{"id":999649,"date":"2026-04-30T13:20:14","date_gmt":"2026-04-30T16:20:14","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/?p=999649"},"modified":"2026-04-30T13:21:19","modified_gmt":"2026-04-30T16:21:19","slug":"quando-tudo-ainda-era-silencio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/quando-tudo-ainda-era-silencio\/","title":{"rendered":"Quando tudo ainda era sil\u00eancio\u00a0"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><strong>Dom Jo\u00e3o Santos Cardoso\u00a0<\/strong><br \/>\n<strong>Arcebispo de Natal (RN)<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">O cotidiano nos permite encontros inesperados. Muitos passam sem deixar marca; outros, discretamente, tornam-se significativos. \u00c0s vezes, chegam na forma de uma mensagem, de um texto partilhado, de uma palavra oferecida quase sem pretens\u00e3o. Foi assim que, de maneira inusitada e, ao mesmo tempo, profundamente corriqueira, um jovem me pediu que lesse um texto.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559731&quot;:567,&quot;335559739&quot;:0,&quot;335559740&quot;:240}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">Apenas isso. N\u00e3o buscava aplausos nem an\u00e1lise t\u00e9cnica; queria, simplesmente, ser lido. E talvez a\u00ed resida uma das verdades mais humanas da escrita: quem escreve deseja encontrar um leitor, um cora\u00e7\u00e3o que acolha. N\u00e3o h\u00e1 solid\u00e3o maior para um texto do que n\u00e3o ser lido; igualmente, n\u00e3o h\u00e1 alegria maior para quem escreve do que perceber que suas palavras encontraram morada em algu\u00e9m.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559731&quot;:567,&quot;335559739&quot;:0,&quot;335559740&quot;:240}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">Li o poema com aten\u00e7\u00e3o. Depois reli. \u00c0 medida que avan\u00e7ava, fui sendo surpreendido. Num primeiro momento, pensei tratar-se de um autor j\u00e1 consagrado. Havia ali algo da interioridade densa de Fernando Pessoa, como os pensamentos que habitam sem pedir licen\u00e7a; a delicadeza de Cec\u00edlia Meireles e de Ad\u00e9lia Prado, onde o essencial se revela nas entrelinhas; e a intui\u00e7\u00e3o de Manoel de Barros, capaz de descobrir o extraordin\u00e1rio no cotidiano, no simples, no que passa despercebido e parece sup\u00e9rfluo.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559731&quot;:567,&quot;335559739&quot;:0,&quot;335559740&quot;:240}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">Mas, ao reler com mais aten\u00e7\u00e3o, percebi que a autoria era dele. E ent\u00e3o compreendi algo ainda mais precioso: ali n\u00e3o estava apenas a beleza da poesia, mas a mem\u00f3ria viva de uma experi\u00eancia. N\u00e3o era um exerc\u00edcio liter\u00e1rio; era vida tornada palavra.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559731&quot;:567,&quot;335559739&quot;:0,&quot;335559740&quot;:240}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">O t\u00edtulo \u2014 &#8220;Quando tudo ainda era sil\u00eancio&#8221; \u2014 j\u00e1 indicava o caminho: a travessia do n\u00e3o dito, ainda tentando aprender a ser nome. O t\u00edtulo me remeteu imediatamente ao G\u00eanesis, ao princ\u00edpio de tudo. Antes de qualquer palavra humana, houve o sil\u00eancio primordial: a terra informe e vazia, as trevas cobrindo o abismo e o Esp\u00edrito de Deus pairando sobre as \u00e1guas. N\u00e3o havia forma nem linguagem, mas um sil\u00eancio fecundo, carregado de sentido. Ent\u00e3o Deus disse: &#8220;Fa\u00e7a-se a luz!&#8221;, e a luz se fez.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559731&quot;:567,&quot;335559739&quot;:0,&quot;335559740&quot;:240}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">\u00c9 nesse dinamismo que o poema se inscreve. Tamb\u00e9m ali, no in\u00edcio, tudo era sil\u00eancio: um sentimento ainda sem nome, uma presen\u00e7a intu\u00edda, mas n\u00e3o compreendida.