{"id":999748,"date":"2026-05-06T13:31:33","date_gmt":"2026-05-06T16:31:33","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/?p=999748"},"modified":"2026-05-06T14:07:18","modified_gmt":"2026-05-06T17:07:18","slug":"dom-geraldo-maia-forca-do-estimulo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/dom-geraldo-maia-forca-do-estimulo\/","title":{"rendered":"For\u00e7a do est\u00edmulo"},"content":{"rendered":"<p><strong>Dom Geraldo dos Reis Maia<\/strong><br \/>\n<strong>Bispo de Ara\u00e7ua\u00ed (MG)<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>H\u00e1 v\u00e1rios fatores que influenciam a resposta que damos \u00e0s a\u00e7\u00f5es que s\u00e3o exercidas em nossa vida. Muitos agem por instinto, sem muito pensar ou amadurecer sobre uma dada situa\u00e7\u00e3o. Outros agem mais racionalmente. H\u00e1, ainda, aqueles que respondem afetivamente, visceralmente. Mas, em todas essas respostas, a for\u00e7a do est\u00edmulo \u00e9 fundamental. Tudo depende de como somos estimulados para reagirmos em determinadas situa\u00e7\u00f5es. Afinal, o que \u00e9 o est\u00edmulo?<\/p>\n<p>O dicion\u00e1rio Houaiss nos diz que est\u00edmulo \u00e9 \u201ca ponta aguda de objeto que pica; aguilhada, aguilh\u00e3o, pua\u201d. No seu sentido figurado, \u201c\u00e9 aquilo que estimula, que anima, que incita \u00e0 atividade, \u00e0 realiza\u00e7\u00e3o de algo\u201d. Quanto ao sentido psicol\u00f3gico, \u201c\u00e9 parte do mundo exterior de complexidade vari\u00e1vel, cuja mudan\u00e7a qualitativa e\/ou quantitativa gera rea\u00e7\u00f5es correspondentes, proporcionais aos graus e tipos desta mudan\u00e7a, e capazes de serem distinguidas quanto \u00e0 qualidade e quantidade\u201d.<\/p>\n<p>Precisamos ser estimulados para que possamos responder satisfatoriamente aos desafios que nos s\u00e3o propostos, seja na educa\u00e7\u00e3o, nas rela\u00e7\u00f5es familiares, sociais, eclesiais&#8230; Em tudo aquilo que somos chamados a realizar, o fazemos melhor se estivermos bem estimulados. E este est\u00edmulo pode ser de v\u00e1rias ordens, mas conv\u00e9m que seja moralmente adequado. A pessoa n\u00e3o pode se enveredar pelos caminhos da pol\u00edtica, da medicina, do direito, ou de qualquer outra \u00e1rea apenas por quest\u00f5es financeiras. Esse n\u00e3o \u00e9, necessariamente, um est\u00edmulo adequado. Antes, sua realiza\u00e7\u00e3o pessoal deve estar ligada \u00e0 dimens\u00e3o do servi\u00e7o ao bem comum, realizando bem sua miss\u00e3o.<\/p>\n<p>Arthur Pougin nos conta, em sua obra <em>Vita aneddotica di Verdi<\/em>, que o grande m\u00fasico passou por uma situa\u00e7\u00e3o muito dif\u00edcil em sua vida. Ap\u00f3s alguns sucessos iniciais, o compositor de \u00f3peras conseguira um contrato com o teatro Scala di Milano para a produ\u00e7\u00e3o de tr\u00eas \u00f3peras. Enquanto trabalhava na sua segunda \u00f3pera, perdera sua jovem e amada esposa, depois de ter j\u00e1 perdido seu casal de filhos, num per\u00edodo de apenas dois anos. Foi nesse clima de luto que finalizou sua segunda \u00f3pera do contrato. Sua apresenta\u00e7\u00e3o foi um fiasco. Tudo isso levou o m\u00fasico a uma profunda crise, beirando \u00e0 depress\u00e3o profunda. Vendeu seus poucos bens e pediu rescis\u00e3o de seu contrato a Morelli, seu amigo e diretor do Scala. Depois de insistir com o amigo, Morelli o liberou de seu encargo, deixando-o \u00e0 vontade para voltar quando quisesse. Verdi refugiou-se numa pequena cidade onde seu sogro residia.