{"id":999857,"date":"2026-05-11T15:45:40","date_gmt":"2026-05-11T18:45:40","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/?p=999857"},"modified":"2026-05-11T15:48:53","modified_gmt":"2026-05-11T18:48:53","slug":"dom-joao-cardoso-sobreviver-e-viver","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/dom-joao-cardoso-sobreviver-e-viver\/","title":{"rendered":"Sobreviver e Viver"},"content":{"rendered":"<p><strong>Dom Jo\u00e3o Santos Cardoso<\/strong><br \/>\n<strong>Arcebispo de Natal (RN)<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Em um di\u00e1logo com um amigo, ele me dizia que sobrevivia bem: tinha um trabalho, conseguia seguir em frente, cumpria seus deveres, mantinha a rotina e dispunha de boas rela\u00e7\u00f5es, de boas amizades \u2026 e, ainda assim, sentia que lhe faltava algo para viver.<\/p>\n<p>Passei dias refletindo sobre essa distin\u00e7\u00e3o entre sobreviver e viver. Aquela partilha, marcada por sinceridade, evidencia uma experi\u00eancia comum, por\u00e9m muitas vezes silenciada: \u00e9 poss\u00edvel cumprir a rotina e, ainda assim, sentir que falta o essencial, a raz\u00e3o de fundo pela qual vale a pena viver e morrer. Trata-se da quest\u00e3o do sentido da vida, que n\u00e3o \u00e9 um problema te\u00f3rico, mas se imp\u00f5e como uma experi\u00eancia existencial. Ela ultrapassa o campo das satisfa\u00e7\u00f5es materiais e se insere no horizonte mais profundo da exist\u00eancia, dos valores, da \u00e9tica e do mist\u00e9rio. Por isso, mesmo em uma vida aparentemente organizada, pode surgir uma esp\u00e9cie de \u201cex\u00edlio interior\u201d, quando os acontecimentos do cotidiano deixam de convergir para uma dire\u00e7\u00e3o maior.<\/p>\n<p>Tempos depois, ele me enviou um aforisma de S\u00f8ren Kierkegaard, no qual afirma: \u201co que realmente sinto falta \u00e9 de ter clareza mental do que devo fazer [&#8230;] o segredo \u00e9 encontrar uma verdade que seja verdadeira para mim, encontrar a ideia segundo a qual eu possa viver e morrer\u201d (Di\u00e1rios, 1836). Ent\u00e3o, a distin\u00e7\u00e3o tornou-se ainda mais clara: quem apenas sobrevive limita-se a cumprir a rotina, tende a se acomodar e n\u00e3o se inquieta; quem vive, busca o sentido da exist\u00eancia, assume o caminho e n\u00e3o foge. Essa busca conduz ao aprofundamento da pr\u00f3pria vida e revela uma aut\u00eantica vitalidade espiritual. Contudo, ela n\u00e3o se resolve apenas pela raz\u00e3o, nem come\u00e7a com respostas prontas, mas com a coragem de permanecer aberto, sem fugir da pr\u00f3pria busca. Aos poucos, vai-se percebendo que a raz\u00e3o para viver n\u00e3o se reduz a uma ideia abstrata, mas se define no encontro com algo ou com Algu\u00e9m que d\u00e1 unidade, dire\u00e7\u00e3o e sentido a tudo o mais.<\/p>\n<p>H\u00e1 quem intua o caminho, ainda que n\u00e3o o reconhe\u00e7a plenamente, e se depare com o medo, por estar diante de algo verdadeiro e decisivo que exige resposta. H\u00e1 tamb\u00e9m quem reconhece que, talvez, j\u00e1 esteja pronto, mas teme \u201ca colheita\u201d. Essa percep\u00e7\u00e3o revela que, muitas vezes, o problema n\u00e3o est\u00e1 na aus\u00eancia de caminho, mas na resist\u00eancia em percorr\u00ea-lo. O medo, nesse caso, n\u00e3o indica vazio, nem est\u00e1 propriamente no caminho, mas naquilo que ele exige de n\u00f3s.<\/p>\n<p>Ao reconhecermos que a busca de sentido \u201ctoca em Deus e no que Ele quer de n\u00f3s\u201d, torna-se evidente que h\u00e1 uma dire\u00e7\u00e3o. Mesmo sem clareza plena, existe uma intui\u00e7\u00e3o que orienta o caminho. \u00c9 justamente nesse momento que a f\u00e9 se torna essencial, pois nos permite avan\u00e7ar mesmo sem possuir toda a evid\u00eancia. Compreendemos, ent\u00e3o, que a clareza n\u00e3o antecede o caminho; ela amadurece no pr\u00f3prio caminhar.<\/p>\n<p>Diante do medo, torna-se fundamental distinguir entre prud\u00eancia e adiamento. \u00c9 leg\u00edtimo n\u00e3o for\u00e7ar respostas prematuras; contudo, \u00e9 necess\u00e1rio discernir se a espera n\u00e3o encobre, de forma sutil, o receio de assumir aquilo que j\u00e1 foi intu\u00eddo. Nesse sentido, o medo pode ser compreendido n\u00e3o como aus\u00eancia de sentido, mas como sinal de sua proximidade e de sua exig\u00eancia.<\/p>\n<p>O sentido da vida tamb\u00e9m depende da atitude com a qual nos colocamos diante do mundo. Viver plenamente consiste em entrar em harmonia com a realidade, n\u00e3o de forma passiva, mas como ades\u00e3o consciente a um mist\u00e9rio que nos envolve e nos remete a Deus. Assim, a passagem do \u201csobreviver\u201d para o \u201cviver\u201d n\u00e3o ocorre por mudan\u00e7as externas, mas por uma transforma\u00e7\u00e3o interior. \u00c9 o momento em que a vida deixa de ser mera sucess\u00e3o de acontecimentos e se torna resposta a um chamado, que se manifesta concretamente nas experi\u00eancias, nas intui\u00e7\u00f5es e nas inquieta\u00e7\u00f5es que atravessam a\u00a0exist\u00eancia. Por isso, n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio esperar uma compreens\u00e3o total para agir. O essencial \u00e9 dar o passo poss\u00edvel, sem recusar aquilo que j\u00e1 se tornou vis\u00edvel.<\/p>\n<p>Em um contexto marcado pela efici\u00eancia e pela superficialidade, essa distin\u00e7\u00e3o torna-se ainda mais urgente. N\u00e3o basta sobreviver; \u00e9 preciso viver com sentido, integrar a vida em uma dire\u00e7\u00e3o e responder ao mist\u00e9rio que habita em nosso cora\u00e7\u00e3o. No fundo, viver \u00e9 acolher a inquieta\u00e7\u00e3o como gra\u00e7a, reconhecer nela um chamado de Deus e ter a coragem de avan\u00e7ar, mesmo sem todas as respostas, confiando que Aquele que iniciou a obra a conduzir\u00e1 \u00e0 plenitude.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dom Jo\u00e3o Santos Cardoso Arcebispo de Natal (RN) &nbsp; Em um di\u00e1logo com um amigo, ele me dizia que sobrevivia bem: tinha um trabalho, conseguia seguir em frente, cumpria seus deveres, mantinha a rotina e dispunha de boas rela\u00e7\u00f5es, de boas amizades \u2026 e, ainda assim, sentia que lhe faltava algo para viver. 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