\u00a0Aos poucos, por\u00e9m, o que era informe ganha contorno, o disperso se organiza e o sil\u00eancio se converte em palavra. &#8220;A poesia est\u00e1 guardada nas palavras \u2014 \u00e9 tudo que eu sei&#8221;\u00a0(Manoel de Barros).<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559731&quot;:567,&quot;335559739&quot;:0,&quot;335559740&quot;:240}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">O texto revela uma delicadeza rara. O sentimento n\u00e3o chega de forma ruidosa, mas se instala lentamente, at\u00e9 tornar-se presen\u00e7a constante, &#8220;um pensamento que n\u00e3o pede licen\u00e7a&#8221;. Trata-se dessas experi\u00eancias profundas em que algo passa a habitar o interior, reorganizando afetos, mem\u00f3rias e sentidos.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559731&quot;:567,&quot;335559739&quot;:0,&quot;335559740&quot;:240}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">Como na cria\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m aqui h\u00e1 um processo: reconhecer, distinguir, nomear. O que antes era apenas intui\u00e7\u00e3o torna-se consci\u00eancia; o que era sil\u00eancio interior transforma-se em linguagem. E, ao ser nomeado, passa a existir de modo novo. Dar nome \u00e9, de certo modo, participar do gesto criador.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559731&quot;:567,&quot;335559739&quot;:0,&quot;335559740&quot;:240}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">H\u00e1, por fim, uma dimens\u00e3o espiritual que atravessa discretamente todo o texto. Ao falar de encontro, de dom e de luz, ele nos conduz \u00e0 fonte de tudo: Deus. Sem pretender fazer teologia, o poema acaba por\u00a0testemunhar\u00a0que, no fundo, todo amor verdadeiro aponta para Ele.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559731&quot;:567,&quot;335559739&quot;:0,&quot;335559740&quot;:240}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">Ao fim, como no s\u00e9timo dia da cria\u00e7\u00e3o, resta o repouso. N\u00e3o um sil\u00eancio vazio, mas pleno, aquele que guarda, reconhece e agradece. Porque h\u00e1 experi\u00eancias que, uma vez vividas, j\u00e1 n\u00e3o precisam ser explicadas. Basta acolh\u00ea-las. Tornou-se experi\u00eancia, presen\u00e7a, mem\u00f3ria viva. E isso para quem escreve e para quem l\u00ea j\u00e1 \u00e9 tudo.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559731&quot;:567,&quot;335559739&quot;:0,&quot;335559740&quot;:240}\">\u00a0<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dom Jo\u00e3o Santos Cardoso\u00a0 Arcebispo de Natal (RN) &nbsp; O cotidiano nos permite encontros inesperados. Muitos passam sem deixar marca; outros, discretamente, tornam-se significativos. \u00c0s vezes, chegam na forma de uma mensagem, de um texto partilhado, de uma palavra oferecida quase sem pretens\u00e3o. Foi assim que, de maneira inusitada e, ao mesmo tempo, profundamente corriqueira, &hellip;<\/p>\n<p class=\"read-more\"> <a class=\"\" href=\"https:\/\/www.cnbb.org.br\/quando-tudo-ainda-era-silencio\/\"> <span class=\"screen-reader-text\">Quando tudo ainda era sil\u00eancio\u00a0<\/span> Leia mais &raquo;<\/a><\/p>\n","protected":false},"author":105,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":""},"categories":[758],"tags":[],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts\/999649"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/users\/105"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/comments?post=999649"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts\/999649\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":999651,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts\/999649\/revisions\/999651"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/media?parent=999649"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/categories?post=999649"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/tags?post=999649"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}