{"id":999986,"date":"2026-05-15T16:25:06","date_gmt":"2026-05-15T19:25:06","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/?p=999986"},"modified":"2026-05-15T16:26:16","modified_gmt":"2026-05-15T19:26:16","slug":"o-ultimo-lugar-onde-viram-o-senhor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/o-ultimo-lugar-onde-viram-o-senhor\/","title":{"rendered":"O \u00faltimo lugar onde viram o Senhor"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><strong>Dom Lindomar Rocha Mota<\/strong><br \/>\nBispo de S\u00e3o Lu\u00eds de Montes Belos (GO)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A despedida de Jesus no monte da Galileia e depois nas proximidades de Jerusal\u00e9m \u00e9 a lembran\u00e7a de um evento que mais tarde revelar\u00e1 tudo. Pertencente \u00e0quela ordem misteriosa das aus\u00eancias fecundas, em que algu\u00e9m se retira para que sua presen\u00e7a, deixando de ser vista de fora, comece a trabalhar por dentro.<\/p>\n<p>Os onze subiram ao monte que lhes fora indicado. J\u00e1 n\u00e3o eram os mesmos homens que haviam fugido e fechado as portas, mas traziam aquele cansa\u00e7o que sucede \u00e0s grandes transforma\u00e7\u00f5es do cora\u00e7\u00e3o. Tinham visto a morte em toda a sua brutalidade e ouvido o sil\u00eancio da tarde cair sobre o Calv\u00e1rio. Tinham conhecido o s\u00e1bado sem explica\u00e7\u00e3o, a lentid\u00e3o das horas dormentes, a impress\u00e3o de que todas as promessas haviam sido sepultadas junto com o corpo amado. E, no entanto, Ele estava ali.<\/p>\n<p>\u201cQuando o viram, prostraram-se; mas alguns duvidaram\u201d. Como \u00e9 humana, e por isso mesmo t\u00e3o verdadeira, esta frase. A adora\u00e7\u00e3o e a d\u00favida ajoelhadas no mesmo ch\u00e3o \u00e9 o retrato da f\u00e9 e a hesita\u00e7\u00e3o convivendo no mesmo espa\u00e7o. O cora\u00e7\u00e3o querendo acreditar e a intelig\u00eancia fadigando ante a \u00faltima n\u00e9voa da dor. Dificuldade de acreditar que a morte, t\u00e3o exata em sua viol\u00eancia, tivesse sido desmentida.<\/p>\n<p>E ent\u00e3o Ele diz: \u201cToda autoridade me foi dada no c\u00e9u e sobre a terra, portanto, ide.\u201d Uma despedida que come\u00e7a com um envio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quem ama e se despede costuma querer reter os seus e multiplicar recomenda\u00e7\u00f5es, como se as palavras pudessem atrasar a aus\u00eancia. Jesus, por\u00e9m, despede-se abrindo o mundo para que os seus n\u00e3o fiquem fechados em suas lembran\u00e7as, mas sejam lan\u00e7ados na estrada da miss\u00e3o para ser e fazer disc\u00edpulos.<\/p>\n<p>A despedida n\u00e3o \u00e9 mais para consolar, mas para entregar uma tarefa. Mesmo sem compreender os disc\u00edpulos s\u00e3o enviados. Isso os impedir\u00e1, mais tarde, de anunciar o Evangelho com arrog\u00e2ncia, pois pesava em suas mem\u00f3rias o fato de que eles mesmos haviam sido alcan\u00e7ados na dispers\u00e3o.<\/p>\n<p>A melancolia daquela hora n\u00e3o estava em perder Jesus, pois Ele mesmo prometia permanecer. A melancolia vinha da consci\u00eancia de que o modo antigo de o ter chegava ao fim. J\u00e1 n\u00e3o poderiam ret\u00ea-lo como antes, \u00e0 beira do lago ou nas noites de pergunta e espanto. A intimidade afetuosa dos dias da Galileia entrava agora numa forma mais alta e mais exigente. Teriam de aprender a presen\u00e7a do ausente e a reconhecer o Mestre nos sinais, na Palavra, no p\u00e3o, nos pobres, na assembleia, no Esp\u00edrito que sopra onde quer.