{"id":998528,"date":"2026-04-02T15:30:51","date_gmt":"2026-04-02T18:30:51","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/?p=998528"},"modified":"2026-04-02T15:52:26","modified_gmt":"2026-04-02T18:52:26","slug":"cardeal-orani-nossa-senhora-das-dores","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cardeal-orani-nossa-senhora-das-dores\/","title":{"rendered":"Nossa Senhora das Dores"},"content":{"rendered":"<p><strong>Orani Jo\u00e3o, Cardeal Tempesta, O. Cist.<\/strong><br \/>\n<strong>Arcebispo Metropolitano de S\u00e3o Sebasti\u00e3o do Rio de Janeiro (RJ)<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Nesta Quarta-feira Santa, encontramo-nos no limiar do Sagrado Tr\u00edduo Pascal. A liturgia destes dias respira uma densidade \u00fanica, um misto de expectativa, sil\u00eancio e profunda constri\u00e7\u00e3o. Hoje, a piedade popular volta o seu olhar, cheio de ternura e compaix\u00e3o, para a figura da Bem-Aventurada Virgem Maria, sob o t\u00edtulo de Nossa Senhora das Dores. Se meditamos sobre o Encontro lancinante nas ruas de Jerusal\u00e9m, agora paramos para contemplar o cora\u00e7\u00e3o dessa M\u00e3e. O profeta Jeremias, no Livro das Lamenta\u00e7\u00f5es, expressa de forma insuper\u00e1vel a desola\u00e7\u00e3o que a tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3 aplica \u00e0 Virgem Maria: <em>&#8220;\u00d3 v\u00f3s todos que passais pelo caminho, olhai e vede se h\u00e1 dor igual \u00e0 minha dor, que me atormenta, com a qual o Senhor me feriu no dia da sua ardente ira&#8221;<\/em> (Lm 1,12).<\/p>\n<p>A dor de Maria n\u00e3o foi um acontecimento isolado no Calv\u00e1rio, mas uma voca\u00e7\u00e3o abra\u00e7ada no amor e vivida na fidelidade cont\u00ednua. O evangelista S\u00e3o Lucas nos recorda que o sofrimento j\u00e1 havia sido anunciado no alvorecer da vida de Jesus. Quando Maria e Jos\u00e9 apresentaram o Menino no Templo, o velho e Justo Sime\u00e3o proferiu aquelas palavras que ecoariam para sempre na alma da Virgem: <em>&#8220;Eis que este menino est\u00e1 destinado a ser uma causa de queda e de soerguimento para muitos em Israel, e a ser um sinal de contradi\u00e7\u00e3o. Quanto a ti, uma espada te traspassar\u00e1 a alma, para que se revelem os pensamentos de muitos cora\u00e7\u00f5es&#8221;<\/em> (Lc 2,34-35). Ao dizer o seu &#8220;Eis aqui a serva do Senhor&#8221; (Lc 1,38) na Anuncia\u00e7\u00e3o, Maria aceitou n\u00e3o apenas as alegrias da maternidade divina, mas tamb\u00e9m a cruz que viria com ela.<\/p>\n<p>Neste caminho de dores, um dos momentos mais angustiantes para a Sagrada Fam\u00edlia foi a experi\u00eancia do ex\u00edlio e do desamparo. O Evangelho de Mateus nos relata a urg\u00eancia e o terror da Fuga para o Egito: <em>&#8220;O anjo do Senhor apareceu em sonho a Jos\u00e9 e lhe disse: &#8216;Levanta-te, pega o menino e sua m\u00e3e e foge para o Egito! Fica l\u00e1 at\u00e9 que eu te avise! Porque Herodes vai procurar o menino para mat\u00e1-lo&#8217;. Jos\u00e9 levantou-se, de noite, pegou o menino e sua m\u00e3e, e partiu para o Egito&#8221;<\/em> (Mt 2,13-14). Maria conheceu a dor de ser uma refugiada. Ela, que j\u00e1 havia dado \u00e0 luz em uma manjedoura porque <em>&#8220;n\u00e3o havia lugar para eles na hospedaria&#8221;<\/em> (Lc 2,7), experimentou a dura realidade de ter que fugir \u00e0s pressas, sem teto, sem seguran\u00e7a, protegendo a vida de seu Filho das garras da viol\u00eancia dos poderosos deste mundo.<\/p>\n<p>Ao contemplarmos as dores da Virgem Maria, nossa espiritualidade n\u00e3o pode se alienar da realidade que nos cerca. A dor de Maria se prolonga na hist\u00f3ria. Neste ano, em que a Igreja no Brasil vivencia a Campanha da\u00a0Fraternidade iluminada pelo tema &#8220;Fraternidade e Moradia&#8221; e pelo lema joanino <em>&#8220;Ele veio morar entre n\u00f3s&#8221;<\/em> (Jo 1,14), somos chamados a ver no rosto transido de dor de Nossa Senhora o rosto de milhares de m\u00e3es brasileiras. Como n\u00f3s podemos venerar a M\u00e3e de Deus e, ao mesmo tempo, ignorarmos as m\u00e3es que hoje choram por n\u00e3o terem um lar digno para abrigar e proteger os seus filhos?