00e1\u00a0pairava\u00a0sobre o mundo uma Palavra mais\u00a0antiga\u00a0que as estrelas. 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