<\/p>\n<p>Retirar uma forma de presen\u00e7a para inaugurar outra \u00e9 uma das passagens delicadas da f\u00e9. N\u00f3s, que somos feitos de lembran\u00e7as, sofremos quando a gra\u00e7a muda sua fei\u00e7\u00e3o. Queremos o mesmo caminho, o mesmo modo, a mesma do\u00e7ura antiga. Mas o Senhor nos educa e tira-nos da depend\u00eancia sens\u00edvel para nos introduzir numa fidelidade mais profunda e alargada.<\/p>\n<p>Ele parte, mas permanece. Sobe, mas acompanha. Retira-se dos olhos, mas n\u00e3o da hist\u00f3ria. A esperan\u00e7a nasce dessa tens\u00e3o. O Ressuscitado, antes de partir, quis acostumar-nos \u00e0 nova gram\u00e1tica da sua presen\u00e7a. N\u00e3o basta recordar, \u00e9 preciso esperar e receber o Esp\u00edrito Santo.<\/p>\n<p>H\u00e1 na Ascens\u00e3o uma beleza quase dolorosa. Os disc\u00edpulos permanecem olhando para o alto, como quem tenta conservar, no \u00faltimo contorno vis\u00edvel, a presen\u00e7a que se afasta. Tentativa falida de reter a imagem, fix\u00e1-la na mem\u00f3ria, impedir que o tempo a desfizesse. Um desses instantes em que o olhar se torna avarento como se a mem\u00f3ria pudesse defender-se contra a perda recolhendo min\u00facias. Por isso continuavam olhando.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o aparecem dois homens vestidos de branco e impede que a saudade se transforme em melancolia. Os disc\u00edpulos foram impedidos de permanecer prisioneiros do \u00faltimo lugar onde viram o Senhor. O c\u00e9u para onde Ele subiu n\u00e3o os dispensa da terra para onde s\u00e3o enviados.<\/p>\n<p>A esperan\u00e7a fica, ent\u00e3o, estendida entre duas vindas. A primeira, humilde e pascal; a \u00faltima, gloriosa e definitiva. Entre elas, vive a Igreja. Vive de mem\u00f3ria e promessa, de saudade e miss\u00e3o. Ela sabe que o Esposo partiu, mas n\u00e3o a abandonou.<\/p>\n<p>A despedida final de Jesus foi a passagem do Evangelho para a vida da Igreja. Enquanto os disc\u00edpulos o viam subir, come\u00e7ava uma nova forma de exist\u00eancia &#8211; Cristo estaria no an\u00fancio dos ap\u00f3stolos, na \u00e1gua do batismo e na travessia de todos os que, mesmo sem t\u00ea-lo visto, continuariam amando-o.<\/p>\n<p>O monte da Galileia e o monte da Ascens\u00e3o formam, assim, uma \u00fanica narrativa. Na Galileia, Jesus prometeu que estaria conosco at\u00e9 o fim dos tempos; em Jerusal\u00e9m, anunciou que receber\u00edamos o Esp\u00edrito. As duas cenas se completam como duas faces de uma mesma despedida. E n\u00f3s, seus disc\u00edpulos, que t\u00ednhamos ficado olhando para o alto, descemos de novo para o ch\u00e3o duro da vida, pois a esperan\u00e7a cat\u00f3lica n\u00e3o se sustenta apenas olhando para o c\u00e9u, mas caminhando na terra com a certeza de que o c\u00e9u j\u00e1 foi aberto.<\/p>\n<p>A melancolia daquela hora era a penumbra entre a \u00faltima vis\u00e3o e a primeira miss\u00e3o, entre o rosto que se retirava e o Esp\u00edrito que viria, entre a saudade dos olhos e a confian\u00e7a do cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dom Lindomar Rocha Mota Bispo de S\u00e3o Lu\u00eds de Montes Belos (GO) A despedida de Jesus no monte da Galileia e depois nas proximidades de Jerusal\u00e9m \u00e9 a lembran\u00e7a de um evento que mais tarde revelar\u00e1 tudo. 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