<\/p>\n<p>A espada que transpassou a alma de Maria continua a ferir o cora\u00e7\u00e3o das m\u00e3es que vivem sob o constante temor de um desabamento em \u00e1reas de risco. Continua a ferir o cora\u00e7\u00e3o das m\u00e3es que sofrem a humilha\u00e7\u00e3o dos despejos, que perambulam pelas ruas de nossas metr\u00f3poles procurando um canto seguro debaixo das marquises, ou que se amontoam em habita\u00e7\u00f5es prec\u00e1rias, insalubres, sem o m\u00ednimo de dignidade que o ser humano, criado \u00e0 imagem e semelhan\u00e7a de Deus, merece. O Verbo Eterno quis ter Maria como sua primeira morada, seu primeiro tabern\u00e1culo. Ele veio morar entre n\u00f3s, assumindo a nossa fragilidade. Por isso, a falta de moradia em nossa sociedade n\u00e3o \u00e9 apenas uma quest\u00e3o econ\u00f4mica ou estat\u00edstica; \u00e9 uma ofensa direta ao plano de Deus, que deseja vida em abund\u00e2ncia para todos.<\/p>\n<p>A teologia e a devo\u00e7\u00e3o nos ensinam que Maria \u00e9 a Mater Dolorosa, mas nunca a M\u00e3e desesperada. O Evangelho de S\u00e3o Jo\u00e3o narra o momento culminante dessa dor: <em>&#8220;Perto da cruz de Jesus, permaneciam de p\u00e9 sua m\u00e3e, a irm\u00e3 de sua m\u00e3e, Maria, mulher de Cleofas, e Maria Madalena&#8221;<\/em> (Jo 19,25). Prestem aten\u00e7\u00e3o neste detalhe profundo que o evangelista faz quest\u00e3o de frisar: Maria estava de p\u00e9 (Stabat Mater). Ela n\u00e3o desfaleceu, n\u00e3o fugiu, n\u00e3o amaldi\u00e7oou a Deus pela injusti\u00e7a que se abatia sobre o seu Filho Inocente. Ela permaneceu de p\u00e9, em uma atitude de sacerd\u00f3cio materno, oferecendo com Cristo o sacrif\u00edcio pela salva\u00e7\u00e3o da humanidade.<\/p>\n<p>Como monge, recordo as palavras do nosso pai S\u00e3o Bernardo de Claraval, que, ao meditar sobre a compaix\u00e3o de Maria, ensinava que <em>&#8220;o mart\u00edrio da Virgem ocorreu na alma&#8221;<\/em>. O seu amor imenso por Jesus fez com que ela sofresse espiritualmente tudo o que Ele sofria fisicamente. Estar de p\u00e9 junto \u00e0 cruz exige uma for\u00e7a que s\u00f3 o Esp\u00edrito Santo pode dar. \u00c9 esta mesma for\u00e7a que devemos pedir hoje a Deus. Diante das cruzes pesadas da desigualdade social, da falta de habita\u00e7\u00e3o e da mis\u00e9ria que afligem nossa cidade e o nosso pa\u00eds, a Igreja n\u00e3o pode ficar prostrada, nem escondida. N\u00f3s, como Corpo de Cristo, devemos estar &#8220;em p\u00e9&#8221;, com coragem prof\u00e9tica, denunciando as injusti\u00e7as e trabalhando ativamente por pol\u00edticas p\u00fablicas que garantam o direito inalien\u00e1vel \u00e0 moradia.<\/p>\n<p>A liturgia do Calv\u00e1rio termina com um testamento de amor. Jesus, do alto da cruz, olhando para Maria e para Jo\u00e3o, diz: <em>&#8220;\u2018Mulher, eis a\u00ed o teu\u00a0filho\u2019. Depois disse ao disc\u00edpulo: \u2018Eis a\u00ed a tua m\u00e3e\u2019. E a partir daquela hora, o disc\u00edpulo a acolheu em sua casa&#8221;<\/em> (Jo 19,26-27). Cristo n\u00e3o deixa a sua M\u00e3e no desamparo, sem um teto e sem uma fam\u00edlia. Ele confia Maria \u00e0 Igreja, representada por Jo\u00e3o. E Jo\u00e3o a leva para a sua casa.<\/p>\n<p>Acolher Maria em nossa casa significa acolher os ensinamentos do seu Filho. Significa que os nossos lares, as nossas par\u00f3quias e os nossos cora\u00e7\u00f5es devem estar abertos \u00e0 caridade aut\u00eantica. Neste encerramento da Quaresma, deixemos que a Senhora das Dores nos ensine a compaix\u00e3o \u2014 que significa &#8220;padecer com&#8221;, sofrer junto. Que as nossas l\u00e1grimas diante da imagem de Nossa Senhora se transformem em obras de justi\u00e7a e de amor ao pr\u00f3ximo.<\/p>\n<p>Pe\u00e7amos \u00e0 M\u00e3e das Dores que interceda por todas as fam\u00edlias sem teto. Que ela console as m\u00e3es aflitas de nossa p\u00e1tria e nos prepare para vivermos o Sagrado Tr\u00edduo Pascal com o cora\u00e7\u00e3o purificado. Que, passando pela cruz e pelas dores deste mundo, possamos todos alcan\u00e7ar a alegria imorredoura da manh\u00e3 de P\u00e1scoa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Orani Jo\u00e3o, Cardeal Tempesta, O. Cist. Arcebispo Metropolitano de S\u00e3o Sebasti\u00e3o do Rio de Janeiro (RJ) &nbsp; Nesta Quarta-feira Santa, encontramo-nos no limiar do Sagrado Tr\u00edduo Pascal. A liturgia destes dias respira uma densidade \u00fanica, um misto de expectativa, sil\u00eancio e profunda constri\u00e7\u00e3o. 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