<\/p>\n<p>Em poucos meses o m\u00fasico n\u00e3o conseguia viver mais naquela cidade. Ele estava acostumado com o glamour de Mil\u00e3o. Voltou ali e se ocupava em realizar pequenos trabalhos, mas convencido a n\u00e3o mais compor \u00f3peras. Morelli, que bem conhecia seu amigo, solicitou a Verdi que fizesse uma avalia\u00e7\u00e3o de um libreto de <em>Solera<\/em>. Amigavelmente, e sem pretens\u00f5es trabalhistas e financeiras, ele aceitou e levou o libreto para sua casa. Come\u00e7ou a l\u00ea-lo, ficando encantado com a beleza da obra de conte\u00fado b\u00edblico e percebendo a pot\u00eancia musical daquele texto sobre o Ex\u00edlio da Babil\u00f4nia. Passou a noite lendo e tra\u00e7ando alguns ensaios de poss\u00edveis partituras. No dia seguinte, apresentou-se a seu amigo dizendo que o libreto seria excelente para ser musicado. Morelli percebeu o entusiasmo do amigo e, conhecendo e confiando em seu genial talento, lhe exigiu que compusesse a m\u00fasica para aquela \u00f3pera. Era o est\u00edmulo que faltava a Verdi.<\/p>\n<p>Em tr\u00eas meses as partituras estavam prontas e come\u00e7aram os ensaios. Pougin nos conta que ningu\u00e9m trabalhava no teatro enquanto aconteciam os ensaios. Todos os funcion\u00e1rios ficavam ali, boquiabertos contemplando a beleza do espet\u00e1culo. No dia 9 de mar\u00e7o de 1842 estreava a \u00f3pera <em>Nabucco<\/em>, no <em>Scala di Milano<\/em>, em grande estilo, com grande ova\u00e7\u00e3o. Depois da terceira noite de sucesso, Morelli procurou<\/p>\n<p>Verdi com um contrato em branco para que compusesse a pr\u00f3xima \u00f3pera, dizendo \u201caquilo que a\u00ed escrever, ser\u00e1 cumprido\u201d. Quem nunca se emocionou com o <em>Va pensiero<\/em>, conhecido como o \u201cCoro dos escravos hebreus\u201d? Depois disso foram compostas grandes \u00f3peras, com todo vigor musical: <em>I Lombardi, MacBeth, La Battaglia di Legnano, La forza del destino, Aida, Falstaff&#8230;.<\/em><\/p>\n<p>Na sua profunda crise, Verdi precisou ser estimulado pelo amigo Morelli. N\u00e3o em termos financeiros, mas a partir daquilo que nutria o m\u00fasico, que era o gosto pela arte. Diante de novas perspectivas, o m\u00fasico encantou-se e deixou-se apaixonar novamente pelo gosto de fazer o que amava. O est\u00edmulo do amigo fez com que Verdi redescobrisse a beleza da m\u00fasica diante do drama da exist\u00eancia. Ao deparar-se com a for\u00e7a do drama, o artista ressignificou o sentido de sua exist\u00eancia e passou a ajudar as pessoas a superarem seus dramas por meio da beleza e do encanto da m\u00fasica.<\/p>\n<p>Precisamos descobrir como estimular as pessoas para que possam oferecer o melhor de si naquilo que fazem. O Evangelho \u00e9 a nossa fonte de inspira\u00e7\u00e3o. Jesus transformou pessoas simples do povo em anunciadores intr\u00e9pidos do Reino de Deus. Entre os disc\u00edpulos de Jesus n\u00e3o havia muitos s\u00e1bios e entendidos. Entre eles, havia pescadores, cobrador de impostos, militantes sect\u00e1rios&#8230; Todos foram estimulados pelo sonho do Reino. Ao testemunharem seu Mestre dar a vida por esse Reino, encheram-se de esperan\u00e7a; fortalecidos pela experi\u00eancia da ressurrei\u00e7\u00e3o e pela for\u00e7a do Esp\u00edrito Santo, sa\u00edram anunciando o Evangelho at\u00e9 derramar o pr\u00f3prio sangue, na for\u00e7a do est\u00edmulo de Jesus.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dom Geraldo dos Reis Maia Bispo de Ara\u00e7ua\u00ed (MG) &nbsp; H\u00e1 v\u00e1rios fatores que influenciam a resposta que damos \u00e0s a\u00e7\u00f5es que s\u00e3o exercidas em nossa vida. Muitos agem por instinto, sem muito pensar ou amadurecer sobre uma dada situa\u00e7\u00e3o. Outros agem mais racionalmente. H\u00e1, ainda, aqueles que respondem afetivamente, visceralmente. 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