Dom Alberto Taveira Corrêa 
Arcebispo de Belém do Pará (PA)

 

“Ó Deus de eterna misericórdia, na festa anual da Páscoa reacendeis a fé do povo a vós consagrado. Aumentai a graça que destes, para que todos compreendam melhor o Batismo que os lavou, o Espírito que os regenerou, e o Sangue que os redimiu. De fato, durante o Tempo Pascal, a Igreja nos apresentou as experiências vividas pelos primeiros cristãos com a presença do Ressuscitado. Depois, conduziu-nos a refletir, com a ajuda das orações oferecidas pela Liturgia, a entender melhor os Sacramentos, começando pelo Batismo (“o Batismo que os lavou”) e levando-nos à Eucaristia (“o Sangue que os redimiu”), para preparar-nos ao grande presente do Ressuscitado, no Pentecostes (“O Espírito que os regenerou”).  

Recentemente, tudo isso nos colocou diante da Imagem do Bom Pastor, sabendo que o próprio Cordeiro imolado é o pastor e nos conduz às fontes da água da vida (cf. Ap 7,17), o que se expressa de modo magnífico no Salmo 22. De fato, temos a convicção de que o Senhor é o pastor que nos conduz, e por isso não nos falta coisa alguma, pois pelos prados e campinas verdejantes leva seu rebanho a descansar, restaurando suas forças. Esta é a vocação da Assembleia de Fé que se reúne para a Palavra e para a Eucaristia, o verdadeiro repouso de cada Domingo! Por causa da honra de seu nome, mesmo quando passamos por vales tenebrosos da escuridão física ou espiritual, nenhum mal precisamos temer, já que ele está conosco com bastão e com cajado, guiando-nos no caminho mais seguro, dando-nos a segurança para superar os obstáculos sempre presentes! 

E no mesmo Salmo podemos entrever o que corresponde aos Sacramentos da Iniciação Cristã. O Senhor nos conduz às águas repousantes do Batismo, prepara a mesa da Eucaristia, onde seu cálice transborda e o Sacramento da Crisma, com o Óleo do Espírito que unge nossa cabeça! Com tais graças, nasce a certeza para cada cristão de que a felicidade e todo bem hão de acompanha-lo toda a vida e a garantia de que habitará na casa do Senhor, pelos tempos infinitos. 

Tudo magnífico, mas é necessário encontrar as ajudas necessárias à perseverança, a fim de que não nos deviemos do caminho! O Evangelho do Quinto Domingo da Páscoa nos apresenta Jesus como a Videira verdadeira, da qual o Pai é o agricultor (Jo 15,1-8). Também a Igreja, da qual somos membros vivos, é comparada a realidades do campo: “A Igreja é a agricultura ou o campo de Deus (1 Cor 3,9). Nesse campo cresce a oliveira antiga de que os patriarcas foram a raiz santa e na qual se realizou e realizará a reconciliação de judeus e gentios (Rom 11,13-26). Ela foi plantada pelo celeste agricultor como uma vinha eleita (Mt 21,33-43; Is 5,1 ss.). A verdadeira videira é Cristo que dá vida e fecundidade aos sarmentos, isto é, a nós que pela Igreja permanecemos nele, sem o qual nada podemos fazer” (Jo 15, 1-5). 

Algumas propostas para a perseverança podem ser úteis, para experimentarmos toda a riqueza da seiva que nos vem do tronco verdadeiro que é Cristo: “Permanecei em mim, e eu permanecerei em vós. Como o ramo não pode dar fruto por si mesmo, se não permanecer na videira, assim também vós não podereis dar fruto se não permanecerdes em mim. Eu sou a videira e vós, os ramos. Aquele que permanece em mim, como eu nele, esse dá muito fruto; pois sem mim, nada podeis fazer” (Jo 15,4-5). 

Seja qual for a etapa de vida cristã em que cada um de nós se encontrar, comecemos por cultivar as raízes de nossa fé, as orações e ensinamentos recebidos no calor amoroso de nosso lar. É hora de recordar as expressões e os gestos mais simples que aprendemos como crianças. Certamente muitas pessoas conhecem uma adaptação de “O meu coração é só de Jesus”, que diz muito do que refletimos: “No tempo em que eu era criança, cantava esse canto pensando em Jesus, agora, Jesus estou vendo no irmão que, sofrendo, carrega sua cruz! Eu vou com fé viver a vida, levar amor onde faltar, levo comigo a esperança de todo mundo poder cantar: ‘O meu coração é só de Jesus, a minha alegria é a Santa Cruz’”. A gente no mundo de hoje precisa ser forte pra não vacilar, se a gente não tomar cuidado Deus fica de lado e o fracasso virá. Os homens só vivem pensando que felicidade é dinheiro na mão. Feliz é quem faz caridade e não guarda maldade no seu coração. Queria sair pelo mundo, gritando bem forte que existe o amor, queria que em todo semblante se abrisse um sorriso igual uma flor. Há gente que vive brigando, que vive falando da vida que tem! A vida é um peso suave, que a gente carrega do jeito que vem. Eu sinto que a vida da gente, parece uma hóstia na mesa do altar, um pão repartido com todos, louvor que se oferta no dom de se dar!” Oração pessoal, feita com simplicidade e espontaneidade! 

Depois, perseverança se cultiva com a força da Palavra de Deus, lida, meditada, rezada e vivida! Quem experimenta quinze minutos diários de leitura da Bíblia, durante um ano, lê a Bíblia inteira. Mas não é para contar vantagem, pois Palavra acolhida, transforma-se em vida e em testemunho! 

O espaço mais adequado para perseverar na fé é a vida de Comunidade na Igreja. Missa Dominical, Comunhão e oração com os irmãos, um verdadeiro oásis no meio de tanta secura nos desertos da vida, tantas vezes cheios de gente! E lá na Igreja, cada pessoa poderá encontrar o espaço da Reconciliação e da Paz, no Sacramento da Penitência, o abraço da Misericórdia de Deus, para recomeçar sempre, pois sabemos de nossa condição de pecadores. 

Entretanto, a perseverança – “Permanecei em mim, e eu permanecerei em vós. Como o ramo não pode dar fruto por si mesmo, se não permanecer na videira, assim também vós não podereis dar fruto se não permanecerdes em mim” (Jo 15,4) – há de produzir frutos na caridade e no espírito de serviço ao próximo. Abre-se um leque imenso de possibilidades para se concretizar o amor aos irmãos. Alguém está numa crise profunda? Ajude esta pessoa a sair de si mesma, parar de olhar permanentemente no espelho de suas eventuais vaidades e também feiuras ou defeitos, para ir ao encontro dos outros. Servindo ao próximo, com certeza voltará a alegria de viver. Eis a experiência de Paulo, ao despedir-se de uma Comunidade, deixando-lhes a responsabilidade de serem fiéis e perseverantes, e tomemos posse das mesmas exortações: “Agora entrego-vos a Deus e à sua palavra misericordiosa, que tem poder para edificar e dar a herança a todos os que foram santificados. Não cobicei prata, ouro ou vestes de ninguém. Vós bem sabeis que estas minhas mãos providenciaram o que era necessário para mim e para os que estavam comigo. Em tudo vos mostrei que, trabalhando desse modo, se deve ajudar aos fracos, recordando as palavras do Senhor Jesus, que disse: ‘Há mais felicidade em dar do que em receber’”. Tendo dito isto, Paulo ajoelhou-se e orou com todos eles” (At 20,32-36). Assim seja também em nossa vida! 

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